terça-feira, 7 de agosto de 2018

Os 80 anos da BBC Brasil - Parte dois




Rose Esquenazi
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43385807



     A primeira transmissão da BBC foi voltada para os países latino-americanos, só depois houve a divisão do serviço: para o Brasil, em português, e para os demais países da América Latina, em espanhol. No dia 14 de março de 1938, ou seja, há 80 anos, a primeira transmissão foi a seguinte: “O Senhor Hitler entrou hoje à noite em Viena”. Ninguém sabia a extensão da matança e dos estragos que o ditador alemão faria na Europa.  O primeiro noticiário foi lido por Aymberê, apelido de Manuel Antônio Braune, muito nervoso com a incumbência. Ainda ficou guardada a gravação do dia 24 de novembro de 1944, com a manchete: “Estrasburgo está limpa do inimigo”.

     Apesar de ter nascido em Porto Alegre, Chico da BBC conservava um curioso sotaque inglês. Mas ele gostava de tudo que se referia ao Brasil, da música à comida. Querido pelos correspondentes brasileiros e pelos soldados, ele tinha acesso livre aos alojamentos. Ao gravar a festa musical dos soldados, deixou para nós o registro daqueles homens simples que gostavam de incorporar palavras estrangeiras nas letras de sambas e emboladas e reproduziam o ambiente radiofônico das rádios populares.  Convivendo com os italianos, os compositores passaram a usar as palavras tedesco, alemão, paúra, medo, Tedeschi Portare Via ou Tedesco Levante o Braço.

     Durante muito tempo, os feitos dos soldados brasileiros na Segunda Guerra foram menosprezados. Mas eles foram corajosos e enfrentaram os desafios da época. Segundo o historiador Francisco Ferraz, na reportagem de Thomas Pappon, o governo de Vargas quis despolitizar os soldados o mais rapidamente possível porque tinha medo do que aconteceu com os soldados russos que voltaram da Primeira Guerra: eles apoiaram os bolcheviques.

     Os soldados foram desmobilizados ainda na Europa sendo que a ideia era que todos voltassem à vida que tinham antes no Brasil, em vez de se engajar em atividades políticas. Mesmo assim, antes de deixar o governo, Vargas legalizou o Partido Comunista. E na FEB, havia células comunistas. Ao todo, morreram 443 soldados e 2.722 ficaram feridos e vários desapareceram em um contingente de 25.334 brasileiros convocados para a guerra.

     Nos 80 anos do Serviço Brasileiro da BBC, o período da guerra foi o mais impactante. O prédio principal da BBC, no centro de Londres foi bombardeado pelos nazistas mais de uma vez, matando sete funcionários. Isso fez com que os latinos-americanos tivessem que se mudar para fora de Londres, em uma mansão no campo conhecida como Aldenham House, onde o jornalista Antônio Callado trabalhou e se inspirou para escrever um romance com esse título: As memórias de Aldenham House. 


     Vamos ouvir sambinhas feitos em um dos acampamentos brasileiros na Itália, com direito a um “Ary Barroso” improvisado. Uma inusitada conversa irônica com Hitler e Mussolini.


     Segundo o pesquisador Vinicius Mariano de Carvalho, essas gravações são “fabulosas”. Nas palavras dele, nos dão “a dimensão da expressão humana musical que esses soldados estão encontrando e fazendo no meio do campo de batalha.”  Os soldados brasileiros são os únicos a escreverem as suas próprias músicas, garante o professor. Nos estudos que estão sendo feitos recentemente, é possível ver a união dos dois povos: italianos empobrecidos, católicos, se identificam com os soldados, também religiosos, vivendo longe da família em um campo de guerra. Todos compartilham o vinho, a mesa e a missa.

    Para terminar, vamos ouvir um trecho do programa que mostrou a emoção dos pracinhas nos momentos de distribuição das cartas que chegavam do Brasil:



A música caipira e nordestina no rádio




 Rose Esquenazi
     Um dos gêneros mais antigos, admirados e ainda hoje tocados em muitas rádios brasileiras é o sertanejo. O rádio foi o grande divulgador das músicas que vinham do Nordeste em uma época em que quase todos os brasileiros não viajavam de avião, nem de ônibus nem mesmo de pau-de-arara. O navio, nos anos 20 e 30, era a principal maneira de chegar aos grandes centros, como no Rio de Janeiro, a Capital do Brasil. Era aqui que tudo acontecia, mais do que em São Paulo, ainda em fase de começo de industrialização. No Rio, arranjava-se trabalho e era possível começar uma nova etapa da vida.  A seca e a fome, realidade na vida desses brasileiros corajosos e sofridos, ficavam para trás.

    A saudade do Nordeste fazia com que os recém-chegados cultivassem a música e as especialidades culinárias que lembravam da casa e da família. Terra do choro e do samba que começava a se firmar, o Rio começou a ouvir também as emboladas, cateretês, cocos e desafios, que estavam agradando em cheio. Jovens cariocas que também tentavam se formar no cenário musical e artístico decidiriam arranjar fantasias de nordestinos e compor músicas nos ritmos que já começavam a pagar bem na Praça Tiradentes. Acabamos de ouvir a música Vamos Fallá do Norte, interpretado pelo grupo musical  Bando de Tangarás, com Noel Rosa,  Almirante e Braguinha.  Entre os cariocas influenciados pelos nordestinos, eles saíram na frente. A empresa Estúdios Benedetti chegou a gravar um filminho, que seria o primeiro clipe feito para divulgar o que os jovens pretendiam ser um sucesso.

    Frederico Figner, tcheco que veio dos Estados Unidos,  fundou, na Rua do Ouvidor, a Casa Edison, a primeira gravadora brasileira.  Os recursos ainda eram primários, mas vários gêneros foram registrados, incluindo os ritmos típicos do Nordeste. A partir dessas gravações, podemos conhecer a história da nossa música. Um nome importante dessa época foi Catulo da Paixão Cearense, amigo de Fred Figner.  A música Luar do sertão, de 1914, em parceria com João Pernambuco, foi considerada por muitos o hino nacional do sertanejo brasileiro, tendo sido gravado na Casa Edison.

     Em abril de 1922, desembarcou no Rio de Janeiro, o grupo Turunas Pernambucanos. Almirante lembrou do fato no livro No tempo de Noel.  Em 1921, um ano antes, os Oito Batutas, do qual fazia parte Pixinguinha, foram ao Recife. O frisson foi tão grande que eles inspiraram o surgimento dos Turunas Pernambucanos. No ano seguinte, o grupo do Recife se apresentava no Cine Palais, no Rio de Janeiro, sendo anunciados como os que faziam “músicas do Norte”, “caboclos brasileiros”, “cantigas de sertão”, “emboladas e desafios”.  Turuna quer dizer forte, valentão. Alguns anos mais tarde, os microfones da Rádio Educadora, Sociedade e Rádio Clube passaram a investir nesse tipo de música, que era uma novidade.

    No conjunto Turunas Pernambucanos, dois músicos se tornaram importantes mais tarde, como dupla:  o José Calazans, o Jararaca, e o Severino Rangel, o Ratinho. No Rio, o conjunto ganhou reforço de João Pernambuco, no violão. O sucesso foi extraordinário na Capital. Os cariocas nunca haviam ouvido aquela cantoria tão diferente, que embolava as palavras ao cantá-las muito rapidamente. O pesquisador Jairo Severiano explica em seu livro “Uma história da música popular brasileira” que, na embolada, “a letra é mais importante do que a melodia”. Ele disse que a “a estrofe-refrão é cantada em andamento rápido, utilizando recursos de aliteração e assonância”. Por isso, para o intérprete, “a dicção e o fôlego” devem ser extraordinários para “não tropeçar nas palavras e se fazer entender com clareza”.

