sexta-feira, 24 de julho de 2015

Silvio Caldas – O Caboclinho querido




O Rádio Faz História  – 25/5/2015 
Rose Esquenazi



O cantor Sílvio Caldas, o Caboclinho Querido, participou da fase de Ouro do rádio brasileiro. Era um dos Quatro Grandes, ao lado de Francisco Alves, Orlando Silva e Carlos Galhardo. Só que a carreira de Silvio foi mais longa, durou mais de 50 anos e teve três fases bem distintas. Ao longo da vida, ele ganhou muitos apelidos, além de Caboclinho Querido. Foi chamado também de A voz morena da cidade, TitioPoeta da Voz, O cantor que valoriza as palavras. Dono de uma voz especial, de um timbre próprio, inconfundível, embora não tão extenso e forte quanto a voz de Chico Alves e Orlando Silva, ele conseguiu como ninguém unir a técnica à emoção.
Silvio exerceu inúmeras profissões além de cantor e compositor: foi pescador, cozinheiro, garimpeiro, lavador de carro, mecânico, taxista, motorista particular. Por muito e muito tempo, um boêmio incurável, que teve muitos amores.  Mesmo trabalhando em tantas funções, nunca deixava de cantar, sua maior paixão, Estava sempre com o violão, o companheiro mais fiel.  Muitas participações eram gratuitas, só pelo prazer de cantar ao lado dos amigos. Gostava da experiência incrível de estar no estúdio e encarar o microfone, algo assustador na época.
Silvio Antônio Narciso de Figueiredo Caldas nasceu no Rio em 23 de maio de 1908, no bairro de São Cristóvão. Morreu aos 90, em Atibaia, São Paulo, em 3 de fevereiro de 1998. O pai era afinador de pianos e gostava das noitadas, o que vai influenciar o filho mais tarde. Desde criança, aos seis anos apenas, ficou conhecido como o Rouxinol da Família Ideal, nome de um bloco conhecido nas ruas de São Cristóvão. Na época, a letra era assim: “Eu sou bilontra/gracioso cantor”. Para quem não sabe, bilontra significa espertalhão. Aos nove, começou a trabalhar como aprendiz de mecânico. Mas sempre que podia cantava em festas e reuniões.
Aos 19 anos, começou a carreira artística profissional, em 1927, na Rádio Mayrink Veiga. Dois anos depois, passou a cantar na Rádio Sociedade com um contrato de 20 mil réis por noite. Não era muito comum ganhar cachê naquele tempo. Mas Silvio tinha já esse lado profissional, que só vai se tornar corriqueiro a partir dos anúncios nos anos 30. Ele foi um dos famosos que participaram do Programa Casé.
O primeiro disco, ainda amador, chamou-se Quando o príncipe chegar. O nome teve uma razão: era para homenagear o Príncipe de Gales, na época, o Duque de Windsor, que veio ao Brasil. A primeira gravação profissional foi na Victor, em dueto com Breno Ferreira, um desafio chamado Tracuá me ferrô, de Sátiro de Melo. Em seguida, interpretou o samba Amoroso, de sua autoria. Ele também começava a escrever músicas com parceiros importantes, como Cartola, Benedito Lacerda e até Noel Rosa.
 No Governo Vargas, com receio de golpes e rebeldias populares, uma nova lei proibia o cidadão de ficar em grupos conversando nas ruas. Era preciso dispersar. Essa proibição, que voltou na época da ditadura militar, gerou uma música gravada por Silvio Caldas, intitulada “Vou andando”. Vamos ouvir?
O ano de 1930 foi importante para Silvio Caldas que passou a trabalhar para a gravadora Brunswick. Cantou Recordar é viver e o samba-canção Amor e poeta, ambas de Sinhô. Depois gravou 19 discos, com 32 músicas, pela Victor. Atuou ao lado da atriz Margarida Max na revista Brasil do amor, de Ary Barroso, que começava na carreira artística, e Marques Pôrto. No Teatro Recreio, ele cantou o samba Faceira, de Ary. O sucesso contagiou os cariocas e, aos poucos, todos os brasileiros. Silvio Caldas começava a se transformar em seresteiro. Faceira foi mesmo o primeiro sucesso, unindo por muito tempo Silvio Caldas e Ary Barroso.
Depois do teatro de revista, lugar onde se lançavam sucessos musicais na época, Silvio passou também a cantar em cassinos, que pagavam bem e eram frequentados pela elite.
Em 1933, Silvio Caldas gravou Lenço no Pescoço, de Wilson Batista, que ainda era um desconhecido vindo de Campos. Acabou provocando uma tempestade porque valorizava a figura do malandro, imagem que todos os compositores queriam apagar. Era uma letra politicamente incorreta, comportamento que Getulio Vargas tentava abolir. Aquela história do homem que não trabalhava e só queria farrear estava condenada. Por essa razão, Noel Rosa compõe Palpite infeliz, só para dizer que Wilson Batista estava errado. Nasceu ali a primeira polêmica musical que já falamos aqui no quadro O rádio faz história, há algum tempo. Mas Silvio disse que não tinha sido polêmica coisa nenhuma, foi só uma brincadeira. Vamos ouvir Cinema falado, que mostrava a novidade do cinema já com som, e Lenço no pescoço.
