quinta-feira, 7 de julho de 2016

Ismael Silva, o autêntico Bamba do Estácio



Rose Esquenazi


Se você jurar - de Ismael, Nilton Bastos e Francisco Alves


     Ouvimos um trecho de Se você jurar, de Ismael, Nilton Bastos e Francisco Alves.
A história de Ismael Silva é muito interessante. O Bamba do Estácio escreveu mais de 200 canções e tornou-se o legítimo representante da época de ouro da música popular brasileira. Ele foi o grande parceiro de Noel Rosa e fundador, ao lado de outros músicos, da primeira escola de samba do Rio de Janeiro, a Deixa Falar, em 1928. Morreu pobre, como muitos outros músicos.

     Como ensina o pesquisador Jairo Severiano, no livro Uma história da música popular brasileira, os novos compositores do Estácio, inclusive Ismael Silva, aos 13 anos, acreditavam ser os professores do samba.  Afinal, eles mudaram o ritmo que já existia. Como ensaiavam perto da Escola Normal, que forma professores, se sentiam mestres. Os vizinhos começaram a debochar do nome:  “Mas que escola, que nada”. Reunido, o grupo teria reagido com essa expressão: Deixa falar. Foi aí que Ismael resolveu organizar o grupo uniformizado, cujo embrião foi o bloco A União Faz a Força.

     No porão de uma casa de cômodos, os integrantes ensaiavam as músicas, os passos, os volteios. Impressionaram e deslumbraram todos os viram pela primeira vez vestidos com tecidos brilhantes e enfeites cintilantes. Incluíram também o surdo e a cuíca, pela primeira vez. Isso em 1928.  Hoje, os historiadores classificam a escola como rancho, que durou três anos apenas. Mas não importa. A partir dessa agremiação, surgiram as outras escolas de samba. Em seu depoimento no Museu da Imagem e do Som, Ismael Silva revelou que foi ele quem criou o novo samba para ajudar na fluidez do desfile. Com os sambas anteriores, não era possível desfilar. Na verdade, não foi ele sozinho e sim seu grupo de bambas.

     Frequentador do Bar Apollo e do Café do Compadre, no Estácio, Ismael conviveu com inúmeros sambistas. Mano Edgar, Baiaco, Mano Rubens (Rubens Barcellos), Nilton Bastos, Brancura, Bíde, Marçal, Francelino Ferreira Godinho e outros. Eles também gostavam das rodas de samba que aconteciam no morro do Salgueiro e da Mangueira.  Alguns eram conhecidos como malandros, que gostavam de brigar e detestavam trabalhar.

     Ismael nasceu no dia 14 de setembro de 1905, em Jurujuba, praia que fica perto de Niterói. Filho de cozinheiro e de lavadeira, ele tinha cinco irmãos. Por conta das dificuldades financeiras, a mãe, já viúva, mudou-se para o bairro do Estácio. Ismael pediu para ir à escola, mas era muito cedo ainda. Aos 7 anos, o menino decidiu: foi para a escola sozinho e disse para a professora que queria estudar. Com a permissão, o aluno sobressaiu com boas notas. Aos 15 anos, Ismael compôs o samba Já desisti. Aos 18, terminou o ginásio e empregou-se na Central do Brasil e no escritório de um advogado. Não ficou muito tempo.

   
      Em
1925, aos 20 anos, teve o primeiro samba gravado: Me faz carinhos. A música chamou a atenção de Francisco Alves, que já era o maior cantor brasileiro.  Em 1927, internado no Hospital da Gamboa, Bide informou que Francisco Alves, queria comprar seu samba Me faz carinhos por 100 mil réis. Em 1928, o próprio Rei da Voz apareceu de carro na frente do Bar Apollo e mandou chamar Ismael. Pediu que ele cantasse todas as músicas que havia composto. Foi assim que Chico Viola propôs parceria exclusiva.  Todos os sambas teriam o nome de Francisco Alves em parceria com Ismael Silva. O  material seria gravado e entraria na rádio mais popular da época porque apostava no samba, a Mayrink Veiga. Ismael topou, mas tinha uma questão: as músicas também foram compostas por Nilton Bastos. De 1931 a 1940, a Época de Ouro da música brasileira, 32% de todas as gravações eram sambas.

     Com esse argumento, formou-se o trio que ficou conhecido como Bambas do Estácio, em 1928.  É dessa época o samba que ouvimos na abertura do quadro, Se você jurar. Muitos dizem que a música toda era de Nilton Bastos. Considerado um dos mais belos da história, foi lançado em 1931 e teve 100 gravações diferentes. O sucesso do trio foi imediato. Mas Nilton Bastos morreu cedo, em 1931, e ficaram Chico e Ismael. Um cantava e o outro compunha. Segundo Jairo Severiano, o acordo foi bom para a dupla porque projetou o compositor desconhecido.

     Na sociedade, Chico gravou Que Será de Mim, A Razão Dá-se a Quem Tem, Para Me Livrar do Mal, Sofrer É da Vida, Amor de Malandro, Quem Não Quer Sou Eu, Nem É Bom Falar, Ao Romper da Aurora, Ando Cismado, a já citada Se Você Jurar e Tristezas Não Pagam Dívidas.

     Ismael gostava de se vestir bem, era elegante com seu terno branco de linho ou azul marinho. Com a morte de Nilton Bastos, ele se encontrou com o fabuloso Noel Rosa. Tornou-se o maior parceiro do compositor de Vila Isabel. Ao todo, compuseram nove composições. Entre elas, Para me livrar do mal, Adeus, Gosto, Ando Cismado. Vamos ouvir Quem não quer sou eu, com Francisco Alves.