    Era tudo novo, curioso, divertido, como as música “Óia  o sapo dentro do saco”, e Espingarda pá pá pá pá, faca de ponta, tá, tá, tá, tá”, a mais famosa embolada que a dupla Jararaca e Ratinho gravou em 1929. 
  
     Nesse movimento sertanejo, não podemos nos esquecer que existia na Praça Tiradentes a Casa do Caboclo que funcionou de 1932 a 1940. Muitos artistas se apresentaram lá, entre eles, os cômicos João Lino e Apolo Correia, Dercy Gonçalves, Jararaca e Ratinho, Manezinho Araújo. Muitos palhaços também eram intérpretes de músicas da época e chegavam a gravar na Casa Edison.
      
    O radialista Renato Murce também teve seu tempo de conjunto regional. Ele viu, tal como os amigos de Noel, que era preciso cantar como os Turunas que estavam fazendo sucesso no Rio. Na Rádio Educadora, com os primeiros cachês que ganhou na vida (e que o rádio pagou), fundou Os Gaturamos. Segundo Murce, concorriam com “o magnífico grupo comandado por Almirante: o Bando dos Tangarás“, segundo as suas palavras.

   Os Gaturamos, disse Renato Murce em seu livro Bastidores do rádio, tinham como elemento principal ele mesmo e mais o irmão Dario Murce, Rogério Guimarães, Pery Cunha, Lourival Montenegro, Rubem Bergmann, Didi do Pandeiro. O radialista afirmou que nem todas as emissoras gostavam do gênero popular, dessa música do povo.  Isso porque tinham nariz empinado, como a Rádio Jornal do Brasil. A vantagem desses grupos é que eles cantavam em bares e restaurantes e ganhavam comida de graça, no final da apresentação. O que era importantíssimo para os duros que eram.

     Murce se lembra da chegada de outro grupo do gênero, no Rio de Janeiro, reforçando a tendência nordestina. O jornal Correio da Manhã, que sempre publicava contos, sonetos e poesias populares, lançou em 1926, um concurso carnavalesco.

     Nesse momento vieram do Recife os Turunas da Mauricéa, grupo que surgiu depois dos Turunas Pernambucanos. Faziam parte Augusto Calheiros, o Patativa do Norte, com a sua linda voz, Riachão, Guajurema, Piriquito e Bronzeado, logicamente, nomes de guerra. E também fizeram sucessos com suas roupas típicas e chapéus vindos do Nordeste. O maior sucesso dos Turunas da Mauricéa foi no Carnaval de 1928, com Pinião, de  Luperce Miranda e Augusto Calheiros.

     Nos anos 30 e 40, começam a surgir várias outras duplas caipiras. A mais famosa dupla foi Alvarenga e Ranchinho. Os ouvintes com mais idade ainda devem se lembrar de suas piadas na Rádio Nacional,  nas quais  eles misturavam às  músicas.

    Mas os ritmos sertanejos do Nordeste ganharam ramificações no Brasil com a música caipira. No interior do Rio Grande do Sul, ou de São Paulo, surgiram versões musicais de origem nostálgica do campo, que revelavam intenso convívio com a natureza.  Os temas eram o amor, a tristeza e a saudade de casa. Tonico e Tinoco, Raul Torres e Serrinha e Mandi e Sorocabinha não eram nordestinos, eles faziam sucesso como caipiras. Vamos ouvir Modas Modernas, de 1934, da dupla Mandi e Sorocabinha.

     Até hoje, a música caipira tem destaque em São Paulo. Há estações de rádio que investem no gênero. Uma das duplas mais famosas foi Cascatinha & Inhana. Francisco dos Santos, que nasceu em Araraquara, em 1919, era o Cascatinha,  e Ana Eufrosina da Silva, que nasceu em Araras, em 1923, era a Inhana. Os dois, que eram casados, fizeram grande sucesso ao lançarem, em 1952, a música Índia, ainda hoje escutada nas rodas de músicas. Do mesmo ano, a música Meu Primeiro Amor também estourou no rádio do país nas vozes afiadas da dupla. 


     Na análise crítica do jornalista José Ramos Tinhorão, no livro Música e Cultura Popular, começou a haver uma crise de identidade nas novas gerações que moravam no interior das cidades paulistas a partir dos anos 70. Adotando o estilo americano de viver, com carros, supermercados, piscinas e roupas importadas, esses brasileiros gostavam do country americano nas boates e rodeios, mas, em casa, continuavam curtindo a autêntica música sertaneja brasileira.


     A moda de viola de Tonico e Tinoco, Tião Carneiro e Pardinho ainda faziam referência ao caipira pobre. A reconciliação foi feita, segundo Tinhorão. Artistas que vieram do iê- iê- iê, como Nalva Aguiar, Eduardo Araújo e Sérgio Reis cantavam música folclórica, mas com guitarras e contrabaixos elétricos.

 

    Voltando para o Nordeste, é bom lembrar que a música regional continua sendo cultivada em diferentes estações. Nova geração está aparecendo, romântica e muito talentosa. Vamos ouvir com Ton Oliveira, a música ‘Meu lugar é meu Nordeste’, em uma apresentação na Rádio Cultura Nordestina. 

 

 

 

 