Segundo Jairo Severiano, no livro Uma história da música popular brasileira (Editora 34), Silvio Caldas passou por três fases distintas. A primeira foi de 30 a 34, que teve o samba como o gênero predileto. Depois, a segunda fase, de 35 a 44, o ciclo de valsas. Na opinião do pesquisador musical, foi o melhor período, em que o cantor começou também a compor. A terceira fase começou em 45 e terminou quando Silvio Caldas ainda conseguia cantar. Mas não foi a mais brilhante. Ele gravava os antigos sucessos e depois se isolou em um sítio em Atibaia, em São Paulo.
Voltando aos anos 30, fez sucesso no Carnaval de 1933, com a marcha Segura esta mulher e passou ao posto de um dos mais queridos intérpretes de Ary Barroso. Silvio se tornou tão popular quanto Francisco Alves, Orlando Silva e Carlos Galhardo. Tinha um primoroso estilo de interpretação. Em 1936, Silvio Caldas experimenta a carreira cinematográfica na comédia musical Carioca maravilhosa.
Na mesma época, participou do filme Favela dos meus amores. Ele cantou Quase que eu disseTorturante ironia, entre outras. Em 1937, lançou vários sambas de sua autoria e com parceiros. Seu grande sucesso foi a canção Chão de estrelas, com Orestes Barbosa. A música, até hoje, não falta nas rodas de serestas. Os frequentadores da linda cidade de Conservatória, no Estado do Rio, sabem bem disso. A música foi gravada duas vezes, sendo que só nos anos 50 fez grande sucesso.
O escritor Manuel Bandeira escreveu uma crônica elogiando a letra, embora fosse complicada, em poemas decassílabos. Se alguém fizesse “um concurso para apurar qual o verso mais bonito de nossa língua”, disse Bandeira, “talvez eu votasse naquele de Orestes 'tu pisavas os astros distraída'.
Cantor sentimental que fazia questão de dizer as palavras com muita clareza, Silvio marcou a sua época falando de amor e saudade. Jairo Severiano é categórico ao dizer que “ninguém foi capaz de superá-lo na maneira de interpretar letras românticas, até mesmo de dizer certas palavras – saudade, por exemplo – inflexão precisa no exato momento”. Vamos ouvir o clássico Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro, um clássico da música brasileira, na voz de Silvio Caldas.
Não vamos poder citar todas as 177 músicas que Silvio Caldas gravou. Mas quem tiver curiosidade, pode ir ao YouTube e fazer um tour pela voz e interpretação do cantor. Silvio esteve muito ativo nos anos 50, 60 e 70, quando gravou dois LPs com Elizeth Cardoso pela gravadora Copacabana. Incluiu no repertório Fita amarela, de Noel Rosa. Mas foi só em 1975,  na Som Livre, que ele mostrou a única parceria que fez com o Poeta da Vila:  Cabrocha do Rocha.
Em 1989, aconteceu o último show. No Teatro João Caetano, no Rio, foi dirigido, roteirizado e produzido por Ricardo Cravo Albin. Era uma homenagem aos 80 anos de Silvio. O show foi transformado em programa na TV Educativa.  Em 1992, recebeu no Rio de Janeiro a Medalha Machado de Assis, pela Academia Brasileira de Letras, por sugestão do escritor Jorge Amado.
Em 1994, ao ser lançado o CD Orestes Barbosa - O poeta nas vozes de Francisco Alves e Sílvio Caldas, o público mais uma vez pode avaliar a qualidade do Caboclinho Querido. Em 1995, participou do Songbook  Ary Barroso,  interpretando o samba Quando eu penso na Bahia. Em 1998, por ocasião os seus 90 anos, foi homenageado com o CD Sílvio Caldas 90 anos, com Zé Renato e Orquestra. Integrante do conjunto Boca Livre, o cantor e compositor Zé Renato esteve próximo do cantor porque a família dele conhecia o Caboclinho. Em 2008, em comemoração ao centenário e seu nascimento, foi lançado pelo pesquisador Carlos Marques o livro Sílvio Caldas - O Seresteiro do Brasil, contando a trajetória artística do cantor. Para terminar vamos ouvir a Cabrocha do Rocha. A primeira parte é de autoria de Silvia Caldas, a segunda, é de Noel:
CABROCHA DO ROCHA 
Eu tenho uma cabrocha ////////
Que mora no Rocha ////// 
E não relaxa. ////////
Sei que ela joga no bicho, ////
Que dança maxixe, /////// 
Que dá muita bolacha./////////
.........
Tenho um filho macho /////  
Com cara de tacho ////
 E além disso é coxo.  ////////  
Ele me faz de capacho, /////
Qualquer dia eu racho  /////////// 
Este carneiro mocho. //////