     Ismael Silva aprendeu violão com Gorgulho, integrante do regional de Benedito Lacerda. A parceria com o Rei da Voz durou 10 anos. Nos shows, muitas pessoas perguntavam quem era Ismael Silva. Tantas vezes isso aconteceu que, uma noite, o cantor apresentou à plateia o parceiro de muitos sucessos. Levou-o ao palco e proclamou: “Este é o Ismael Silva, o preto de alma branca!”
Havia preconceito racial explícito e Ismael sofreu por ser negro e de origem pobre. Mas a originalidade do samba se impôs e conquistou os brancos. Ary Barroso, Noel Rosa, Mário Reis e Francisco Alves passaram a conhecer os segredos do samba e a sincopação mais rica. Segundo explicou o musicólogo Carlos Sandroni, o ritmo ficou livre da influência do maxixe.  Vamos ouvir o Rei da Voz interpretando Tristezas Não Pagam Dívidas.


     Nas pesquisas do escritor Luis Antônio Giron, na obra Mário Reis: o fino do samba, ele chegou à conclusão que, aspas: “Ismael destacava-se dos outros, pois se vestia melhor, usava jóias e era homossexual assumido”. O que hoje é visto com naturalidade, naquela época era sinônimo de defeito físico e moral. O escritor Paulo Lins, no seu livro Desde que o samba é samba, tocou no mesmo assunto. As informações irritaram os amigos de Ismael Silva que não concordaram com a interpretação do autor de Cidade de Deus.
Há também outras versões, de que Ismael teria tido um único romance na sua existência. Teria sido com a passista chamada Diva Lopes Nascimento, com quem teve uma filha, nunca assumida por ele.

      É bom lembrar que Ismael teve uma história triste que o marcou para sempre. Com personalidade impetuosa, em 1935, deu dois tiros em Edu Motorneiro, um valentão que se engraçou com insultos dirigidos à irmã de Ismael. Ele foi preso, mas, devido a seu comportamento, a pena foi reduzida à metade. Quando saiu da prisão, ficou deslocado no meio musical. Noel já havia morrido e a parceria com Francisco Alves terminado havia muito tempo. Na época, a área musical estava bem organizada e mais profissional. O compositor se retraiu. Ismael conseguiu emplacar um ou outro sucesso, como Antonico,  com Alcides Gerardi. Na gravação, podemos ouvir a voz de Ismael Silva. A música foi regravada, em 1971, pela cantora Gal Costa.

     Na lista de composições de Ismael Silva estão também Liberdade, Uma Jura que eu Fiz, Até Amanhã, Adeus, Deixa Falar e Boa Viagem. Em vida, ele ganhou o título de Cidadão Samba, pela Associação das Escolas de Samba do Brasil.  Participou do show O Samba Pede Passagem, no Teatro Opinião, em 1965. Três anos depois, os jornalistas Sérgio Porto, Sérgio Cabral e Lúcio Rangel decidiram trazer à tona o samba, incluindo os bambas da Velha Guarda. Eles convenceram a antiga TV Record a lançarem o festival A Bienal do Samba, onde surgiram novos compositores e intérpretes que amavam o ritmo. Os jovens, como Baden Powell, Paulo César Pinheiro e Chico Buarque, se destacaram mais do que os mais velhos. A exceção foi Cartola que apresentou o lindo samba Tive sim.

     Nos anos 70, Ismael Silva passou a se apresentar na boate Jogral, em São Paulo, e ganhou a medalha de Grande Sambista. Os convites eram um reconhecimento e uma forma de ajudá-lo a ganhar algum dinheiro em uma época difícil para quem envelhecia  no Brasil. Chico Buarque de Holanda declarou que fora ele, Ismael, o seu grande influenciador, bem mais do que Noel Rosa. Em 1972, em seu aniversário, recebeu um bilhete de Chico Buarque que dizia: "Ismael, você está cansado de saber da minha admiração pelos seus sambas. Você sabe o quanto lhe devo por toda sua obra. O Sérgio Cabral está lhe entregando o meu presente pelo seu aniversário. É muito menos do que você merece. Um grande abraço, de coração".  Ismael Silva guardou o cheque durante algum tempo: era o prêmio que Chico tinha recebido do Governo do Estado da Guanabara.

     No fim da vida, pobre e esquecido, Ismael Silva vivia em uma casa de cômodos na Avenida Gomes Freire. Sofrendo de uma úlcera, morreu no dia 14 de março de 1978, aos 72 anos. O selo Discobertas, em convênio com o Instituto Cultural Cravo Albin, lançou, em 2011, a caixa 100 anos de música popular brasileira. Ali estão gravações dos programas realizados pelo radialista e produtor na Rádio MEC em 1974 e 1975.  Para quem gosta de raridades, é uma boa dica. Em 1982, Ismael foi enredo da escola de samba Império Serrano. No ano passado, a Estácio de Sá fez uma série de homenagens aos 110 anos de nascimento do compositor. Vamos terminar com mais uma pérola do repertório de Ismael Silva: A razão dá-se a quem tem, de Ismael Silva, nas vozes de Francisco Alves e Mário Reis.

     Se meu amor me deixar / Eu não posso me queixar / Vou sofrendo sem dizer nada a ninguém / A razão dá-se a quem tem / Sei que não posso suportar / (Se meu amor me deixar) / Se de saudades eu chorar / (Eu não posso me queixar) / Abandonado sem vintém / (Vou sofrendo sem dizer nada a ninguém) / Quem muito riu chora também / (A razão dá-se a quem tem)


Ernesto Nazareth: Não caio noutra.