As escolinhas como formato de humor no rádio

Antônio Carlos Pires, fama na Escolinha


                                                                                                 Rose Esquenazi

     Um dos formatos mais antigos e duradores do rádio brasileiro é a escolinha, e é possível entender a razão do sucesso. São vários personagens, tipos e vozes diferentes e um único professor. Todo o mundo que já frequentou a escola, teve colegas e, claro, um ou mais mestres.
    Muitas vezes, nos lembramos dos coleguinhas em um bordão específico ou característica apresentada no rádio e depois na TV. A mais antiga versão da escolinha foi criada na Rádio Record de São Paulo, em 1935. Com ar humorístico, a Escola da dona Olinda foi comandada pelo eclético Nhô Totico, que fez sucesso a partir dos anos 30. Depois, o programa passou para a Rádio Cultura e Rádio Mayrink Veiga. O formato foi aprovado e ganhou cópias e novas versões em outras rádios de São Paulo e do Rio de Janeiro.
      Nhô Totico, ou melhor Vital Fernandes da Silva, nasceu na cidade de Descalvado, em São Paulo, em 1905.  Ele era eclético e sabia fazer várias vozes imitando filho de japonês, italiano, o garotinho com sotaque do interior e por aí. Era um bom ator e chamava a atenção de um público ainda ingênuo e que achava maravilhoso que uma só pessoa conseguisse imitar tantas vozes, até da professora. O clima da escola era diferente nessa época. O professor brigava e ridicularizava os alunos que não respondiam corretamente às perguntas. Era claramente preconceituoso e até racista. Dava a entender que os alunos eram preguiçosos, lentos, espertalhões, enfim, tinham os mais diferentes problemas no universo escolar. 
     Certa vez, o radialista Nhô Totico teve que prestar depoimento à polícia de Getúlio Vargas, que havia criado o famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP. Era a polícia política e de costumes que se metia nos mínimos detalhes da vida do brasileiro. O problema se deu por conta de um personagem que dizia que os tomates que ele plantava eram grandes, vermelhos e maravilhosos porque tinham um segredo: o agricultor colocava o Hino Nacional para tocar, fazendo com que os tomateiros crescessem vertiginosamente. Em 1939, o DIP não gostou muito da brincadeira. 
    Nhô Totico era um craque do improviso e essa maneira de interpretar fazia muito sucesso nos primórdios do rádio.  O aparelho rádio era ainda um eletrodoméstico caro nos anos 1930 e reinava absoluto na sala de estar.  Costumava ser comandado pelas pessoas mais velhas da família, que escolhiam o momento de ligar e desligar o aparelho. Vamos ouvir o apresentador Rolando Boldrin, do programa “Sr. Brasil”, da TV Cultura, que conta um pouco da história do Nhô Totico em seu programa.
    Como disse, a fórmula da Escola da dona Olinda deu certo. No fim dos anos 30, o radialista Renato Murce lança na Rádio Transmissora do Rio, a PRE-3, o programa “Cenas Escolares”. Como era de se esperar, a escola era bastante confusa, com alunos muito bagunceiros. A professora se chamava Dona Teteca e era interpretada por Anamaria. Segundo o livro Bastidores do rádio, de Renato Murce, um dos primeiros a serem editados no Brasil sobre o rádio, havia poucos alunos. Manduca, interpretado por Lauro Borges, e Seu Ferramenta, papel de Castro Barbosa. Anos mais tarde, os dois vão criar o famoso programa humorístico PRK-30. No elenco, também estava Juvenal Fontes, que interpretada os papeis de Fedoca e Teleco e também Coronel Fagundes.
    O sucesso foi rápido, todo mundo adorava aqueles alunos bobos, burrinhos, sem noção e, algumas vezes, preconceituosos.  O que ninguém esperava é que as professoras de verdade, as verdadeiras “Telecas”, procuraram a Associação dos Pais de Família e fizeram uma queixa. Quiseram retirar o programa do ar. Os pais de família, segundo Renato Murce, foram ao DIP e conseguiram o feito: toraram o programa do ar! O protesto foi geral. A estação recebeu mais de mil cartas querendo a volta do programa “Cenas Escolares”, isso sem citar as centenas de ligações telefônicas com protestos sobre a decisão da estação.
    A imprensa comentou a proibição, vários jornalistas e cronistas escreveram sobre a proibição do DIP. Chegaram a dizer que “Cenas Escolares” era muito educativo.
     Inteligente e inconformado, Renato Murce decidiu fazer algumas mudanças no formato da escolinha. No livro, o radialista escreveu: “Não desanimei: conhecendo bem a burrice da gente do DIP, apresentei o programa transformado. Não seria mais uma escola pública. Consistiria em reuniões semanais em casa de uma professora aposentada”. Havia um bate-papo seguido de uma rápida aula noturna. Agora, o programa se chamaria “Piadas do Manduca”, nome de um dos personagens, interpretado por Lauro Borges.
     Renato tinha razão, os funcionários do Departamento de Imprensa e Propaganda não eram muito inteligentes. Os chamados “sábios”, segundo Murce, que se tornou o professor, aprovou. E ainda colocou no livro a justificativa do DIP: “Ah. Assim é outra coisa! Está muito bem!”
     O programa Piadas do Manduca ficou 25 anos no ar e teve no elenco, nos primeiros tempos, além de Lauro Borges e Castro Barbosa, o ator Brandão Filho e Sara Nobre.
    Ouça no YouTube Piadas do Manduca. Quando foi transferido para a TV, entraram outros atores: Viviani, Anamaria e Eliana, famosa nos filmes de chanchadas e que foi esposa de Renato Murce.
       A Rádio Mayrink Veiga do Rio decidiu fazer a sua própria versão do formato das escolinhas. O roteirista Haroldo Barbosa se juntou ao radioator Chico Anysio e juntos escreveram a Escolinha do Professor Raimundo, em 1952. Chico era o professor mas, na verdade, era uma escada para as piadas de apenas três personagens no começo da atração. Havia o sabichão, interpretado por Afrânio;  o burrinho, papel de João Fernandes; e o espertalhão, feito por Zé Trindade. Mais tarde, entraria mais um personagem, o mineiro desconfiado, interpretado por Antônio Carlos Pires, que muitos anos mais tarde se tornaria pai da atriz Glória Pires.
      É bom lembrar como Chico Anysio, cearense de Maranguape, chegou no rádio. Depois de uma crise econômica, o pai de Chico perdeu em um incêndio a sua garagem de ônibus, o garoto veio para o Rio junto com a mãe, aos 8 anos. Ele adorava jogar bola e acompanhar os jogos pelo rádio. Mais velho, Chico estava indo para um campinho para jogar futebol quando encontrou com a irmã, Lupe. Ela estava indo fazer um teste na Rádio Guanabara. Foi quando o cearense descobriu que havia se esquecido do par de tênis em casa. Resolveu acompanhar Lupe já que não estava fazendo nada. Assim, decidiu fazer o teste também. Passou em segundo lugar para a função de speaker, locutor. Em primeiro lugar, ficou Silvio Santos. No teste para radioator, também ficou em segundo lugar. No primeiro, ganhou Fernanda Montenegro.
      Não se sabe bem porque, aos 19 anos, Chico Anysio voltou para o Ceará, onde trabalhou na Rádio Clube Pernambuco e na Clube do Brasil. Sentiu falta da Capital e foi assim que, em 1952, ele estava de volta estreando a Escolinha do professor Raimundo Nonato, na Rádio Mayrink Veiga. Chico Anysio entrou para o mundo do rádio e, como se interessava pelo humor, acabou indo para a Mayrink Veiga que tinha um grande time de humoristas. Os melhores programas de humor no Rio de Janeiro estavam lá. Ele sempre dizia que tudo que aprendeu foi a partir do convívio diário com Haroldo Barbosa, Max Nunes e outros craques.
      Infelizmente, não se guardou nenhum áudio desse programa da Mayrink. Por essa razão, não vamos ouvir um trecho do programa que passou da Mayrink para a TV Rio, em 1952.  Depois, foi a vez da Excelsior e finalmente a TV Globo, quando estreou em 1973. Vamos conhecer um trecho do programa já com a definição de sitcom. Ao todo o programa ficou no ar durante 38 anos. 
      Outras escolas foram fundadas, como a Escolinha do Golias, a Escolinha do Barulho, Uma escolinha muito Louca, Escolinha do Gugu e Supletivo do Céu. Mas a que fez mais sucesso foi mesmo a Escolinha do Professor Raimundo. Vamos ouvir um trecho da Escolinha do Gugu. O personagem que aparece, interpretado por Geraldo Magela, é um cego muito bem humorado.
     Nos últimos anos na Globo, a Escolinha do Professor Raimundo reunia muitos os alunos. A sala era cheia, as piadas repetitivas, mas o carisma de Chico Anysio era insubstituível. Certa vez, perguntei porque tinha tantos atores veteranos no programa. Não foi o próprio Chico quem me disse, mas soube que aqueles atores maravilhosos não tinham como pagar o plano de saúde e ninguém mais na TV ou no cinema e teatro ligava para eles. Na época, a TV Globo ainda fazia um tipo de contrato que incluía o plano e foi assim que antigos humoristas puderam relaxar um pouco com essa garantia, além de confraternizar com os antigos colegas do rádio e da TV. 
     Encontrei no YouTube uma homenagem a todos os atores que passaram pela escolinha e que já se foram. A referência continua tão grande que o Canal Viva reprisa essas séries, sempre com muita audiência. Além disso, foram lançados quatro DVDs com episódios do programa, a partir da Turma de 1990. 
     Chico Anysio morreu aos 80 anos em 23 de março de 2012, deixando muitas saudades. Talvez por essa razão o canal Viva, em 2015, decidiu produzir um remake de sete episódios com três parentes do humorista. O filho Bruno Mazzeo, que foi redator na antiga Escolinha passou a ser o professor, papel de seu pai. O slogan "E o salário, ó...", pegou para sempre. O também filho de Chico, Nizo Neto, anteriormente o seu Ptolomeu, passou para a redação. Ele costumava dizer "Nem tanto, mestre".  Marcos Caruso brilha tanto quanto o ator Orlando Drummond, no personagem seu Peru, que diz: "Peru com mel de Vila Isabel". Marcelo Adnet também dá show como o puxa-saco Rolando Lero, "Amado Mestre".  A direção ficou com a sobrinha de Chico Anysio, Cininha de Paula. Os personagens fizeram tanto sucesso que ganharam outras edições além dos sete episódios previstos no começo. Aos domingos, às 12h45, na TV Globo, A Escolinha do Professor Raimundo – Nova Geração vai ao ar e continua encantando o público. Vai entender o mistério!