Big Boy, um caso de amor com os Beatles



Rose Esquenazi
  

Newton Alvarenga Duarte, o Big Boy, nasceu no dia 1º de junho de 1943, no Rio de Janeiro, e morreu no dia 7 de março de 1977.  Foi vítima, aos 33 anos, de um forte ataque de asma e talvez também pela agitação louca de sua vida. Big Boy se tornou o disc-jóquei mais famoso do rádio brasileiro. Lançou muitas novidades, como usar a linguagem descontraída, tocar rock de todas as vertentes, foi o primeiro profissional multimídia do rádio. Ele era um rapaz baixinho e gordinho, por isso, era tão engraçado o seu apelido de Big Boy.

Newton, o Big Boy, era apaixonado por música, ou melhor, pelo rock e pelas novidades que estavam surgindo nos anos 60. Tanto que, ainda muito menino, ia escondido dos pais, do Rio para São Paulo para comprar discos que apareciam primeiro por lá. Na época, eram LPs e singles de bandas estrangeiras. Aos amigos que viajavam para o exterior, ele fazia encomendas especiais. A paixão de Newton, desde criança, era ouvir o programa Hoje é Dia de Rock, de Jair de Taumaturgo, na Rádio Mayrink Veiga, a PRA-9.

Jair já era um conhecido radialista e comandava o programa Peça bis ao telefone. Aos 42 anos, aceitou a sugestão de Isaac Zaltman e lançou, em 1960, o programa Hoje é dia de rock. O sucesso foi explosivo. As meninas, ou melhor, os brotinhos aderiram imediatamente. Os rapazes, que já tinham assistido, em 1957, ao filme Ao balanço das horas (Rock around the clock), nos cinemas do Rio, também aprovaram. 

Certa vez, no programa, um convidado especial chamou a atenção do público: o americano Neil Sedaka. A visita encheu muitas páginas da Revista do Rádio.  Foi Taumaturgo também quem mudou o nome do grupo Bacaninhas do Rock da Piedade para Renato e seus Blue Caps. E por que digo isso tudo? Porque o grupo dos irmãos Barros – Renato, Paulo Cezar e Edson - também amavam o rock’n roll e os Beatles, como vou falar daqui a pouco.

Voltando ao Big Boy. Ele foi convidado para trazer para a Rádio Mundial os seus próprios discos e, durante 10 minutos, fazer a sua participação. Acabou criando um slogan que atraiu o público jovem: “Hello, crazy people. Big Boy rides again”. Tradução livre: “Olá, gente maluca. Big Boy de novo com vocês”. A sua participação ia crescendo ao deixar a fala dura e empolada dos outros locutores e apresentadores para se dirigir diretamente aos ouvintes. Usava gírias e toda a irreverência possível. Como ouvimos no começo do programa. 

Aos poucos, além de apresentador, Big Boy se tornou programador, captando sempre o gosto do público. Apaixonado pela música contemporânea, ele seguia os vários movimentos mundiais, e, claro, os Beatles, que estavam fazendo uma revolução na música.  Nos anos 60 e 70, época da repressão e de censura, da ditadura militar e do AI-5, a música era o único oásis de liberdade que os jovens tinham acesso. Assim, todos levavam o radinho de pilha para todo o lado, principalmente, para a praia, parques e estádios. Todo o mundo conhecia o Big Boy, falava como ele, repetia as suas expressões. Amavam o estilo prafrentex, que chegava em primeiro lugar pelas ondas sonoras. Os mais velhos podiam olhar com desconfiança aquela invasão alienígena, mas os jovens amavam o que ouviam. 

No dia 1º de junho de 1967, Big Boy tocou, pela primeira vez, em uma rádio brasileira, o álbum Sgt. Pepper Hearts Club Band. Os antenados foram correndo para as lojas de discos importados fazer a encomenda do álbum. As coisas funcionavam dessa maneira: sem internet, computador, CDs e cassete, tudo girava em torno dos discos comprados a preço salgado nas lojas de discos importados que, praticamente, não existem mais. Vamos ouvir um trecho de Sgt. Peppers?

Em 1970, em Londres, Big Boy conseguiu, com a ajuda de um amigo, entrar no estúdio da Apple, onde os Beatles gravavam a música Let it Be. Com um mini gravador escondido na roupa, ele gravou a música. Mas teve que sair correndo, quando os funcionários descobriram o que Big Boy tinha acabado de fazer. De volta ao Brasil, tocou em primeira mão no mundo, a música Let it Be. Os fãs enlouqueceram.


            Na Rádio Mundial, ele tinha um programa de 15h às 16h, e depois de 18h às 19h, de segunda a sexta. Aos sábados, ele comandava outro grande sucesso, o Cavern Club, só para tocar Beatles. Para quem não é da época, é bom esclarecer que o Cavern Club foi a boate especializada em rock em Liverpool, onde os Beatles começaram a tocar, em 1961. Em dois anos, até 1963, eles fizeram 292 shows. Foi lá que o empresário Brian Epstein conheceu o grupo, passando a administrá-los de maneira profissional. 

Trabalhador, Big Boy passou pela Rádio Record, em São Paulo, onde tinha o programa Papo Pop, para lançar grupos brasileiros de vanguarda. No Rio, trabalhou também na Rádio Tamoio e Tupi. Acabou chegando à TV Globo, no Jornal Hoje.  Seu quadro Hello Crazy People era semanal e, lógico, fazia sucesso. Big Boy mantinha uma coluna musical chamada Papo Pop, na Revista Amiga, da Editora Bloch, e Top Jovem, no jornal O Globo.

O disc-jóquei também apresentava os clips de maiores sucessos seguindo as listas internacionais. O público votava, pelo telefone, nas famosas “discotecas” do rádio. As mais votadas voltavam, no fim do dia, na nova ordem sugerida pelo público. 

Voltando aos Beatles, enquanto os LPs não eram lançados oficialmente no país, os grupos da Jovem Guarda decidiam fazer covers, ou seja, cantavam como o grupo original. Mais tarde, faziam versões da música em português. Costumavam lançar as novidades em programas jovens, como Hoje é dia de Rock, na TV Rio. O grupo Renato e Seus Blue Caps gravaram Feche os Olhos, nada mais, nada menos, do que a versão de Renato Barros para All my loving, de John e Paul McCartney. Outras versões fizeram sucesso, como a música Dona do meu coração, inspirada em Run for you life, de Lennon & McCartney. Vamos comparar o original e a cópia?

Em 1971, a Rádio Eldorado do Rio, foi a primeira emissora do país a investir no FM e, em 1974, passou a se chamar Eldo Pop. O que estava na moda naquele instante era o rock progressivo, faixas comandadas por Big Boy. Sem anúncios e com uma qualidade sonora muito maior, a FM visava a contemplar um público especializado, amante da música, nesse caso, o de vanguarda.