Rose Esquenazi

 Não caio noutra.


     Muitos ouvintes de seu programa, provavelmente, nunca ouviram falar de Ernesto Nazareth. Mas jovens músicos e pianistas tarimbados que amam o chorinho, as polcas e as valsas do começo do século passado continuam a incensar a obra tão magnífica do compositor carioca.

     Precisamos conhecer o gênio que compôs lindas músicas para o piano. Ele foi compositor, pianista e professor particular de piano. O mais importante: sistematizou a nossa música que anteriormente não era “genuinamente brasileira”. Antes, a música era feita no Brasil, mas não representava os brasileiros. O mais importante aqui é dizer que Ernesto Nazareth tocou na inauguração da primeira estação de radio do país: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Roquette-Pinto e Henrique Morize.

     Graças a meu amigo Luiz Antônio de Almeida, do Museu e da Imagem do Som, que estudou profundamente a obra de Ernesto Nazareth, além de interpretar as músicas desse maravilhoso compositor, poderemos apreciar a interpretação da música Apanhei-te cavaquinho, gravada em acetato nos anos 30.  Vamos ouvir a raridade no final. Luiz Antônio escreveu também um livro sobre o compositor, ainda inédito. Agora, vamos contar um pouco da história de Ernesto Júlio de Nazareth.

     Ele nasceu em 20 de março de 1863, na Rua Bom Jardim, número 9. A casa ficava encostada no Morro do Nheco, hoje Morro do Pinto, Santo Cristo, Zona Portuária do Rio. O pai, Vasco Lourenço, era dodespachante aduaneiro, e morreu prematuramente. A família não era rica e quem lhe apresentou ao piano foi a mãe, Carolina Augusta, que também lhe deu aulas. Com a morte dela, Ernesto teve outros professores, Eduardo Rodolpho de Andrade MadeiraCharles Lucien Lambert, conhecido professor de piano de Nova Orleans.

     Ainda jovem, aos 14 anos, Ernesto compôs sua primeira música, a polca-lundu Você bem sabe,dedicada ao paiEstudou no Colégio Belmonte, na Praça Tiradentes.  Depois, compôs a polca Cruz, perigo. Em 1880, aos 17 anos de idade, fez sua primeira provável apresentação pública, no Club Mozart.  Aos 20 anos, já tinha oito composições editadas. O primeiro sucesso aconteceu com a polc aNão caio noutra, interpretada aqui pela pianista Sara Cohen, apresentada no início. Diferentemente de outros compositores, Ernesto não apenas criava tangos, schottisches e tangos apenas. Como escreveu Jairo Severiano em Uma história da música popular brasileira, Ernesto “captou o esquema rítmico-melódico criado pelos chorões e levou para o piano, estilizando-o de forma magistral, enriquecendo com lindas melodias”.

     Em 1885, o governo monarquista ainda estava no poder e assim Ernesto se apresentou em vários clubes da corte. Em 1893, a Casa Vieira Machado lançou uma nova composição sua, o tango Brejeiro, com o qual alcançou sucesso nacional e até mesmo internacional, sendo publicada em Paris e nosEstados Unidos em 1914.

Vamos ouvir um trecho com o conjunto Época de Ouro?


     Ernesto Nazareth casou-se aos 25 anos com Theodora Amália e com ela teve quatro filhos. Depois de editar o tango Turuna, finalmente consegue gravarEstá Chumbado, pela Banda de Bombeiros do Rio de Janeiro. Aliás,  é bom lembrar que essa Banda gravou muitas músicas maravilhosas pela Casa Edison, no fim do século XIX e começo do século XX. A memória dessa parte da música está hoje preservada no Instituto Moreira Salles.

     O primeiro concerto como pianista realizou-se em1898. No ano seguinte, foi feita a edição do tangoTuruna. Em 1904, sua composição Brejeiro ganhou a interpretação do cantor Mário Pinheiro com o título deO sertanejo enamorado. Vamos ouvir? Atenção para a maneira como eram feitas as gravações da Casa Edison.

     Em 1908, Ernesto passa a trabalhar como pianista na Casa Mozart e, depois, como demonstrador da Casa Carlos Gomes à Rua Gonçalves Dias. A sua função era vender partituras de música, algo muito comum na época em que todas as moças aprendiam piano e compravam partituras.

     Para fazer um bom casamento, essa era a qualidade fundamental para impressionar a família da noiva!

      Ernesto fez vários recitais, inclusive no Instituto Nacional de Música.  Antes de 1923, ainda não havia rádios. Para sobreviver, passou a tocar em salas de espera dos cinemas na recém-inaugurada Cinelândia. Muitos admiradores, inclusive pessoas muito famosas e visitantes estrangeiros, pagavam o ingresso do Cinema Odeon não para ver os filmes mudos, mas para ouvir Ernesto Nazareth tocar. Não é à toa que ele compôs a linda Odeon. Vamos ouvir com a execução de Maria Teresa Madeira.



      O compositor Heitor Villa-Lobos dedicou a Ernesto Nazareth a peça Choro nº 1, para violão. Para Villa-Lobos, Ernesto foi “a verdadeira encarnação da alma musical brasileira”.  O compositor francês Darius Milhaud concordou: só através da obra de Nazareth, ele entendeu a alma brasileira.