Inesquecíveis canções dos carnavais dos anos 30 e 40



Rose Esquenazi
     O que ouvimos nessa época do ano? Músicas de Carnaval, é claro. Dependendo da cidade onde estamos, um ritmo diferente pode prevalecer. Mas, com o poder das estações do rádio, desde o fim dos anos 30, já era possível espalhar as mesmas produções animadas em muitas cidades do território brasileiro. Os ritmos diferentes eram bem-vindos fazendo parte da alegria nacional, apesar das eventuais tristezas, guerras e crises políticas.
    No Rio de Janeiro, as marchas e os sambas predominavam e eram enviadas para todos os lugares.  Por aqui, eram bem-vindos os frevos, como esse de Capiba que acabamos de ouvir. Os frevos ainda são populares principalmente na cidade do Recife, que vive de sua alegria contagiante.

     Nos anos 30 e 40 de século passado, a maior emissora brasileira da época, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, absorvia os ritmos nordestinos, ao mesmo tempo em que se especializava em divulgar a produção local. Uma semana antes do Ano Novo, as rádios cariocas começavam a investir nas novas músicas carnavalescas, abrindo espaço nos seus programas tradicionais para a Festa de Momo.

     Não se descartavam os sucessos do passado, mas era tão boa a nova safra que era preciso divulgá-la o quanto antes. Fazia parte da vida dos foliões decorar as letras e já chegar nos bailes, blocos, desfiles das grandes sociedades, batalhas de confetee bailes de mar à fantasia cantando os lançamentos. A imprensa corria atrás do interesse dos foliões publicando revistas com das letras recém-criadas. Os foliões que não podiam sair por algum motivo ficavam em casa e se divertiam do jeito que era possível. Ouvindo o rádio, é claro, em uma época que ainda não existia a TV.

    O famoso programa “Um milhão de melodias”, da Rádio Nacional, reservava seus 15 minutos finais para o “Suplemento Musical”, especializado em Carnaval. Na mesma emissora, e depois na Tupi, fez sucesso também o programa “Carnaval Brahma Chopp”. Nem preciso citar o patrocinador. No caso do programa Um Milhão de Melodias ficava subtendido: era a Coca-Cola quem pagava a conta. Na Rádio Tupi, havia uma atração patrocinada pela loja Miveste, também especializada em músicas carnavalescas.

    No ano de 1939, um sucesso marcou a festa: o lançamento de “A Jardineira”, interpretada por Orlando Silva. Estudiosos como Jairo Severiano e nosso comunicador da Rádio MEC AM, Zuza Homem de Mello, descobriram que a origem da personagem Jardineira vinha da Bahia, de um terno de Reis.

     O pernambucano Hilário Jovino Ferreira, criado na Bahia, trouxe o refrão para o Rio em um rancho organizado por ele. Hilário, carpinteiro da Marinha, instalou-se na área da Saúde, onde moravam ex-cativos e descendentes de escravos.
Não foi difícil espalhar a música tocada com violões, cavaquinhos, flautas e até castanholas, segundo o autor Lira Neto no livro “Uma história do samba, as origens”.

     Fez tanto sucesso que outros ranchos incorporaram “A Jardineira”, criando associações como A Flor da Jardineira, As Filhas da Jardineira, O Triunfo da Camélia e por aí vai, segundo nos conta Jairo Severiano. A letra falava da desilusão amorosa, o sentimento que uma pessoa tem ao perder um grande amor. Assinada por Benedito Lacerda e Humberto Porto, a marcha de carnaval não chegava a ser tão alegre quanto o frevo de Capiba, mas era boa de cantar e desfilar nas ruas que ainda cheiravam a lança-perfume da marca Rodo, permitida na época. Ouça um trecho de "A Jardineira”, na voz de Orlando Silva.

    Lançada em 1939, o samba “Camisa Amarela”, de Ari Barroso, lembrava o que aconteceu de verdade em um carnaval carioca. Era comum o sentimento de libertação nos dias de folia, tentava-se esquecer dos sufocos, do trabalho duro, das decepções amorosas e até da repressão sexual, dançando, bebendo e se esbaldando nas ruas e bailes da cidade. Na letra, conta-se que o folião escapava de casa, mas era visto pela namorada, amante ou mulher se acabando na Avenida, no caso, a Rio Branco, e também na Galeria, a famosa Galeria Cruzeiro, no Centro, e no Largo, o conhecidíssimo Largo da Lapa. Para Jairo Severiano, a música de Ary Barroso foi gravada pela intérprete ideal: a cantora Aracy de Almeida. Mas antes de lembrar esse sucesso, vamos ouvir a letra.

Encontrei o meu pedaço na avenida / De camisa amarela / Cantando a Florisbela / A Florisbela /// Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia / Exibiu-me um sorriso de ironia / E desapareceu no turbilhão da galeria / Não estava nada bom /// O meu pedaço na verdade / Estava bem mamado / Bem chumbado, atravessado ///Foi por aí cambaleando / Se acabando num cordão / Com um reco-reco na mão ///  Mais tarde o encontrei num café do rapa / Do Largo da Lapa / Folião de raça /// Bebendo o quinto copo de cachaça /

     Além da tristeza de “A Jardineira”, havia também um sentimento parecido na marcha-rancho de Noel Rosa e Braguinha na música “Pastorinhas”. Escrita em 1934, a composição lembrava as meninas pastorinhas que desfilavam em Vila Isabel. Mas não fez sucesso na época.

     Depois da morte do parceiro Noel, em 1937, Braguinha fez algumas alterações e lançou no concurso de músicas carnavalescas patrocinado pela Prefeitura do Rio, de 1938. Em vez de moreninhas, Braguinha escreveu pastorinhas, no lugar de pequena, incluiu pastora. Ainda alterou o verso “pequena que tens a cor morena” por “morena da cor de Madalena”. Deu certo, foi gravada em 1937, por Silvio Caldas, mas só estourou em 1938, quando ganhou o tal concurso. ////  Vamos ouvir um trecho de “Pastorinhas”, na voz de Nelson Gonçalves.

     O “Hino do Carnaval Brasileiro”, marcha de Lamartine Babo, também de 1939, ainda espalha alegria e a empolgação em alguns grupos que amam a música brasileira. Na letra, além de elogiar as meninas – as morenas, louras, as garotas de cabelos ruivos - Lalá fala da importância do pandeiro para fazer a marcação e exalta a natureza brasileira. Não havia naquela época a postura do politicamente correto, mas é verdade, o machismo muitas vezes imperava. A palavra mulata hoje está fora do vocabulário dos que lutam pela igualdade racial. Outro sucesso carnavalesco “O teu cabelo não nega”, também de Lamartine e Irmãos Valença, de 1932,  já foi devidamente discutido e está fora de muitos bailes e blocos. Mas vamos relembrar a letra do Hino do Carnaval Brasileiro e verificar se Lamartine Babo está ofendendo alguém com essa marchinha. Acho que não.