Ao morrer prematuramente, Big Boy tinha um acervo de 20 mil títulos, entre LPs e compactos, grande parte importado. Ia de rockjazzsoul musicrock progressivomúsica francesatrilhas sonoras de filmes, orquestrais. Ele também lançou seus próprios discos que tinham  lista das mais tocadas. Gostava de animar shows de jovens no subúrbio carioca. Curiosamente, fez participações como ator no programa de Chico Anysio, na TV Globo, na novela cômica Linguinha, de 1970.

Para terminar, vamos ouvir outro trecho do programa de Big Boy :
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Custódio Mesquita de Pinheiro: elegância e talento





Rose Esquenazi





     Custódio nasceu no dia 25/4/1910 e morreu em 1945, antes de completar 34 anos. Uma vida tão curta não o impediu de deixar uma obra imensa e maravilhosa, que poucos conhecem atualmente. Somente os compositores tarimbados e pesquisadores o reverenciam.  Curiosamente, depois de fazer tanto sucesso na música, no teatro e até no cinema, pouco tempo depois de morrer, acabou sendo esquecido, apesar de suas lindas e criativas composições. Isso não aconteceu, por exemplo, com Noel Rosa, que todos ainda conhecem.


     Custódio era uma pessoa muito bonita e elegante e tinha tudo para dar certo. Principalmente porque era talentoso e tornou-se um grande compositor, pianista, regente e ator. Ou seja, mais um talento diversificado que brotou na Era de Ouro da MPB.  


     Carioca, nasceu em uma família rica, na Rua Ipiranga, 26, Laranjeiras. Custódio teve as primeiras noções musicais com a mãe e, depois aprendeu a tocar piano com o pai.  Era rebelde e gostava de tocar de ouvido. Nenhum professor da época conseguiu domá-lo. Por isso, a família resolveu inscrevê-lo como escoteiro no Clube do Fluminense, onde passou a tocar tambor. Do tambor à bateria foi um pulo. Arrumou um grupinho musical e passou a tocar na antessala do Cinema Central. Há uma curiosidade familiar: ele era tio do produtor cultural carioca Albino Pinheiro, da Banda de Ipanema. 


     O rádio estava em alta naquele tempo, assim, foi natural que fosse se apresentar na primeira atração de variedades do rádio brasileiro, o Esplêndido Programa, de 1931. O apresentador, Waldo Abreu, trabalhava na Rádio Mayrink Veiga onde criou vários quadrinhos que tornaram o programa mais animado. Depois, Custódio se transferiu para Rádio Philips, onde reinava o Programa Casé. Não havia atração mais animada aos domingos. Da bateria ao piano foi natural. As primeiras gravações, em 1932, foram os fox-trotes Dormindo na rua e Tenho um segredo. Depois, escolheu um parceiro maravilhoso, Noel Rosa, seu amigo do coração, que também morreu cedo, aos 26 anos.  Juntos, criaram o samba Prazer em conhecê-lo, gravado por Mário Reis na Odeon. Foi o que ouvimos na abertura, só que gravado pelo conjunto Coisas Nossas. 


     Não parou mais de compor.  Em 1933, Mário Reis lançou o samba Os homens são uns anjinhos. O cantor João Petra de Barros gravou os sambas-canção Palacete de malandro e Conto da carochinha e Carmen Miranda,Por amor a esse branco.  Sucesso mesmo ele fez com a música gravada por Aurora Miranda, Se a lua contasse, em 1933. Aqui, vamos ouvir a música na voz de Marlene.


     O rádio ainda estava sendo desvendado pelo público. Assim, com a Canção ao microfone e Cantor do rádio, gravados por João Petra de Barros na Odeon, Custódio tentava revelar o mundo mágico do cantor de rádio que as fãs não conhecem, mas sonham com ele. O rádio era visto como um lugar mágico, onde passava as ondas misteriosas do éter, o espaço azul e o infinito. Desde 1934, as revistas dedicadas ao mundo do rádio, chamam Custódio de "O Príncipe romântico do teclado", ou o "Valentino brasileiro", em comparação ao ator argentino Rodolfo Valentino, outro bonitão da época. Alguns críticos o chamavam de “garanhão”.


      Entre os mais citados nessas revistas, como Carioca, estão Noel Rosa e Custódio Mesquita, que tinham a vida íntima dissecada pelos jornalistas. Ele poderia ter seguido uma carreira e estudado em uma faculdade. Mas era um pouco preguiçoso e estudou ao equivalente ao terceiro ano ginasial. Acabou sendo diplomando no samba. Aliás, a música Doutor em samba, interpretado por Mário Reis falava sobre o dilema. Custódio fazia uma homenagem a outro jovem bonito e que havia sido rico, mas que se formou em direito, o próprio Mário Reis. O dinheiro que começou a ganhar no rádio não significava muita coisa, ao contrário do que ocorria com seus amigos compositores, muito mais pobres e necessitados. É claro que ficava orgulhoso ao reconhecer que a vida profissional estava dando certo.


     Segundo o escritor Orlando de Barros, que escreveu o livro Custódio Mesquita. Um compositor romântico no tempo de Vargas - 1930-45 (Eduerj/Funarte), até 1936, o compositor mergulhou nas experiências radiofônicas. Foi diretor artístico da Rádio Mayrink Veiga, mesmo muito jovem, começou a frequentar a Rádio Record, em São Paulo. Conheceu as rádios de Santos e Porto Alegre, quase uma aventura naquela época. Acompanhou Carmem Miranda em Buenos Aires em um mês de apresentações na Rádio Belgrano.  Foi diretor artístico da Rádio Clube do Pará, inaugurada em 1934. 