      Para viver, Ernesto passou trabalhar no serviço público. Ele se tornou escriturário interino do Tesouro Nacional. Depois, tentou fazer um concurso público, mas sentiu que não era bom em inglês. Preferiu se dedicar à música. A pianista Eudóxia de Barros disse, certa vez, que o músico foi para o Brasil o que Strauss representou para a Áustria. Segundo Luiz Antônio de Almeida, o piano bastava para Ernesto. Em suas palavras: “Ele tinha consciência de que agradando ao espírito mais sensível e ao intérprete mais exigente, sua música se tornaria imortal”.

     Ernesto Nazareth sintetizou em poucas palavras o que lhe dava imenso prazer na vida: bastava que “uma pessoa a ouvir-me com reverência e um pianista ‘desconcertado’ ao tentar transpor alguma dificuldade encontrada em minha música!”

      O compositor criou muitos outros tangos maravilhosos, mas, é uma pena, mas não vai dar para citar todos eles. Mas vamos sintetizar: Sarambeque, Menino de ouro e a valsa Henriette.

     A inauguração da Rádio Sociedade, em 1923, e que só existia através da colaboração dos sócios, assim como outras rádios, como Rádio Club, mantiveram a programação com música clássica e programas culturais. Já em 1932, com a permissão dos anúncios, as estações entraram em um momento de popularização. Os sambas aos poucos vão substituindo a música clássica.

     Mas vamos voltar ainda para os anos 20. Em 26, Nazareth, aos 63 anos, fez a primeira excursão para São Paulo. A viagem que iria durar três meses se prolongou para quase um ano. Além da Capital, o pianista fez recitais em Campinas, Tatuí e Sorocaba. Foi homenageado pela Cultura Artística de São Paulo e tocou no Conservatório Dramático e Musical de Campinas. No Teatro Municipal de São Paulo, foi precedido por uma conferência do escritor emusicólogo Mário de Andrade.

     O grande Mário de Andrade disse sobre Ernesto Nazareth fazia uma obra magistral, com “invenção melódica, a qualidade expressiva, estão dignificadas por uma perfeição de forma e equilíbrio surpreendentes”.

     Luiz Antônio de Almeida tentou explicar como a música de Nazareth foi saindo de cena apesar do sucesso. Deu-se com ele o mesmo que ocorreu com Chiquinha Gonzaga, Zequinha de Abreu, Eduardo Souto e muitos outros. O pagamento dos direitos autorais sempre foi precário no Brasil. Depois, com a entrada de fonógrafos, vitrolas, rádios e rádios-vitrolas, o piano foi sendo substituído. Os filhos tiveram que ajudá-lo.

     Desde 1920, Ernesto já estava sofrendo de surdez, resultado de uma queda que teve na infância.  Em 1917, foi morar em uma casa em Ipanema, na época, um lugar inóspito. Uma das filhas, Maria de Lourdes, tinha problema pulmonar e os ares marinhos podiam ajudar, aconselharam os médicos. Ernesto começou a sofrer de perturbações psíquicas, talvez pelo trauma com a morte da filha. Continuou compondo mesmo assim, sendo que a última composição, a valsa Resignação, foi escrita em 1930. Passou a tocar diariamente na Casa Carlos Gomes, editora musical e vendedora de instrumentos. Das 12h às 18h, Ernesto se apresentava para quem quisesse ouvi-lo.

     Dois anos mais tarde, foi diagnosticado como portador de sífilis e, em 1933, foi internado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá. Um ano mais tarde, ele fugiu do manicômio e, dois dias depois, foi encontrado morto no dia 1 de fevereiro de 1934, perto de uma cachoeira.  Era o patrono da cadeira de número 28 da Academia Brasileira de Música.

     Ernesto deixou 211 peças completas para piano.

     Além daquelas que citamos aqui, as mais conhecidas são Ameno Resedá, Confidências, Coração que sente, Expansiva, Turbilhão de beijo. Fon-fon, Escorregando, Brejeiro, Bambino. Vamos terminar com Apanhei-te cavaquinho, executada pelo próprio Ernesto Nazareth em 1930, gravada pela gravadora pela Odeon.

Apanhei-te cavaquinho 

Benedito Lacerda: o virtuoso flautista




Rose Esquenazi


Benedito Lacerda é considerado um dos flautistas mais virtuosos do Brasil, ao lado de Patápio Silva, Joaquim Calado, Pixinguinha. Foi o maior flautista de sua geração,  esteve ao lado dos maiores cantores brasileiros. Deixou 160 composições, entre elas, obras-primas que vamos ouvir aqui.