    Salve a morena / A cor morena do Brasil fagueiro / Salve o pandeiro / Que desce do morro prá fazer a marcação / São, são, são / São quinhentas mil morenas / Loiras, cor de laranja, cem mil /Salve, salve / Teu carnaval, Brasil// Salve a loirinha / Dos olhos verdes cor das nossas matas / Salve a mulata / Cor de canela, nossa grande produção / São, são, são. São quinhentas mil morenas / Loiras, cor de laranja, cem mil / Salve, salve / Teu carnaval, Brasil


Altamiro Carrilho : o maior flautista brasileiro





Rose Esquenazi

     A cidade de Santo Antônio de Pádua, no Norte Fluminense,  parou no dia 15 de agosto de 2012. O filho mais famoso da terra, Altamiro Aquino Carrilho, ia ser enterrado ali, aos 87 anos. Considerado o maior flautista brasileiro de todos os tempos, Altamiro chegou a ganhar um grande elogio do flautista francês Jean Pierre Rampal. Para ele, Altamiro Carrilho era o melhor flautista do mundo.
     Os instrumentistas têm tudo a ver com a história do rádio porque, nos estúdios das emissoras, eles mostraram pela primeira vez seu dom e talento. Ouvimos,  no início do quadro, um trecho da música Carinhoso, de Pixinguinha, uma obra-prima que também se adaptou perfeitamente à flauta de Altamiro Carrilho. Essa música foi um de seus carros-chefes na extensa carreira.
     Certa vez, perguntei a Altamiro, já velhinho, na Escola Portátil de Música, na Urca, como foi o começo dele no rádio. E ele contou que durante o primeiro teste, ele tinha que segurar a flauta velha com cuidado porque estava toda presa por elásticos.  Além de músico, Altamiro Carrilhofoi também compositor e deixou para posteridade mais de 200 músicas.
     Mas vamos contar como tudo começou. Em 1938, aos 14 anos de idade, Altamiro Carrilho fez parte da Banda Lira de Arion, fundada pelo avô. A família toda era apaixonada por música, tanto que a mãe se chamava Lira. O rapaz era responsável pelo som que saía da caixa de guerra, que instrumento é esse? Não faço ideia. Nessa época, os Carrilhos se mudaram para Niterói buscando novas oportunidades de trabalho. Enquanto ganhava um dinheirinho sendo farmacêutico, Altamiro estudava música.

     Também aos 14 anos, Altamiro se apresentou no programa de Ary Barroso, o Calouros em desfile, no Rio de Janeiro. Ary era o animador mais exigente de todo o rádio brasileiro, além de ser um tanto mal-humorado. Mas ele se rendeu ao talento do rapaz, ao som de sua gaita presa com elásticos e lhe deu o primeiro prêmio. Depois disso, Altamiro comprou outra flauta de segunda mão e não perdia os programas de Dante Santoro e Benedito Lacerda, dois grandes instrumentistas. Como ele tinha grande facilidade para improvisar, acabou sendo contratado na Rádio Nacional.

     Altamiro passou a acompanhar grandes cantores como Orlando Silva, Vicente Celestino e Francisco Alves. O som de sua flauta fazia toda a diferença no resultado final.
Uma história curiosa aconteceu quando o flautista notou que havia um novato em Niterói, apresentando, no rádio, um programa muito animado. Era um tal de Abelardo Barbosa, ainda desconhecido, e seu horário era tão simples que não tinha sequer prefixo musical. Por amizade, Altamiro compôs Flauteando na Chacrinha, que passou a abrir os programas da Rádio Clube de Niterói. Ouça no YouTube Flauteando na chacrinha

     Aos 19 anos, Altamiro Carrilho gravou seu primeiro disco ao lado do sambista Moreira da Silva. Na época, anos 40, ainda era raro ver um instrumentista galgar os primeiros lugares nas paradas de sucesso. Mas, ao lado de famosos músicos, isso era possível. A fama de bom flautista já era conhecida e por isso foi contratado para tocar na orquestra da Rádio Sociedade Fluminense. De lá para a Rádio Tupi foi um pulo, agora como integrante dos conjuntos de César Moreno e depois de Rogério Guimarães.

     Em 1950, Altamiro formou seu primeiro conjunto e atuou na Rádio Guanabara. Um ano depois, o músico Canhoto o convidou para fazer parte de seu regional. Na ocasião, substituiu Benedito Lacerda, grande referência na Rádio Nacional.

     Em 1956, Altamiro teve uma ideia genial:  formou a Bandinha de Altamiro Carrilho, com a qual gravaria dezenas de discos. Ele não fazia sucesso só no rádio, mas também na TV Tupi, no horário nobre. Certamente ele influenciou o público jovem que tentava uma carreira na área musical. A bandinha funcionou até 58 no programa Em tempo de música, de grande audiência.

     Altamiro teve o dom de redescobrir o choro. Durante um tempo, o gênero musical esteve em baixa, mas passou a ter crescente interesse graças a atenção e as gravações do flautista. Há muitos anos está em alta, valorizada e considerada como o mais brasileiro dos ritmos. O maxixe Rio Antigo, de  autoria de Altamiro, que vamos ouvir a seguir, chegou a vender 960 mil cópias, em 1960. Se era um fenômeno na época, ainda hoje seria considerado um recorde.  A música foi composta para comemorar os 400 anos da fundação do Rio de Janeiro, em 1965. Ainda faz parte do repertório dos músicos que cultuam o choro. 

     Altamiro Carrilho começou a fazer turnês internacionais nos anos 60 e 70. Viajou para Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Estados Unidos, Alemanha.
As semanas que iria tocar no México se transformaram em um ano inteiro de apresentações. Foram três meses na Rússia e, em Israel, as pessoas lotaram a sala de concerto.

     Foram tantos os pedidos, que Altamiro resolveu fazer um segundo show em seguida, com poucos minutos de intervalo. O esforço era para apaziguar os amantes da música e da flauta do brasileiro. Em 1987, Altamiro acompanhou a cantora Elizeth Cardoso ao Japão, fazendo com que os japoneses passassem a amar ainda mais a música brasileira.

     De volta aos setenta, Altamiro teve uma grande sacada ao incluir pequenas cadências da música popular brasileira no Concerto em Sol de Mozart. Deu certo.  Ele continuou a mostrar o talento em unir o clássico e o popular no Teatro Municipal, onde o público o aplaudiu de pé durante 10 minutos. Altamiro gravou dois discos em que mostrava essa arte. Com os Clássicos em Choro, o músico pôde comemorar em 1997 o Prêmio Sharp. Altamiro ganhou muitos outros prêmios, sendo o primeiro o Troféu Microfone de Ouro, instituído pela revista Radiolândia. O presidente Fernando Henrique Cardoso, em reconhecimento à luta de Altamiro em defesa da música, lhe conferiu a Ordem do Mérito Cultural, em 1998.

     Altamiro Carrilhofoi o flautista que teve o maior número de gravações registradas na história do disco no Brasil. Mas sempre se manteve humilde e carinhoso com todos que se aproximavam deles. O irmão Álvaro também era músico e começou tocando choro em uma pequena flauta de bambu. Os  filhos de Álvaro, César e Maurício, deram continuidade ao amor à música. Todos foram responsáveis pela fundação da Escola Portátil de Música e, depois, da Casa do Choro. Nesses dois lugares, se pode ouvir e aprender instrumentos musicais sempre ligados ao chorinho!Mas, para quem quiser, pode participar das oficinas de música de Carnaval 2018. É só se inscrever no www.escolaportatil.com.br. Até o dia 11 de janeiro.