     Ali, fazia um pouco de tudo: selecionava elenco e conteúdo, dava pitaco em todos os assuntos e passou a entender de orquestração, já que não havia em Belém ninguém que soubesse fazer isso. Mais eclético, impossível. Inaugurou atrações novíssimas para a época, como programas de calouros e rádio-novelas. Quando faltava alguém para animar a plateia, ele assumia o papel de animador. 

A experiência foi muito útil em sua vida: aprendeu a identificar o que fazia sucesso. Em 1937, ganhou o prêmio pelo melhor jingle da Cervejaria Antártica, mesmo disputando com gente experiente na área. Na revista Carioca, em uma reportagem de 1936, Custódio já tinha conquistado o coração dos brasileiros. "É um compositor que abusa da arte de ser sutil nas suas composições", escreveu o jornalista.


     Noel Rosa sentia o mesmo assédio de Custódio, apesar de não ser tão bonito quanto ele. Mas reparou que em seu bairro as mocinhas queriam agradá-lo porque ele fazia sucesso no rádio. Noel disse que as mocinhas bonitas e mesmo as feias, quando encontravam com ele, “cravavam um olho curioso". Todos chamavam os artistas de "cartazes" do rádio porque embaixo de cada emissora havia uma tabuleta com as fotos dos artistas que iriam se apresentar naquela semana. E quem estava no cartaz virava cartaz.


     Mas o rádio acabou cansando o criativo Custódio Mesquita, que voltou para o Rio e decidiu investir no teatro de revista.  Conquistou um grande parceiro, Mário Lago, de quem falamos semana passada. Com ele criou Nada além, de 1938, e Enquanto houver saudade, que é uma valsa, gênero que Custódio dominava. No encarte de um CD da Funarte, Mário Lago escreveu um texto para o amigo. Chama-o de “melodista de mão cheia”, o melhor do “que a nossa música produziu”. Com Evaldo Rui, criou outro clássico da MPB: Como os rios que correm pro mar. Para Hermínio Belo de Carvalho, Custódio está na mesma estirpe de Sinhô, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth, grandes pianistas. Saia do caminho, com Evaldo Rui, de 1937, deve ser lembrada também aqui.

Teve outros parceiros geniais, como Sady Cabral, nas músicas Velho realejo e Mulher, de 1940, abertura do seriado da TV Globo. Vamos ouvir?


     Entre 1935 e 1937, foi subsecretário da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, Sbat. Em 1945, foi eleito conselheiro dessa entidade, mas morreu antes de assumir o cargo, vítima der uma crise hepática. Levava a vida sem conseguir evitar as crises de epilepsia. Bebia muito e vivia na noite. O escritor Bastos Tigre declarou que o destino “foi mau e estúpido”. Para ele, “Custódio merecia viver mais, o tempo que lhe desse para espalhar pela cidade, largamente, prodigiosamente, os tesouros de harmonia de que tinha a alma repleta”, escreveu no encarte Bruno Ferreira Gomes.

Chegou a gravar 111 composições de 1932 a 1949. Tom Jobim foi superfã de Custódio e dele herdou o dom de compor maravilhas ao piano. 


     Em 1935, atuou em cinco filmes, todos com músicas suas. Alô, alô Brasil, com direção de Wallace Downey, João de Barro e Alberto Ribeiro. Favela dos meus amores, de Humberto Mauro, foram alguns deles. 


     Para terminar, sugiro que se ouça uma obra genial: a composição Quem é? (Scena doméstica), em parceria com Joracy Camargo, de 1937. Os dois retratam um casal fazendo um acerto de contas. Um implica com o outro e depois vemos que eles se amam de verdade.


segunda-feira, 18 de maio de 2015

Rádio Blog – Francisco Alves: "Boa Noite, amor"

Rose Esquenazi



Semana passada, falamos sobre Orlando Silva, O Cantor das Multidões. Dissemos que ele teve um grande padrinho. É sobre ele que vamos falar hoje. Francisco Alves, que vai se tornar o Rei da Voz. Nascido em 19/8/1898, era filho de um português, dono de um bar no Centro da cidade, na Rua do Acre. Naquela época, se chamava Rua da Prainha. A família não era nada rica e, para ganhar uns trocados, o menino Francisco foi engraxate, coisa que o pai não gostou. Depois, começou a cantar nas ruas do Centro, pedindo algum dinheiro para os passantes. Trabalhou em fábricas de chapéus, sendo que uma delas ficava na Mangueira. Foi também motorista de táxi. Trocou a bicicleta por um violão, instrumento que passou a ser grande companheiro, amigo de todas as horas.

Quem lhe deu a primeira oportunidade na área musical foi João Gonzaga, viúvo da concertista Chiquinha Gonzaga. Ao se casarem, Chiquinha tinha 52 anos e João, 16. Para evitar o falatório, ela adotou-o como filho! Chico Alves gravou discos em 78 RPM dois sambas do famoso Sinhô, Fez muito sucesso: Pé de anjo e Fala meu louro.Vamos ouvir Pé de anjo, a primeira gravação de Francisco Alves, em 1919. Vocês podem perceber que a gravação é precária e a voz de Chico, muito diferente.

 https://www.youtube.com/watch?v=DyDlGpH8kNA

Aos 22 anos ele se casou com uma mulher da Lapa, mas o casamento não deu certo. Perpétua Guerra Tutóia perseguiu Francisco pelo resto da vida, mesmo depois de muito tempo separada dele. O segundo casamento, com Célia Zenatti, foi bem mais tranquilo e durou 28 anos. Não tiveram filhos. Nos últimos quatro anos de vida, apaixonou-se pela professora Iracy Alves, que sabia tudo sobre a carreira dele. Ela era muito mais jovem do que ele.

