Mário Lago foi incluído, pelo pesquisador Jairo Severiano, na lista dos
artistas da Era de Ouro da Música Popular Brasileira. Alguns de seus sucessos,
como Amélia e Nada além, são tocados até hoje e se tornaram clássicos absolutos.
Vamos conhecer um pouco da história desse carioca nascido em 26/11/1911, na Rua
do Resende, 150, no Centro. Filho de maestro Antônio Lago e de Francisca Maria Vicencia Croccia Lago, herdou a rebeldia no sangue. Era neto de um anarquista,
o flautista italiano Giuseppe Croccia. Filho único e muito mimado pelos pais.
Tornou-se marxista e chegou a ser
preso seis vezes, a primeira em 1932. Fez
um comício em uma fábrica e depois saiu sozinho. Acabou preso. Mas as suas
convicções não se alteraram. Depois do casamento com Zeli, filha de um comunista,
abandonou a noite a boemia e juntos a vida toda, ao lado de seus cinco filhos: Antônio
Henrique, Graça Maria, Mário Lago Filho, Luís Carlos (em homenagem ao líder
comunista Luís Carlos Prestes) e Vanda.
Nos anos 30, Mário se formou na Faculdade Nacional de Direito da UFRJ,
onde prevalecia a influência do Partido Comunista. Seus contemporâneos foram Carlos Lacerda,
Lamartine Babo e Jorge Amado, na época, todos identificados com a esquerda. Desde
muito cedo, gostava de escrever poesia. A profissão não lhe atraiu muito e,
meses depois de seu início, largou tudo e foi trabalhar como letrista no teatro
de revista. Em 1933, no Teatro Recreio, estreou em parceira com Custódio Mesquita, com a música Menina, eu sei de uma coisa, que foi gravada por outro Mário, o Reis.
Torcia alucinadamente pelo Fluminense e, quando era jovem, era
frequentador da Lapa. Namorou a mulher mais importante da vida de Noel Rosa: a dançarina
de cabaré Ceci. Para Jairo Severiano, Mário era bem diferente de Noel: “era jovem,
solteiro, bem afeiçoado e tratava muito bem a Ceci”. Já Noel, todos nós
sabemos, já era casado, não era bonito, estava doente e não costumava tratar
tão bem a sua antiga paixão.
Tudo
acontecia no Rio nas ruas e bares da Lapa. Estavam ali as sedes dos jornais
mais importantes, como o Jornal do
Brasil, Diário Carioca, e as emissoras radiofônicas: a Rádio Cruzeiro do
Sul, a Rádio JB, a Rádio Cajuti, a Rádio Sociedade, a Rádio Globo. Aos poucos, Mário Lago começou a frequentar
as emissoras e ficou amigo dos compositores que vendiam música no Café Nice, onde
discutiam contratos e procuravam parceiros.
A estreia
no rádio mesmo foi na Rádio Panamericana, em São Paulo. Depois, trabalhou na
Mayrink Veiga e na Rádio Nacional, mais de uma vez. Quando se metia em lutas
políticas acabava sendo demitido. Assim foi que, pouco ante do primeiro filho
nascer, teve que ir para São Paulo, a convite de Dias Gomes, que também era
comunista e trabalhava como diretor da Rádio Bandeirantes. Precisava ganhar
dinheiro para cuidar da família. O clima de amizade e camaradagem não foi
encontrado na Capital paulista e o resultado de seu trabalho de redator não
rendeu tanto. Mário disse que as lembranças de São Paulo foram devidamente
apagadas.
Na fase áurea de sua vida como compositor, anos 40 e 50, contou com um
grande parceiro: Ataulfo Alves. A música Amélia, escrita em 1942, fazia uma ode à
mulher submissa. As feministas reclamaram, mas Mário explicou que podia ter
errado, mas era para elogiar a mulher companheira, que estava ao lado do homem
em todas as situações. Para os filhos de Mário Lago, não teria sido uma
encomenda de Getúlio Vargas para enaltecer a mulher passiva, mas sim, uma
homenagem à empregada da cantora Aracy de Almeida, dona Amélia, que lavava,
passava, cozinhava, dava banho no cachorro etc etc. A música fez muito sucesso
no Carnaval, na voz do coautor Ataulfo Alves. Vamos ouvir?
Atire a primeira pedra,
de 1944 também fez enorme sucesso ao
unir como uma luva a música e a letra. Foi outra parceira bem sucedida de Mário
– considerado um dos compositores mais cultos da MPB – e Ataulfo Alves.
https://www.youtube.com/watch?v=h9mcSy_JxyM
com Orlando Silva Atire a primeira pedra,
de 1944.
Assim, foi
uma alegria voltar para a Nacional nos anos 50. Foi ator de peso – interpretou
Herodes na radionovela especial da Semana Santa, de 1959. Fez mais sucesso com autor
da radionovela Presídio de novelas, no
original cubano Carcel de mujeres. No
início, traduzia o original, depois, passou a criar todos os episódios em que
contava a vida triste das mulheres encarceradas.