O compositor, flautista e maestro Benedito Lacerda nasceu em Macaé, no dia 14 de março de 1903. Filho de uma lavadeira, desde pequeno frequentou a Sociedade Musical Nova Aurora, orquestra de Macaé fundada em 1873. Mudou-se com a mãe para o Rio, aos 17 anos, e foi morar no Estácio. O bairro, musical por excelência, era um dos berços do samba e do chorinho. Teve a sorte de conviver com Noel Rosa, Ismael Silva e Alcebíades Barcelos, o Bide. O primeiro instrumento que tocou foi o bumbo, na Banda da Polícia Militar. Logo depois passou para flauta. Evoluiu na música estudando partitura no Instituto Nacional de Música, diplomando-se em flauta e composição.  
Em 1925, foi aprovado em teste no qual executava a parte de flauta da ópera Il Guarany, de Carlos Gomes. Conseguiu se transferir para a Escola Militar do Realengo, como músico de primeira classe, tornando-se solista. Depois de cinco anos na carreira militar, em 1927, pediu baixa e decidiu tocar com o grupo regional Boêmios da Cidade. Veja a sorte que Benedito teve. Foi chamado para acompanhar a famosa dançarina e cantora  Josephine Baker, quando ela se apresentou no Brasil. Só dava Josephine nos cassinos, cinemas, orquestras de teatros, dancings e cabarés da cidade. A atriz americana negra levava os homens à loucura com seu rebolado sensual e causava inveja às mulheres com aquele corpo magro e malhado. Para época, era uma ousadia tremenda.
Benedito foi saxofonista em algumas orquestras de jazz e, na década de 30, criou o grupo Gente do Morro. Especializado em ritmos brasileiros, o conjunto acompanhou Noel Rosa em uma viagem a Campos. O Gente de Morro não durou muito, mas o flautista já estava organizando outro grupo: o Conjunto Regional Benedito Lacerda. Os grandes músicos da época, impulsionados pelo rádio, podiam contar com o regional. Na Rádio Philips, primeiramente, no famoso Programa Casé, e depois em várias estações de rádio, como a Nacional, Benedito e seu conjunto se apresentaram ao lado de  Carmen Miranda, Luiz Barbosa, Mário Reis, Francisco Alves, Sílvio Caldas. Passou a ser também compositor. No Cassino da Urca, trabalhou de 1928 a 1939. Vamos ouvir a linda canção Isis.

Ísis (1935) https://www.youtube.com/watch?v=CrCWlt-_IEA

Nos anos 30, Benedito – seguindo uma tendência no Brasil de Getúlio – cometeu algumas músicas grandiloquentes e ufanistas. Nem sempre as melhores composições, elas serviam para falar bem do presidente que, em 37, estabeleceu o Estado Novo. É de sua autoria e de Aldo Cabral a música Brasil.
Na década de 40, o encontro com Pixinguinha foi decisivo. As gravações dessa época são maravilhosas. Pixinguinha no sax e Benedito, na flauta, lançaram álbuns de partitura e gravaram 40 músicas. Mau administrador de seus bens, Pixinguinha quase perdeu a casa onde morava em Ramos por conta de uma hipoteca. Benedito decidiu ajudá-lo com dinheiro, mas o gesto teve um contraponto. Nada menos do que 24 composições criadas apenas por Pixinguinha acabaram ganhando um coautor, o Benedito. Entre elas, as obras-primas como Sofres porque queresNaquele tempo e Um a zero, criada quando o Brasil ganhou o Campeonato Sul-Americano de Futebol de 1919, hoje, Copa América.
A homenagem foi para o jogador brasileiro Friedenreich, “El Tigre”, que marcou o gol vencedor contra os uruguaios. “El Tigre” fez tanto sucesso que as suas chuteiras foram expostas em uma vitrine de uma caríssima loja de joias do Rio de Janeiro. Dizem que durante a vida de jogador, Fried marcou 1.392 gols. Já pensaram? Vamos ouvir a gravação desse chorinho, gravado em 1946?

  https://www.youtube.com/watch?v=3KnqP4rqe58


Na há dúvida de que Pixinguinha e Bené transformaram a música brasileira com seus arranjos e a maneira como tocavam magistralmente os seus instrumentos. Existem tantas obras primas que precisaria ter uma semana de programa para mostrar tudo. Bené também foi compositor de música de Carnaval, como Jardineira, criada com Humberto Porto. Orlando Silva gravou a marchinha em 1938 e ela ainda faz sucesso nos carnavais da atualidade.
Em 1949, surgiu outra música de grande sucesso na voz de Nelson Gonçalves e de autoria de Benedito Silva e David Nasser. A seresta Normalista ficou em terceiro lugar na parada de sucessos. Será que ainda existem normalistas no Rio, Marco Aurélio? Vamos ver a letra, bem de época:
Vestida de azul e branco/Trazendo um sorriso franco/Num rostinho encantador
Minha linda normalista/Rapidamente conquista/Meu coração sem amor/
Eu que trazia fechado/Dentro do peito guardado/Meu coração sofredor/Estou bastante inclinado/A entregá-lo ao cuidado/Daquele brotinho em flor/Mas a normalista linda
Não pode casar ainda/Só depois que se formar/Eu estou apaixonado/O pai da moça é zangado/E o remédio é esperar

Vamos ouvir?

https://www.youtube.com/watch?v=Z2UfRnGxHOs
Como o pagamento de direitos autorais no Brasil foi sempre muito desorganizado, prejudicando os verdadeiros artistas, Benedito tentou organizar a atividade de arrecadamento de direitos. Ele foi fundador da União Brasileira de Compositores (UBC) e dirigente da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música (SBACEM).
Vamos terminar com chave de ouro com a música Ainda me recordo, de 1947, mais um incrível choro carioquíssimo interpretado por jovens músicos apaixonados pelo ritmo. Bené morreu no Rio, pouco antes de completar 55 anos.