    Vamos terminar com um clássico o Pour Elise, de Beethoven, com o som da flauta incrível de Altamiro Carrilho. Genial!



Agnaldo Rayol: Luar em Paquetá





Rose Esquenazi

     Escute no Youtube a música 'Estrada do sol', gravação de 1959, com interpretação de Agnaldo Coniglio Rayol. Aos 79 anos, em dezembro de 2017, o cantor mora em São Paulo e ainda possui uma voz potente e fãs fieis. 
     Agnaldo nasceu no Rio de Janeiro, no dia 3 de maio de 1938. Com três anos de idade, em 1941, durante o período da Segunda Guerra, gravou um disquinho de acetato colorido em uma agência dos Correios e Telégrafos. Na época, havia estúdios com microfones “jacaré”, forrados de chita. O tio Edgar e avó Anésia quiseram fazer uma surpresa para os pais de Agnaldo e, sem querer, deram início à carreira do garoto. 
     Logo, estreou como talento mirim na Rádio Clube e depois na Nacional, durante o programa 'Papel Carbono', de Renato Murce. Agnaldo tinha apenas cinco anos de idade quando cantou na Clube. Foi considerado prodígio. Estreou cedo também no cinema.  Assim que chegou a Natal, onde foi morar com os pais, Agnaldo recebeu um convite para participar do filme 'Maior que o ódio', no Rio de Janeiro. O diretor José Carlos Burle rodava o filme policial e convenceu Agnaldo a fazer o papel de Jorge Dória quando criança. 
     Ainda muito jovem, fez parte do elenco de 'Também Somos Irmãos'. De volta a Natal, onde morou durante seis anos, Agnaldo foi trabalhar na REN, Rádio Educadora de Natal. Graças ao blog de Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto, soube que, anos antes, a pequena população da cidade sequer tinha um aparelho de rádio em casa. Nos anos 50, essa situação mudou. Dos amplificadores de som instalados nas praças, que irradiavam os programas, os  natalenses passaram a ter seus próprios receptores para ouvir a Rádio Poti, o novo nome que a REN passou a ter ao fazer parte da taba de emissoras de nomes indígenas de Assis Chateaubriand. 
     Agnaldo Rayol foi discotecário e sonoplasta justamente nessa época quando a voz dele mudava. Ele mesmo contou sobre essa fase da vida, abre aspas: "Dos 14 aos 16, fiquei fazendo sonoplastia e trabalhando no rádio. Quando a voz melhorou, entrei como solista para o trio Puracy, cantando com Perci e Pajeú. Quem deu o nome foi o Luiz da Câmara Cascudo, especialista em cultura popular brasileira. Puracy quer dizer na língua indígena barulho de vozes. Na verdade, era um barulho mesmo!", brinca Agnaldo, que chegou a viajar de ônibus para São Paulo para gravar uma música de carnaval num disco de 78 rotações.  "Meu irmão Reinaldo vendia de porta em porta. Mais tarde virou compositor", contou Agnaldo. 
     De volta ao Rio de Janeiro, em 1956, não quis dar mais continuidade à carreira de rádio ator. Ganhava pouco, não tinha muito destaque.  Decidiu procurar emprego na TV, no programa Festival de Vozes. Curiosamente, cantava escondido a música Ave Maria, de Vicente Paiva. 
    O público gostou e ficou curioso: quem era aquele cantor?  Ele iria aparecer no programa da semana seguinte, cantando 'Aquarela do Brasil' para Teresinha Morango, eleita Miss Brasil e segundo lugar no concurso de Miss Universo.  
      Agnaldo entrou na Rádio Tupi em 1956 e, em 1958, foi convidado a gravar o primeiro disco, pela Gravadora Copacabana. O jornal Correio da Manhã estampou um ”ótimo” ao descrever o primeiro disco de 78 rotações, com as músicas 'Prece' e 'Se todos fossem iguais a você'. Com seu vozeirão, Agnaldo Rayol dava continuidade à geração de cantores de vozes fortes e potentes, como Francisco Alves e Vicente Celestino. Chegou a cantar para o presidente Juscelino Kubitschek e passou a ganhar vários prêmios. Ele conseguiu colocar a voz no seguro, o maior bem de sua vida. Impressionou tanto ao cantar 'Ave Maria' que, durante muitos anos, dezenas de noivas pagavam caro para tê-lo na igreja entoando a canção. 
     Na Rádio Nacional, Agnaldo era o cantor que ficava de stand by, quando os nomes mais famosos não apareciam por algum motivo, ele era chamado a assumir o microfone. Os programas eram os mais famosos da época, comandados por Manoel Barcelos e Paulo Gracindo. 
     Agnaldo sempre manteve as duas carreiras unidas, a de ator e cantor.  Em 1959, interpretou a música Luar de Paquetá, ao  lado de Nelly Martins, no filme Garota enxuta. O bairro carioca, que volta a estar na moda atualmente, era, nos anos 50 o destino certo para namorados e crianças em férias. Agnaldo ficou amigo de Angela Maria, que estava fazendo grande sucesso, ganhando todos os troféus e títulos promovidos pelas revistas especializadas no mundo do rádio. Muitas vezes, os sucessos de Angela e de Agnaldo coincidiam, como no caso da música 'A noiva'. Os críticos achavam brega a letra, mas o público gostava mesmo assim. No caso, a noiva estava se casando com uma pessoa de que ela não gostava! A letra diz assim:
Branca e radiante vai a noiva  // Logo a seguir, o noivo amado  //  Quando se unirem os corações // Vão destruir ilusões ///// Aos pés do altar, está chorando  // Todos dirão que é de alegria  //  Dentro, sua alma está gritando ‘Ave Maria’.  
     A carreira de Agnaldo Rayol estourou mesmo nos anos 60, ao receber convites da antiga TV Record para ter seus próprios programas de televisão. Ao lado do humorista Renato Corte Real, o cantor apresentou 'Agnaldo RayoI Show' e 'Corte RayoI Show'.  Curiosamente, durante uma época, também integrou a turma da Jovem Guarda, ao lado de Roberto, Erasmo e Wanderléa. No cinema, fez parte do filme 'Perigo à vista', de 1969.

     Não negou os convites para atrabalhar em novelas, a partir de 1964: 'Mãe''O Caminho das Estrelas' (1965), 'A Última Testemunha' (1968), 'As Pupilas do Senhor Reitor' (1970) e 'Os Imigrantes' (1981). Marcou a novela 'Rainha da Sucata' cantando Ave Maria. 

     São muitos os filmes e novelas em que trabalhou como ator e cantor. Em homenagem aos soldados brasileiros, anos depois de eles terem voltado da guerra, foi composta 'Mia Gioconda'.  Agnaldo cantou novamente essa música  para a novela 'O rei do gado', em 1996. Em 2012, a vida do cantor virou musical: 'Agnaldo Rayol – A alma do Brasil'. O último CD, 'Agnaldo Rayol e amigos', foi gravado em quatro dias de cruzeiro. estavam a seu lado os amigos de toda a vida, como Jerry Adriani e Angela Maria.   