Em julho de 1927, começou a gravação elétrica no país, o que facilitou a gravação e a equalização dos sons. Chico Alves gravou na Odeon vários sucessos e passou a ter o pseudônimo de Chico Viola. Mas o melhor slogan de Chico Alves foi dado por César Ladeira, na Rádio Mayrink Veiga: o Rei da Voz. Ao conhecer Ismael Silva, no Estácio, a vida do cantor mudou. Chico descobriu que podia comprar sambas e esquecer, entre aspas, o autor original. Assim aconteceu com Me faz carinhos. Ismael gostou de ter uma grande voz interpretando os sambas, mas certamente, adoraria ver o nome como autor.

Com Noel Rosa, ocorreu algo semelhante. Francisco Alves viu o talento do rapaz de Vila Isabel. Segundo o jornalista e crítico musicaç José Lino Grünewald, Noel ganhou um Chevrolet e, em troca, fez parceria com as seguintes músicas: É preciso discutir, A razão dá-se a quem tem, Fita amarela, Estamos esperando, Nuvem que passou, Não tem tradução, Feitio de oração, Anda cismado, Pra esquecer, É bom parar, essa com a parceria de Rubens Soares.

Vamos ouvir Já não é mais aquela (CD1, faixa 1), de 1936. Acho delicioso o verso:
Já não é mais aquela mulher carinhosa/ Que outrora eu tinha/Só agora eu vejo que fui enganado/Não eras só minha!

Observando que o jovem Mário Reis estava fazendo sucesso, com a sua voz pequena e discreta, Francisco Alves propôs-lhe parceria. Eles cantavam juntos e faziam um interessante contraponto. Também deu supercerto. Francisco Alves teve outros parceiros-compositores geniais, como Orestes Barbosa, que costumava fazer versões de músicas estrangeiras admiráveis.

No programa da Rádio Nacional, Quando os ponteiros se encontram, Chico cantava a música que se tornou um símbolo de sua potência vocal. Boa noite amor, de 1936 (José Maria de Abreu e Francisco Mattoso), que ouvimos na abertura do quadro. Curiosamente, o cantor falava sobre a despedida da amada na hora de dormir e o programa ia ao ar ao meio-dia!

Em relação à vida radiofônica, Chico começou na Rádio Sociedade, de Roquette-Pinto e dos cientistas que dirigiam a primeira rádio no Brasil, em 1923. Foi justamente por ser tão séria  e sisuda, nem sempre era bem recebida pelos ouvintes que já estavam apaixonados pelo samba e música ligeira. Por isso, Chico Alves foi contratado, para atrair as fãs e, além disso, tornar a emissora mais musical e antenada com os modismos.

Depois, o cantor foi para Mayrink, onde ficou dois anos. Passou para a Rádio Clube e Tupi, até chegar à Rádio Nacional. Na Nacional, ele ficou lá durante 11 anos, de 1941 a 1952. Era adorado pelas fãs que sonhavam em acordar tendo ao lado o intérprete de Boa-noite, amor. Por essa razão, muitas admiradoras iam à delegacia afirmando que estavam grávidas de Chico Alves. Nem que ele fosse o maior atleta sexual de todos os tempos, conseguiria engravidar tantas mocinhas em todo o Brasil, ao mesmo tempo. Por essa razão, um jurista escreveu sobre a Doença do Rádio. Já que não podiam namorar os ídolos, mentiam dizendo que foram enganadas. Depois de uma noite de amor, estavam grávidas. Não havia pílula anticoncepcional nem exame de DNA!

Ao longo de 33 anos de carreira (1919-1952), Chico Alves gravou 1173 discos, sendo que 39 mecânicos. Foi recordista absoluto. Compôs algumas delas, mas, a maioria, ele comprou mesmo, um comportamento muito comum na época. Participou de seis filmes, quase todos da Cinédia. Alô, alô, Brasil!, Alô, alô, Carnaval, Samba em Berlim foram alguns deles.
Quando ia para as turnês em Buenos Aires, era chamado de Gardel brasileiro. Aliás, ele conheceu Gardel pessoalmente, outra grande voz daqueles tempos, igualmente adorado.Tinha uma voz maravilhosa, cheia de sensualidade, ótima para cantar milongas, precursoras do tango. Os dois tiveram mortes trágicas; Gardel, aos 45 anos, em um acidente de avião, em 1935. O avião em que estava em Medelín, durante uma turnê na Colômbia, chocou-se com outro.
Chico Alves morreu aos 54 anos, em um terrível acidente de carro na Dutra, entre Rio e São Paulo. O carro – um Buick tipo sedan -, se chocou com um caminhão que vinha na contramão, no dia 27 de setembro de 1952, às 17h23. Morreu na hora. Chico, antes de morrer, ia gravar Carlos Gardel! Dezessete anos antes, Gardel estava prestes a gravar um sucesso de Francisco Alves, a música A voz do violão. Tristes coinvidências. 

Vamos ouvir Meu Buenos Aires distante (Meu Buenos Aires querido), gravado por Chico Alves em 1934. Seu maior sucesso foi Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, de 1939, que se tornaria o segundo hino do Brasil. Com Aquarela, ele ficou conhecido internacionalmente.