 Pixinguinha & Benedito Lacerda - Ainda me recordo https://www.youtube.com/watch?v=NCrLNccB-58

terça-feira, 5 de julho de 2016

Ivon Curi dos Xotes às músicas francesas


Ivon Curi, o chansonier brasileiro
 Rose Esquenazi


Hoje vamos falar sobre Ivon Curi. Parte integrante da geração pós-Época de Ouro, dos anos 30, Ivon marcou o rádio por interpretar versões de músicas francesas, xotes, sambas-canções e cançonetas humorísticas. Além disso, atuou em várias chanchadas brasileiras e programas de humor na TV. Ouvimos, no começo do quadro, a música Delicadeza, gravada em 1956.
Ivon nasceu em Caxambu no dia 29 de março de 1929. A mãe de Ivon, Maria, morreu quando ele tinha 7 anos. Assim, ele foi criado pela irmã mais velha, Jenny Curi. Aos 11 anos, ele venceu um concurso de calouros que teve como juiz o diretor da Rádio Mayrink Veiga, César Ladeira, em Caxambu. O rapazinho tinha talento desde sempre. Para viver, trabalhou no Laboratório Silva Araújo e também foi vendedor de passagens da Companhia aérea Panair do Brasil.
Ivon vivia ligando para a casa de Paulo Tapajós, grande produtor, apresentador e músico da Rádio Nacional. A mulher dele, Norma, se lembrava muito bem quando Ivon, ainda jovem e não muito conhecido, vivia telefonando para pedir uma oportunidade nos programas. E ele ligava nos horários mais tardios da noite. Sua insistência para vencer foi notável. Ainda bem que tinha muito talento. A primeira gravação, O Adeus, de Dorival Caymmi, não obteve sucesso comercial. Depois, tudo mudou.
Em 1947, aos 18 anos, tornou-se crooner principal da orquestra do maestro Zaccarias, na prestigiada boate do Hotel Copacabana Palace. No Golden Room, ele entrou no lugar dos cantores Carmélia Alves e Nilo Sérgio. Da boate Meia-Noite, no mesmo hotel, era transmitido o Programa Ritmos da Panair, às 23h30, pela Rádio Nacional. Era o momento em que as pessoas que não podiam bancar uma noite no Copa sonhavam com a maneira de como os ricos viviam naquele ambiente de luxo. O astro do programa era Ivon.
Como sabia falar francês e gostava muito do cantor Jean Sablon, Ivon Cury costumava cantar as mesmas músicas do famoso artista. A sugestão de se tornar uma versão brasileira de Sablon foi do amigo Caribé. Ele achou que as duas vozes eram muito parecidas.  Segundo Rui Castro, em seu livro A noite do meu bem, se a pessoa em casa não soubesse que era o Ivon, podia jurar que estava ouvindo o cantor francês interpretando as canções que estavam na moda. Na Rádio Nacional, existia uma variedade de músicas. Havia quem cantasse em inglês, italiano e espanhol. Cauby preferia o francês. Gravou outros sucessos de Jean Sablon: as canções La vie em rose, C’est si bon, Pigalle e J’attendrais. Ouça a versão de Sous le Ciel de Paris, que virou Sob o Céu de Paris.
Também em 1947, Ivon Curi assinou o primeiro contrato com a Rádio Nacional. Como já dissemos tantas vezes aqui, era o sonho de qualquer novato aparecer na mais famosa estação da época. Ele costumava ser convidado para os programas de Emilinha Borba, Dalva de Oliveira, Angela Maria e Marlene. Na mesma emissora, estavam dois de seus 10 irmãos. Jorge Curi, que foi famoso locutor esportivo, e Alberto Curi, locutor noticiarista.
Curiosamente, nos anos 50, Ivon Curi deu uma grande guinada em sua carreira musical. Depois da fase C’est si bon, ele começou a gravar e a cantar sambas canções e depois ritmos nordestinas, como os xotes. Música autenticamente brasileira, continha boas doses de humor.  Ele seguia os passos de Luiz Gonzaga, o rei desse gênero de música que conquistou o Brasil. Muitos intérpretes entraram nessa mesma febre, como Emilinha e Dalva de Oliveira. Um dos maiores sucessos de Ivon Curi foi Xote das meninas, de Zé Dantas e Luiz Gonzaga. Depois, foi a vez da música Caxambu, de Zé Dantas e David Nasser. Assim, ele alternava, desde 1948, os vários gêneros musicais. Vamos ouvir Xote das meninas.
Ivon Curi foi eleito "O Rei do Rádio" e teve cinco de seus discos entre os dez mais vendidos do país, entre eles, Me Leva (com Carmélia Alves), Farinhada, João Bobo, Feijão, Tá Fartando Coisa em Mim, Amendoim Torradinho e Xote das Meninas, que acabamos de ouvir.
Ainda nos anos 50, Ivon Curi passou a participar dos filmes chamados de
chanchadas da Atlântida. Ele era alto, tinha um porte bonito e uma voz clara e poderosa. No cinema, emendou uma chanchada na outra. Dirigido por Watson Macedo, Ivon interpretou um papel que deu muito o que falar. Era um personagem rico, cheio de trejeitos afeminados na comédia Aviso aos
Navegantes, em 1951. Ficava entre o bom mocinho e o irreverente.
As fãs que sonhavam em tê-lo como namorado, noivo, marido, se
decepcionaram quando viram aquele rapaz tão frágil. As mocinhas escreveram longas cartas dizendo que o sonho delas tinha terminado de vez. “Sendo como você é”, disseram, “você não deveria ter aparecido no cinema, acabaram-se os meus sonhos.” O público começou a fazer analogias, achando-o muito delicado mesmo longe dos filmes. Até hoje, comenta-se se Ivon era mesmo homossexual ou bissexual. Como se a orientação sexual fosse tão importante. Ele foi casado
com Ivone e teve três filhos: Ivna, Ivana e Ivan. Repararam que todos os nomes começam com Iv?
Ivon Curi trabalhou também nos filmes É Fogo na Roupa, ao lado de Ankito e Adelaide Chiozzo, em 1952, Garotas e Sambas, Adorável Inimigo e Assim era a Atlântida em 1975. Ivon Curi falava fluentemente francês, inglês e espanhol e conheceu o mundo. Em Portugal, fez tanto sucesso que havia fila de cinco dias de antecedência. Foram 16 temporadas. Na época na Bossa Nova, nos anos 60, Ivon Curi não soube encontrar um caminho pessoal. Por isso, ficou nove anos sem conseguir gravar.
Abandonou de vez o lado romântico e sertanejo, e se lançou no humor. Às vezes, em pequenas apresentações, cantava cançonetas humorísticas, tornou-se um homem que contava piadas e era alegre. Tanto no rádio como na TV, os tempos eram outros. Em 1960, gravou, ao lado de Elizeth Cardoso, um jingle para a campanha vice-presidencial de João Goulart.
Membro do Clube da Chave, lugar exclusivo de artistas, músicos e atores que também eram proprietários do estabelecimento em Copa, o cantor de Caxambu dava suas canjas na boate. Ivon participou na Boate Casablanca, na Praia Vermelha, do show O samba nasce do coração.  Ivon não se considerava sambista. O jornalista Sérgio Porto, do jornal Diário Carioca, também achava que não, e dizia isso com todas as letras.
Com o declínio de sua carreira, viu que precisava se reinventar. Afinal, precisava trabalhar sustentar a família. Por isso, abriu a boate e restaurante Sambão e Sinhá, em Copacabana. Passou a ser uma referência na noite, tanto que presidentes da República, ministros e embaixadores que costumavam frequentar a casa. Em 1971, fazia pequenos shows para contar a sua vida. Fechou a Sambão e Sinhá em 1984. Ouça um sucesso do repertório de Ivon, Procurando tu. 
Na TV, Ivon criou o Gaudêncio, o gaúcho da fronteira. Careca e com bigodão, era uma figura que acusava todo  mundo de ser pouco macho na Escolinha do Professor Raimundo. O bordão de Gaudêncio ficou muito popular: “era macho cho-cho” ou “macho e meio”. Os outros colegas da turma eram todos  maricóns. Ivon participou da novela Feijão Maravilha, em 1979, interpretando o “seu” Rachid.
 