Patrício Teixeira : o bambo de bambu, bambu, bambu



Rose Esquenazi

Patrício Teixeira foi um grande cantor e compositor, pioneiro nas gravações do Brasil. Durante muitas décadas, também foi nome destacado na história do rádio desde o surgimento das primeiras emissoras, nos anos 20. Ouvimos no início do quadro a trechos de 'Não tenho lágrimas' e  'Sabiá laranjeira', duas das muitas composições de sucesso desse carioca. Sabiá Laranjeira teve como coautores Max Bulhões e Milton de Oliveira.
 Patrício Teixeira nasceu no dia 17 de março de 1893, na Praça Onze, e não chegou a conhecer pai e mãe. Começou a cantar fazendo serestas em Vila Isabel e no bairro do Centro, onde vivia. Foi amigo e parceiro de grandes nomes da música, como Pixinguinha, Donga, João da Baiana e outros integrantes do conjunto Oito Batutas. Era negro como eles e prova como foram os descendentes afro-brasileiros que mudaram os rumos da nossa música.
 Patrício ficou conhecido como importante professor de violão para as mocinhas da elite e da classe média, que começavam a querer entrar no mundo musical. A cantora e violonista Olga Praguer Coelho foi uma delas. Entraram na lista de alunas Aurora Miranda, irmã da Carmem, Linda Batista e, anos mais tarde, as irmãs Danuza e Nara Leão, e a atriz Maria Lúcia Dahl.
 Patrício se interessou por músicas do folclore brasileiro, aprendendo as obras de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco. Logo, ele se entusiasmou pelas gravações das companhias Odeon, Parlophon, Columbia e Victor. E acompanhou a mudança das gravações mecânicas para as elétricas. Pôde constatar como elas melhoraram de qualidade.
 A primeira apresentação  do músico aconteceu em um clube de Petrópolis, o Xadrez, em 1918. Passou a frequentar a Rádio Clube, a segunda estação fundada no Brasil.  A primeira foi a Sociedade, em 1923. Ali, era preciso enfrentar o misterioso microfone, ao vivo. Os cantores e radialistas não sabiam como a voz estava sendo recebida. Mesmo sabendo que o público era ainda rarefeito, havia a preocupação de agradar os ouvintes.
 Patrício Teixeira gostava de vários gêneros: emboladas, marchinhas, sambas, músicas sertanejas.  Ele aceitou gravar oito discos simples na Odeon, isso, em 1926, quando tinha 33 anos. Gravou o  fado-tango "Preso por um beijo", de Freire Júnior, a toada "Ranchinho desfeito", de Donga, a canção "Magnólia", de Catulo da Paixão Cearense, a embolada "Bambo, bambu", dele e de Donga. Até hoje, os cantores gravam essa música de letra muito interessante e com duplo sentido.  Ney Matogrosso e Eduardo Dusek adoram cantar essa embolada cantada muito rapidamente.

O bambo de bambu, bambu, bambu  // olha o bambo de bambu, bambulelê  //  olha o bambo de bambu, bambulalá  //  eu quero ver dizer três vezes // bambulê, bambulalá //  
Fui a um banquete na casa do Zé Pequeno  //  a mesa tava no sereno pra todo mundo caber  //  tinha de toda qualidade de talher //// tinha mais homem que mulher  //  mas só não tinha o que comer, bambu /// No tal banquete dito-cujo referido // mulher que tinha marido
não passou aperto, não  // pois as danadas, para não morrer de fome  //  cada qual comeu seu homem  //  não tiveram indigestão, bambu.///
Conheço um homem que tem 17 filhos  // que pôs tudo no desvio
pra polícia empregar // a mulher dele, de beleza ainda promete
dar a luz a dezessete  // pra depois então parar, bambu

 Da Rádio Clube, Patrício Teixeira passou pela Rádio Guanabara, Cajuti – que pertenceu ao cantor Francisco Alves -,  Rádio Sociedade e Mayrink Veiga. Algumas músicas de domínio público foram gravadas pelo cantor, como “Casinha pequenina”. Outras revelaram a qualidade de seus parceiros , como "Gavião Calçudo", de  Pixinguinha, "Xoxô", de Luperce Miranda, "Cabide de Molambo", de João da Baiana.
 Os biógrafos sempre elogiaram Patrício Teixeira como intérprete brilhante e muito popular, e gostavam de seu jeito de ser, simpático e afável.  Era mesmo querido e respeitado em uma época em que o violão ainda era instrumento de “vagabundos”. Mas ele entrava nas casas de família, que cultuavam ainda o piano.
 Em 1927, ele foi eleito  pelo jornal Correio da Manhã como patrono das provas de canto do concurso "O que é nosso". Eles escreveram assim:  "Patrício Teixeira é, sem favor,.Rendemo-lhe, pois, esta homenagem escolhendo-o para patrono das aprovas de canções”.
 Com certa abertura, as mocinhas mais modernas dos nos 30 queriam conhecer o violão, instrumento mais fácil de se aprender. Entre os sucessos de Patrício Teixeiracomo está uma deliciosa marchinha de carnaval, que também tem uma dose de duplo sentido: “Diabo sem rabo”, de Haroldo Lobo e Milton Teixeira.
 A minha fantasia de diabo //Só falta o rabo, só falta o rabo// Eu vou botar um anúncio no jornal//: Precisa-se de um rabo// Pra brincar no carnaval// Já comprei lança// Carapuça//, comprei tudo// Até o pé de pato E capa de veludo// Mas, que diabo!// Puxa, puxa, que diabo!// Depois de tudo pronto// Eu notei que falta o rabo.

 Aplaudido por diferentes públicos, Patrício Teixeira foi se impondo no mundo musical. Conseguiu alguns sucessos com o primeiro conjunto que se apresentou na Europa, os Oito Batutas, de Pixinguinha. "Xoxô" (com Luperce Miranda), "Cabide de Molambo" (com João da Baiana), "Sete Horas da Manhã".
 No livro de Rui Castro, Carmen, ele conta sobre a carreira da cantora. Na  fase em que ela está despontando, no começo de 1930, Carmen decide fazer um show no Teatro Lyrico, no Rio. E convidou a nata da cultura. Os cronistas Eugenia e Álvaro Moreyra, os atores Procópio Ferreira, Alda Garrido e Raul Roulien e os cantores Gastão Formenti e Patrício Teixeira e a Orquestra Victor. Eles também já a consideram no primeiro time, tanto que se encontravam com Carmen nas estações de rádio,onde se apresentava semanalmente. Faziam parte da nova geração que estava se impondo no cenário musical, incluindo aqui Mario Reis, Sylvio Caldas, Almirante e Carlos Galhardo.
 Esses intérpretes que se apresentavam nas estações de rádio, também davam canja em cinemas, principalmente para eventos beneficentes. No Cine Atlântico, um cinema pulgueiro que ficava na Nossa Senhora de Copacabana, Patrício Teixeira e Carmem Miranda se apresentaram em um espetáculo cuja renda foi para a Casa do Pobre.
 Não tenho lágrimas é uma de obras musicais de Patrício Teixeira. A música foi escolhida para fazer parte da trilha sonora do filme "Touro Indomável", de Martin Scorsese, de 1980, com Robert de Niro no papel.
  