Chico Alves adorava carros e cavalos. Chegou a ter alguns cavalos, costumava ir ao hipódromo da Gávea para torcer por eles nas corridas. Muita coisa foi dita sobre o Rei da Voz. Que ele era chato, que comprava músicas – o que era verdade – que costumava dar secas cusparadas entre as frases, que era pão-duro. Mas ele também ajudou muita gente, como vimos com a carreira de Orlando Silva. Dava a maior força para Sylvio Caldas e João Duas, que ele considerava seu sucessor. Foi o primeiro cantor profissional da história da MPB, o primeiro mito, segundo Grünewald, que escreveu a apresentação de uma edição especial das músicas do Rei da Voz,  lançada pela BMG/RCA.

Cantava vários gêneros: samba, fox-trot, rumba, valsas, serestas com sua voz impressionante. Para o crítico, “ele encerrou um ciclo da canção brasileira, da voz empostada” que procurava sempre o “brilho do efeito vocal”.
O enterro de Chico Alves no Cemitério São João Batista reuniu mais de 500 mil pessoas. O povo acompanhou o féretro cantando Adeus – cinco letras que choram, samba-canção de Silvino Neto, de 1947. Em todas as emissoras de rádio, naquele dia, só tocou os sucessos do Rei da Voz.
https://www.youtube.com/watch?v=b5No3xH_kZM




Rádio Blog – Mário Lago: um lutador do rádio

Rose Esquenazi




Mário Lago foi incluído, pelo pesquisador Jairo Severiano, na lista dos artistas da Era de Ouro da Música Popular Brasileira. Alguns de seus sucessos, como Amélia e Nada além, são tocados até hoje e se tornaram clássicos absolutos. Vamos conhecer um pouco da história desse carioca nascido em 26/11/1911, na Rua do Resende, 150, no Centro. Filho de maestro Antônio Lago e de Francisca Maria Vicencia Croccia Lago,  herdou a  rebeldia no sangue. Era neto de um anarquista, o flautista italiano Giuseppe Croccia. Filho único e muito mimado pelos pais.
Tornou-se marxista e chegou a ser preso seis vezes, a primeira em 1932.  Fez um comício em uma fábrica e depois saiu sozinho. Acabou preso. Mas as suas convicções não se alteraram. Depois do casamento com Zeli, filha de um comunista, abandonou a noite a boemia e juntos a vida toda, ao lado de seus cinco filhos: Antônio Henrique, Graça Maria, Mário Lago Filho, Luís Carlos (em homenagem ao líder comunista Luís Carlos Prestes) e Vanda.
Nos anos 30, Mário se formou na Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, onde prevalecia a influência do Partido Comunista.  Seus contemporâneos foram Carlos Lacerda, Lamartine Babo e Jorge Amado, na época, todos identificados com a esquerda. Desde muito cedo, gostava de escrever poesia. A profissão não lhe atraiu muito e, meses depois de seu início, largou tudo e foi trabalhar como letrista no teatro de revista. Em 1933, no Teatro Recreio, estreou em parceira com Custódio Mesquita, com a música Menina, eu sei de uma coisa, que foi gravada por outro Mário, o Reis.
Torcia alucinadamente pelo Fluminense e, quando era jovem, era frequentador da Lapa. Namorou a mulher mais importante da vida de Noel Rosa: a dançarina de cabaré Ceci. Para Jairo Severiano, Mário era bem diferente de Noel: “era jovem, solteiro, bem afeiçoado e tratava muito bem a Ceci”. Já Noel, todos nós sabemos, já era casado, não era bonito, estava doente e não costumava tratar tão bem a sua antiga paixão.
Tudo acontecia no Rio nas ruas e bares da Lapa. Estavam ali as sedes dos jornais mais importantes, como o Jornal do Brasil, Diário Carioca, e as emissoras radiofônicas: a Rádio Cruzeiro do Sul, a Rádio JB, a Rádio Cajuti, a Rádio Sociedade, a Rádio Globo.  Aos poucos, Mário Lago começou a frequentar as emissoras e ficou amigo dos compositores que vendiam música no Café Nice, onde discutiam contratos e procuravam parceiros.  
A estreia no rádio mesmo foi na Rádio Panamericana, em São Paulo. Depois, trabalhou na Mayrink Veiga e na Rádio Nacional, mais de uma vez. Quando se metia em lutas políticas acabava sendo demitido. Assim foi que, pouco ante do primeiro filho nascer, teve que ir para São Paulo, a convite de Dias Gomes, que também era comunista e trabalhava como diretor da Rádio Bandeirantes. Precisava ganhar dinheiro para cuidar da família. O clima de amizade e camaradagem não foi encontrado na Capital paulista e o resultado de seu trabalho de redator não rendeu tanto. Mário disse que as lembranças de São Paulo foram devidamente apagadas.

Na fase áurea de sua vida como compositor, anos 40 e 50, contou com um grande parceiro: Ataulfo Alves. A música Amélia, escrita em 1942, fazia uma ode à mulher submissa. As feministas reclamaram, mas Mário explicou que podia ter errado, mas era para elogiar a mulher companheira, que estava ao lado do homem em todas as situações. Para os filhos de Mário Lago, não teria sido uma encomenda de Getúlio Vargas para enaltecer a mulher passiva, mas sim, uma homenagem à empregada da cantora Aracy de Almeida, dona Amélia, que lavava, passava, cozinhava, dava banho no cachorro etc etc. A música fez muito sucesso no Carnaval, na voz do coautor Ataulfo Alves. Vamos ouvir?

Atire a primeira pedra, de 1944 também fez enorme sucesso ao unir como uma luva a música e a letra. Foi outra parceira bem sucedida de Mário – considerado um dos compositores mais cultos da MPB – e Ataulfo Alves.
https://www.youtube.com/watch?v=h9mcSy_JxyM com Orlando Silva Atire a primeira pedra, de 1944.