Na TV, trabalhou também, em 1966, no programa Adoráveis Trapalhões  com Renato AragãoWanderley Cardoso e Ted Boy Marino. Renato Aragão chegou a criar um bordão inspirado no músico ator: “Pelas perucas do Ivon Cury", por ele usava várias perucas estranhas.
 
Em 35 anos de carreira, Ivon lançou 27 discos, o último em 1994, Em Douce France, ele interpretava clássicos franceses.  Ivon Curi morreu aos 67 anos de idade no Rio de Janeiro devido à falência múltipla dos órgãos, em 24 de junho de 1995.
Para a cantora Angela Maria, ele compôs Escuta. Ouça um
trecho dessa composição, com Angela Maria e Emílio Santiago.



Ester de Abreu: cantoras portuguesas

 Ester de Abreu, por Rose Esquenazi





     Vamos mudar o rumo da prosa. Nesses dois anos de participação no seu
programa, nunca falamos sobre cantoras portuguesas. Hoje, vou corrigir essa
falha ao contar um pouco da história de Ester de Abreu Pereira. Ester nasceu
em Lisboa, no dia 25 de outubro de 1921. A irmã dela também era cantora e se
chamava Gilda Valença. Ester começou a se apresentar nos programas
radiofônicos dirigidos ao público infantil. Em 1940, fez sua estreia na Rádio
Nacional de Lisboa, já como profissional. E, em 1946, depois de um teste,
passou a fazer parte do elenco de artistas.

     A carreira de Ester chegou a fazer várias excursões em Portugal. Em 1948,
 foi convidada a vir ao Brasil. Era um chamado irrecusável: iria passar dois meses
 se apresentando na boate do Copacabana Palace, no espetáculo Sonho nas Berlengas.
 Para quem sabe, Berlengas é um lindo arquipélago português, composto por ilhas graníticas,
situado no Oceano Atlântico.

     Ester acabou ficando no Rio de Janeiro definitivamente, sendo contratada pela
Rádio Nacional, no mesmo ano de 1948. Ouvimos na abertura do quadro o
maior sucesso da cantora portuguesa gravado em 1952: o fado-canção
Coimbra é uma lição de amor, de José Galhardo e Raul Ferrão.

     Ester era muito bonita e chamava a atenção. Costumava enfeitar as capas da
Revista do Rádio e Radiolândia. Como portuguesa, é claro que ela gravou
vários fados, mas se dedicou também aos sambas-canções, boleros, músicas
de Carnaval e baiões. Semana passada, falamos sobre Ivon Curi e as belas
músicas francesas que ele interpretava. Como havia grande variedade musical
na Rádio Nacional, eram também escalados os cantores Fernando Albuerne e
Rosita Gonzales, que cantavam em espanhol.

     Já Rui Rei, pseudônimo do paulistano Domingos Zeminian, cantava ritmos
centro-americanos. Rui chegou a ter uma orquestra e costumava se
apresentar com camisas de mangas bufantes que se mexiam ao som das
maracas. Lenita Bruno e Julie Joy eram as responsáveis pela interpretação dos
sucessos norte-americanos. Segundo Luiz Carlos Saroldi e Sonia Virgínia
Moreira, no livro "Rádio Nacional, o Brasil em sintonia"., a emissora refletia,
segundo as palavras dos autores, “a própria Praça Mauá e seus arredores.
Zona portuária repleta de bares e inferninhos à disposição de marinheiros,
oficiais e embarcadiços. (Era uma) Torre de Babel às avessas”.