 Em 1933,  Patrício Teixeira gravou com Carmen Miranda. O samba "Perdi minha mascote", de João da Bahiana, acompanhado pelo Grupo do Canhoto e Rogério Guimarães.  E não era apenas um sucesso atrás do outro que ele cantava na rádio. Ele gravava também, agora na Columbia a marcha "Nem que chova canivete", de Alberto Ribeiro e os sambas "Quem faz a Deus paga ao diabo", de João da Bahiana e "Casado na orgia" e "Não gostei dos teus modos", de Pixinguinha e João da Bahiana.
 Na Rádio Mayrink Veiga, ele se tornou artista exclusivo, título que lhe deu ainda mais reconhecimento. Era de fato a emissora mais profissional, antes da ascensão da Nacional. Tinha os melhores artistas e os melhores programas. Foi a primeira a ficar 24 horas no ar e a pioneira ao fazer uma transmissão internacional, em sintonia com a Rádio Belgrano, de Buenos Aires.
 E quem foi um desses artistas a conquistar os argentinos? O próprio Patrício Teixeira, ao lado de Carmen e Aurora, Madelou de Assis e Custódio Mesquita.
 Vamos encerrar com “Gavião Calçudo”, gravado em agosto de 1929. O samba é de Pixinguinha e Cícero de Almeida e revelava a preocupação dos homens com as mulheres que andavam de calcanhar de fora na Avenida Central, hoje Rio Branco, atraindo os perigosos gaviões. Esse samba foi regravado por Zeca Pagodinho, só que ele  fez uma releitura tirando a história do calcanhar à vista.
Chorei  //  porque fiquei sem meu amor //  O gavião malvado  //  Bateu asa foi com ela  //,  E me deixou //  Quem tiver mulher bonita  //  Esconda do gavião  //  Ele tem unha comprida  //  Deixa os marido na mão  //  Mas viva quem é solteiro!  // Não tem amor nem paixão  //  Mas vocês que são casado, //   Cuidado com o Gavião!  // Chorei, porque Fiquei sem meu amor  //  O gavião malvado //  Bateu asa foi com ela //,  E me deixou //  O culpado disso tudo // é o marido de agora //, a muié Anda na rua  //  com as canelas de fora! // Gavião tomando cheiro //,  Vem descendo sem demora  // Pega muié pelo bico,  // Bate asa e vai imbora!

 Da Rádio Clube, Patrício Teixeira passou pela Rádio Guanabara, Cajuti – que pertenceu ao cantor Francisco Alves -,  Rádio Sociedade e Mayrink Veiga. Algumas músicas de domínio público foram gravadas pelo cantor, como “Casinha pequenina”. Outras revelaram a qualidade de seus parceiros , como "Gavião Calçudo", de  Pixinguinha, "Xoxô", de Luperce Miranda, "Cabide de Molambo", de João da Baiana.
 Os biógrafos sempre elogiaram Patrício Teixeira como intérprete brilhante e muito popular, e gostavam de seu jeito de ser, simpático e afável.  Era mesmo querido e respeitado em uma época em que o violão ainda era instrumento de “vagabundos”. Mas ele entrava nas casas de família, que cultuavam ainda o piano.
 Em 1927, ele foi eleito  pelo jornal Correio da Manhã como patrono das provas de canto do concurso "O que é nosso". Eles escreveram assim:  "Patrício Teixeira é, sem favor,.Rendemo-lhe, pois, esta homenagem escolhendo-o para patrono das aprovas de canções”.
 Com certa abertura, as mocinhas mais modernas dos nos 30 queriam conhecer o violão, instrumento mais fácil de se aprender. Entre os sucessos de Patrício Teixeiracomo está uma deliciosa marchinha de carnaval, que também tem uma dose de duplo sentido: “Diabo sem rabo”, de Haroldo Lobo e Milton Teixeira.
 A minha fantasia de diabo //Só falta o rabo, só falta o rabo// Eu vou botar um anúncio no jornal//: Precisa-se de um rabo// Pra brincar no carnaval// Já comprei lança// Carapuça//, comprei tudo// Até o pé de pato E capa de veludo// Mas, que diabo!// Puxa, puxa, que diabo!// Depois de tudo pronto// Eu notei que falta o rabo.

 Aplaudido por diferentes públicos, Patrício Teixeira foi se impondo no mundo musical. Conseguiu alguns sucessos com o primeiro conjunto que se apresentou na Europa, os Oito Batutas, de Pixinguinha. "Xoxô" (com Luperce Miranda), "Cabide de Molambo" (com João da Baiana), "Sete Horas da Manhã".
 No livro de Rui Castro, Carmen, ele conta sobre a carreira da cantora. Na  fase em que ela está despontando, no começo de 1930, Carmen decide fazer um show no Teatro Lyrico, no Rio. E convidou a nata da cultura. Os cronistas Eugenia e Álvaro Moreyra, os atores Procópio Ferreira, Alda Garrido e Raul Roulien e os cantores Gastão Formenti e Patrício Teixeira e a Orquestra Victor. Eles também já a consideram no primeiro time, tanto que se encontravam com Carmen nas estações de rádio,onde se apresentava semanalmente. Faziam parte da nova geração que estava se impondo no cenário musical, incluindo aqui Mario Reis, Sylvio Caldas, Almirante e Carlos Galhardo.
 Esses intérpretes que se apresentavam nas estações de rádio, também davam canja em cinemas, principalmente para eventos beneficentes. No Cine Atlântico, um cinema pulgueiro que ficava na Nossa Senhora de Copacabana, Patrício Teixeira e Carmem Miranda se apresentaram em um espetáculo cuja renda foi para a Casa do Pobre.
 Não tenho lágrimas é uma de obras musicais de Patrício Teixeira. A música foi escolhida para fazer parte da trilha sonora do filme "Touro Indomável", de Martin Scorsese, de 1980, com Robert de Niro no papel.
  
 Em 1933,  Patrício Teixeira gravou com Carmen Miranda. O samba "Perdi minha mascote", de João da Bahiana, acompanhado pelo Grupo do Canhoto e Rogério Guimarães.  E não era apenas um sucesso atrás do outro que ele cantava na rádio. Ele gravava também, agora na Columbia a marcha "Nem que chova canivete", de Alberto Ribeiro e os sambas "Quem faz a Deus paga ao diabo", de João da Bahiana e "Casado na orgia" e "Não gostei dos teus modos", de Pixinguinha e João da Bahiana.
 Na Rádio Mayrink Veiga, ele se tornou artista exclusivo, título que lhe deu ainda mais reconhecimento. Era de fato a emissora mais profissional, antes da ascensão da Nacional. Tinha os melhores artistas e os melhores programas. Foi a primeira a ficar 24 horas no ar e a pioneira ao fazer uma transmissão internacional, em sintonia com a Rádio Belgrano, de Buenos Aires.
 E quem foi um desses artistas a conquistar os argentinos? O próprio Patrício Teixeira, ao lado de Carmen e Aurora, Madelou de Assis e Custódio Mesquita.
 Vamos encerrar com “Gavião Calçudo”, gravado em agosto de 1929. O samba é de Pixinguinha e Cícero de Almeida e revelava a preocupação dos homens com as mulheres que andavam de calcanhar de fora na Avenida Central, hoje Rio Branco, atraindo os perigosos gaviões. Esse samba foi regravado por Zeca Pagodinho, só que ele  fez uma releitura tirando a história do calcanhar à vista.
Chorei  //  porque fiquei sem meu amor //  O gavião malvado  //  Bateu asa foi com ela  //,  E me deixou //  Quem tiver mulher bonita  //  Esconda do gavião  //  Ele tem unha comprida  //  Deixa os marido na mão  //  Mas viva quem é solteiro!  // Não tem amor nem paixão  //  Mas vocês que são casado, //   Cuidado com o Gavião!  // Chorei, porque Fiquei sem meu amor  //  O gavião malvado //  Bateu asa foi com ela //,  E me deixou //  O culpado disso tudo // é o marido de agora //, a muié Anda na rua  //  com as canelas de fora! // Gavião tomando cheiro //,  Vem descendo sem demora  // Pega muié pelo bico,  // Bate asa e vai imbora!