Assim, foi uma alegria voltar para a Nacional nos anos 50. Foi ator de peso – interpretou Herodes na radionovela especial da Semana Santa, de 1959. Fez mais sucesso com autor da radionovela Presídio de novelas, no original cubano Carcel de mujeres. No início, traduzia o original, depois, passou a criar todos os episódios em que contava a vida triste das mulheres encarceradas.
CD : Vinheta faixa 20 (anúncio de Presídio de mulheres”)
Para Mário, havia duas rádios dentro da Nacional. A do 21º andar, onde ficava a equipe musical. E a dos 22º andar, onde trabalhava a equipe do radioteatro. Depois da temporada paulista, Mário Lago não poderia imaginar que o volume de trabalho havia aumentado tanto no Rio. Havia triplicado, segundo ele.
Ao aceitar o convite do diretor Victor Costa, ele tinha que escrever os capítulos de vários seriados e novelas que iam ao ar dali a minutos, terminando tudo em cima da hora, com grande estresse. Estava no fim a era dos cuidados com cada produção, com a revisão. A ordem era oferecer grande número de novelas, sendo que havia na equipe gente indicada e que não tinha a menor experiência dramatúrgica. Os famosos pistolões que sobrecarregavam a equipe artística. Como também era radioator para completar o salário, Mário tinha que ensaiar, minimamente, para não dar vexame. Ah, ele também dirigia. Por essas razões, era considerado um dos principais quadros de todo o rádio brasileiro, segundo contou a mulher Zeli ao pai de Mário Lago. Segundo o radialista Antônio Almeida, só havia 14 pessoas que sabiam fazer rádio no Brasil, “e uma delas é seu mimoso filhinho”.
Vamos ouvir pequenos trechos de três valsas de Mário Lago:
https://www.youtube.com/watch?v=4Mp7gncX570 Devolve, Não quero saber quem tu és e Será. 2: 54

Às vezes, ficava tão exausto eu ia para a casa e pedia para a mulher que o acordasse às 6h porque tinha que escrever mais um capítulo que ia ao ar às 10h!
E é claro que a consciência política o mandava a estimular a profissionalização dos radialistas, com horário fixo, pagamento de horas extras, férias etc, o que não acontecia até então. Nos anos 60, a situação política esquentava no Brasil. Segundo Mário Lago, diante do dissídio de 1962, houve uma nova resistência dos patrões. No início, a presença dos funcionários era pequena nas assembleias, mas aos poucos, foi crescendo.
Em Bagaço de beira-estrada, Mário Lago se perguntou se ele foi preso por lutar pela regulamentação da profissão. Ele escreveu: “Dos trinta dias de férias, conquista que nenhum setor ainda tinha alcançado? Dos diversos aumentos obtidos? Fiz isso. Se foi por causa disso, tudo o mais valeu a pena”.

No Ato Institucional nº1, logo depois do golpe militar, saiu a lista dos 36 demitidos da Rádio Nacional, que sofreu intervenção no dia 1º de abril de 1964. Ao lado de Mário Lago, estavam Dias Gomes, Oduvaldo Viana, Gerdal dos Santos, Mário Monjardim e muitos outros. Esses profissionais, afastados como funcionários públicos (não eram concursados), perderam o direito de procurar outros empregos. Foram renegados a uma espécie de limbo. Trabalhar novamente na época da ditadura só se fosse com pseudônimo ou se alguém, muito amigo, ajudasse. Ao tentarem corrigir essa situação, no AI2, o governo vedou os caminhos dos tribunais aos atingidos por atos do Governo Revolucionário”. (p.239)

Mário Lago e Dias Gomes acusaram César de Alencar de ter feito a lista e ter entregado aos militares. Entrevistei Mário Lago uma vez na vida. Foi quando perguntei pessoalmente o seguinte: se todos sabiam que os dois eram comunistas, como pode ter certeza que foi César de Alencar quem fez a delação? Mário não hesitou: o colega fez a lista para os militares porque queria ser diretor da Rádio Nacional.
Em 1976, ele recebeu um convite para festejar os 40 anos da Rádio Nacional. A ditadura já havia acabado, mas ele declinou, explicando a razão:
“Acredite que teria o maior prazer em sentar-me à mesa com antigos companheiros de trabalho, gente que lutou ombro a ombro comigo e com outros demitidos, para que a Rádio Nacional chegasse onde chegou, embora também corresse o risco de me ver frente a frente com um canalha  que manchou a categoria profissional com uma suja delação que tinha muito de mesquinhas vinganças pessoais, pois arrolou na infâmia muita gente que nada sabia dos fatos que lhe foram imputados.”

Tornou-se dos mais completos radialistas brasileiras, autor, ator dono de belíssima voz. Foi também escritor de memórias que viraram best seller: Bagaço de beira –estrada e Na rolança do tempo. Ele conseguiu continuar a brilhante carreira como ator de novela e seriados. Trabalhou a vida toda em mais de 50 produções na TV Globo.  Às vezes, não fazia papéis tão importantes. Foi o caso de O sheik de Agadir, em que ele fez um nazista chamado Otto Von Lucker, 1966. Mas tinha prática e garra, e acabava se sobressaindo. Se o público se lembrava dele da época do rádio, não sei. Ele trabalhou também em mais de 30 filmes, entre eles, Os herdeiros, de Cacá Diegues.  Morreu em 30/5/2002, aos 90 anos, e deixou a fama de um homem justo, grande contador de histórias.