     Havia outra cantora portuguesa na Rádio Nacional, a Olivinha Carvalho. Mas
Ester estava no primeiro time entre as responsáveis pelo sotaque lusitano do
nosso povo irmão. Vamos ouvir Nem as paredes confesso, de Artur Ribeiro.

     Quando eu era adolescente, decorava os fados que tocavam na rádio e
na TV e adorava cantar desafinadamente na casa de Isabel, a nossa
costureira. Existiam costureiras naquele tempo. Autêntica portuguesa, ela
achava graça daquelas interpretações. Pelo menos, morria de rir comigo.
Interpretada também por Amália Rodrigues e Nelson Gonçalves, Nem as
paredes confesso ganhou uma versão moderna do ótimo cantor António
Zambujo, de 40 anos, que faz sucesso em Portugal no Brasil. Ouça, com
Ester de Abreu, Nem as paredes confesso.

     Em 1950, Ester estreou na gravadora Continental o fado canção Já não sei, de
Antônio Mestre e o fado Pomar da vida, de Renê Bittencourt e Antônio Mestre.
Em 1951, gravou o fado baião Ai, ai Portugal, de Humberto Teixeira e Luiz
Gonzaga e o baião Carro de boi, de Humberto Teixeira e Caribé da Rocha.
No ano seguinte gravou para o carnaval a marcha Cabral no Carnaval, do
cantor e compositor Blackout. Entre 1952 e 1953, teve um romance com o
então prefeito do Distrito Federal, coronel Dulcídio do Espírito Santo Cardoso,
relacionamento que gerou muita fofoca nos jornais e revistas da época. Como
disse Marcus Lontra na época em que trabalhou no Museu de Arte Moderna:
“No Rio de Janeiro, a alma portuguesa perpassa a cidade. Ela se faz presente
na arquitetura, na vida diária das pessoas. É entretanto através da música,
através do fado, que os cariocas aprendem – e vivenciam – o espírito lusitano”.
Ouça Ai, ai Portugal.

Em 1954, Ester de Abreu gravou de Paulo Tapajós e Jorge Henrique a canção
Quero-te outra vez. No mesmo ano lançou seu primeiro LP, pela RCA Victor. E
foi assim, a cada ano se destacava e sempre trazia novidades, como o fox
Gosto milhões, de Cole Porter, com versão de Haroldo Barbosa, em 1955.
Não eram apenas músicas portuguesas que a Nacional escalava para o
Programa César de Alencar. Havia também as atrações especiais como
Musical Poesia, Paisagens de Portugal e Aquarelas de Portugal. Ou seja, as
gerações de imigrantes nascidas aqui e dos brasileiros estavam sendo
enriquecidos pelo sotaque lusitano. O fado-saudade chegava ao ponto máximo
quando Amália Rodrigues, a Rainha do Fado, vinha ao Brasil para se
apresentar. Em 2013, a Rádio Nacional de Brasília fez uma bonita homenagem
a Amália, que morreu em 1999, aos 79 anos. Vamos ouvir a nossa
personagem de hoje, Ester de Abreu, interpretando Sempre que Lisboa canta.

     Em 1957, Ester de Abreu gravou de Fernando César e Dolores Duran, a toada
Só ficou a saudade. De Irani de Oliveira e Lourival Faissal, cantou o fado
Canção do imigrante. Em 1962 lançou pela Continental o bolero Que Deus me
dê, da dupla Jair Amorim e Evaldo Gouveia.

     A partir dos estudos de Alda de Almeida, jornalista e professora da Faculdade
Veiga de Almeida, aprendemos que, em 2005, havia 61.842 portugueses na
cidade do Rio de Janeiro e quase 83 mil no Estado do Rio. Muitos ainda amam
o fado-saudade e acompanham em algumas estações do Rio de Janeiro
programas dedicados à tradição. A Rádio Bandeirantes Rio, antiga Rádio
Guanabara, a Rádio Rio de Janeiro e a Rádio Metropolitana apresentam
atrações para lembrar canções modernas e antigas: serestas, boleros e fados
que vêm dos anos 40, 50 e 60.

     Além disso, os programas informam sobre a programação dos clubes
portugueses que estão vivos e ativos. Casa de Vizeu, Casa do Porto, Casa de
Trás-os- Montes e Alto Douro, Casa de Espinho, Casa dos Poveiros, Casa do
Minho, Clube Português do Rio de Janeiro, Comunidade Paroquial Nossa
Senhora da Ajuda. Os clubes promovem shows e servem churrasco, papas de
sarrabulho e, claro, doces portugueses.

     A cantora Ester de Abreu encerrou a carreira artística na década de 1970 e
morreu no dia 24 de fevereiro de 1997, no Rio de Janeiro. O público mais
maduro deve se lembrar dela com carinho, já que tinha uma linda voz. No texto
“Ondas lusitanas: a comunidade luso-brasileira no AM carioca”, Alda de
Almeida cita Fernando Pessoa: “Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode
ver no Universo...”. E já que estamos falando do grande escritor português,
vale a pena ouvir a opinião de Fernando Pessoa no jornal Notícias Ilustrado,
em 1929, sobre o gênero tão português: “O fado não é alegre nem triste. //É um
episódio de intervalo. //Formou-o a alma portuguesa quando não existia e
desejava tudo sem ter força para o desejar.// O fado é o cansaço de alma forte,
o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e que também o
abandonou. //No fado, os deuses regressam, legítimos e longínquos”. Bonitas
palavras, não é? Para terminar, ouça com Ester de Abreu e Francisco
Carlos, o El Broto, Moreninha de Lisboa.