CD : Vinheta
faixa 20 (anúncio de Presídio de mulheres”)
Para
Mário, havia duas rádios dentro da Nacional. A do 21º andar, onde ficava a
equipe musical. E a dos 22º andar, onde trabalhava a equipe do radioteatro.
Depois da temporada paulista, Mário Lago não poderia imaginar que o volume de
trabalho havia aumentado tanto no Rio. Havia triplicado, segundo ele.
Ao aceitar
o convite do diretor Victor Costa, ele tinha que escrever os capítulos de
vários seriados e novelas que iam ao ar dali a minutos, terminando tudo em cima
da hora, com grande estresse. Estava no fim a era dos cuidados com cada
produção, com a revisão. A ordem era oferecer grande número de novelas, sendo
que havia na equipe gente indicada e que não tinha a menor experiência
dramatúrgica. Os famosos pistolões que sobrecarregavam a equipe artística. Como
também era radioator para completar o salário, Mário tinha que ensaiar,
minimamente, para não dar vexame. Ah, ele também dirigia. Por essas razões, era
considerado um dos principais quadros de todo o rádio brasileiro, segundo
contou a mulher Zeli ao pai de Mário Lago. Segundo o radialista Antônio
Almeida, só havia 14 pessoas que sabiam fazer rádio no Brasil, “e uma delas é
seu mimoso filhinho”.
Vamos
ouvir pequenos trechos de três valsas de Mário Lago:
https://www.youtube.com/watch?v=4Mp7gncX570
Devolve, Não quero saber quem tu és e Será. 2: 54
Às vezes,
ficava tão exausto eu ia para a casa e pedia para a mulher que o acordasse às
6h porque tinha que escrever mais um capítulo que ia ao ar às 10h!
E é claro
que a consciência política o mandava a estimular a profissionalização dos
radialistas, com horário fixo, pagamento de horas extras, férias etc, o que não
acontecia até então. Nos anos 60, a situação política esquentava no Brasil.
Segundo Mário Lago, diante do dissídio de 1962, houve uma nova resistência dos
patrões. No início, a presença dos funcionários era pequena nas assembleias,
mas aos poucos, foi crescendo.
Em Bagaço de beira-estrada, Mário Lago se
perguntou se ele foi preso por lutar pela regulamentação da profissão. Ele
escreveu: “Dos trinta dias de férias, conquista que nenhum setor ainda tinha
alcançado? Dos diversos aumentos obtidos? Fiz isso. Se foi por causa disso,
tudo o mais valeu a pena”.
No Ato
Institucional nº1, logo depois do golpe militar, saiu a lista dos 36 demitidos
da Rádio Nacional, que sofreu intervenção no dia 1º de abril de 1964. Ao lado
de Mário Lago, estavam Dias Gomes, Oduvaldo Viana, Gerdal dos Santos, Mário
Monjardim e muitos outros. Esses profissionais, afastados como funcionários
públicos (não eram concursados), perderam o direito de procurar outros
empregos. Foram renegados a uma espécie de limbo. Trabalhar novamente na época
da ditadura só se fosse com pseudônimo ou se alguém, muito amigo, ajudasse. Ao tentarem
corrigir essa situação, no AI2, o governo vedou os caminhos dos tribunais aos
atingidos por atos do Governo Revolucionário”. (p.239)
Mário Lago
e Dias Gomes acusaram César de Alencar de ter feito a lista e ter entregado aos
militares. Entrevistei Mário Lago uma vez na vida. Foi quando perguntei
pessoalmente o seguinte: se todos sabiam que os dois eram comunistas, como pode
ter certeza que foi César de Alencar quem fez a delação? Mário não hesitou: o
colega fez a lista para os militares porque queria ser diretor da Rádio
Nacional.
Em 1976,
ele recebeu um convite para festejar os 40 anos da Rádio Nacional. A ditadura
já havia acabado, mas ele declinou, explicando a razão:
“Acredite
que teria o maior prazer em sentar-me à mesa com antigos companheiros de
trabalho, gente que lutou ombro a ombro comigo e com outros demitidos, para que
a Rádio Nacional chegasse onde chegou, embora também corresse o risco de me ver
frente a frente com um canalha que
manchou a categoria profissional com uma suja delação que tinha muito de
mesquinhas vinganças pessoais, pois arrolou na infâmia muita gente que nada
sabia dos fatos que lhe foram imputados.”
Tornou-se dos mais completos radialistas brasileiras, autor, ator dono de
belíssima voz. Foi também escritor de memórias que viraram best seller: Bagaço de beira –estrada e Na rolança do tempo. Ele conseguiu continuar a brilhante carreira como ator de
novela e seriados. Trabalhou a vida toda em mais de 50 produções na TV
Globo. Às vezes, não fazia papéis tão
importantes. Foi o caso de O sheik de
Agadir, em que ele fez um nazista chamado Otto Von Lucker, 1966. Mas tinha
prática e garra, e acabava se sobressaindo. Se o público se lembrava dele da
época do rádio, não sei. Ele trabalhou também em mais de 30 filmes, entre eles,
Os herdeiros, de Cacá Diegues. Morreu em 30/5/2002, aos 90 anos, e deixou a
fama de um homem justo, grande contador de histórias.
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