sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

17/08/2015
 Rose Esquenazi

Luiz Gonzaga e a sua sanfona




O crítico Ricardo Cravo Albin costuma dizer que Luiz Gonzaga foi um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Não era “só o melhor entre todos os cantores de alma sertaneja, mas também o mais importante cantor-músico-compositor que o Nordeste já produziu”.  Gênio que ele compara a Ary Barroso, Pixinguinha, Tom Jobim ou Chico Buarque.

Mas não foi fácil a vida de Luiz Gonzaga do Nascimento até ser aceito pelo público e pela crítica.  O músico nasceu no dia 13 de dezembro de 1912 na cidade de Exu, Pernambuco. Em 1939, ao completar dez anos de exército, teve de dar baixa. Não era permitido ficar mais do que esse tempo. No mesmo ano, embarcou para o Rio de Janeiro, voltou para Pernambuco e, não muito tempo depois, estava novamente no Rio de Janeiro. Para sobreviver, passava o chapéu para arrecadar uns trocados nos bares da zona do baixo meretrício depois de tocar não as músicas sertanejas que aprendeu com os amigos do Exército. Tocava as músicas da moda na sanfona de 120 baixos que havia comprado.

A vida no Rio de Janeiro, onde pretendia ficar conhecido, era mesmo muito difícil. Em 1940, para sobreviver, procurou uma oportunidade nos programas de calouros. Não foi bem sucedido no Calouros em desfile, de Ary Barroso, na Rádio Tupi, e no Papel carbono de Renato Murce, na Rádio Clube. Até que, um dia, no Bar Cidade Nova, no Mangue, estudantes cearenses pediram que ele tocasse música nordestina.  Ele já tinha até esquecido.  Voltou para seu humilde quarto e passou a se lembrar dos velhos ritmos nordestinos. Outra vez, no bar, um fato inesperado aconteceu. Juntou gente da rua para ouvirVira e mexe. O bar ficou lotado. Ouça Vira e mexe, também conhecida como Xamego, que marcou tanto a carreira de Luiz Gonzaga.

Ao se apresentar novamente no programa Calouros em desfile, obteve a nota máxima,5, raramente dada a alguém pelo exigente Ary Barroso. Além disso, ganhou o prêmio de 150 mil réis. O xamego virou uma espécie de ritmo diferente e o pessoal gostou muito.Vira e mexe ganhou o título, mais tarde,de Xamego, uma ideia do irmão de Gonzaga que achava que a música era muito sensual, da maneira como era tocada. 

Gonzaga se inspirou no gaúcho Pedro Raimundo, um sujeito alegre, que se apresentava como sulista no rádio.  Decidiu imitá-lo. Na Rádio Nacional, apresentou a novidade, foi aceito, mas o figurino nordestino rejeitado. O diretor Floriano Faissal disse que ali não era “casa de cangaceiro”. O artista teria que vestir um summer, traje formal que não tinha nada a ver com a sua música.  Aos poucos, porém, se acostumaram com o traje e com o fato de Luiz Gonzaga ter abandonado as valsas, os tangos e os foxtrotes que apresentava antes para agradar o público do rádio.  E também o seu jeito de cantar só foi aceito aos poucos, a duras penas.

A partir dos anos 1943, ele passou a interpretar choros,xotes, calangos, mazurcas. O encontro dele com o advogado Humberto Teixeira abriu-lhe novos caminhos. Lançaram Baião, gravada com o famoso grupo vocal Quatro Azes e Um Coringa, acompanhado pela sanfona de Gonzaga. O cearense Humberto Teixeira percebeu o grande talento de Lua, apelido que ganhou por ter uma face redonda como a lua cheia. Segundo o site do Dicionário Albin de Música Brasileira, “o novo gênero mudou o panorama musical brasileiro e impôs-se como o mais importante até o surgimento da Bossa Nova em fins dos anos 1950”. Ouça a música Baião.

Em 1943, Luiz Gonzaga assinou o primeiro contrato para atuar fora do Rio de Janeiro, fazendo uma temporada no Cassino Ahu, em Curitiba. Começou a ser chamado de “o maior acordeonista do Brasil”. Nesse ano também ganhou o apelido "Maior Sanfoneiro Nordestino”, dado pelo jovem radialista César de Alencar.

Em 1947, com o mesmo parceiro Humberto Teixeira, compôs o maior sucesso de todos os tempos: Asa branca, que ouvimos no início do quadro.Regravada inúmeras vezes, continua sendo sucesso na atualidade. Depois, Luiz Gonzaga foi convidado a participar do filme Esse mundo é um pandeiro, de Watson Macedo.
O Rei do Baião tornou-se o principal astro da música popular brasileira. Assim, em 1949, é convidado para fazer parte do elenco da comédia musical O mundo se diverte da Atlântida, com a polca Lorota boa, parceria de Teixeira. E também na comédia musical Estou aí, da Cinédia, com a música Mangaratiba.Gonzagão teve outros parceiros importantes como Zédantas e costumava frequentar tanto a Rádio Nacional quanto a Mayrink Veiga.

Em 1949, lançou com Zédantas, como o baiãoVem morena e o forró Forró de Mané Vito. O baião era tocado em todos os lugares. Na sua indumentária, ele passou a usar um chapéu de couro, que mandou vir do Nordeste.  Em 1950 lançou de sua parceria com Zédantas o baião A dança da moda, que afirma que "No Rio está tudo mudado", numa referência às mudanças de comportamento introduzidas pelo baião.
Em 1951, a cantora Carmélia Alves ficou conhecida como a Rainha do Baião. Já havia uma grande divulgação do estilo de Gonzaga. Carmélia e Sivuca, por exemplo, lançaram o disco No mundo do baião, com vários sucessos do sanfoneiro. Ouça Xote das meninas.

Apesar de tudo, Luiz Gonzaga passou por várias fases, altos e baixos. Quando precisava de mais dinheiro, participava de campanhas políticas e também atuava como músico de estúdio. Trabalhou em teatro de revista e programas de rádio, como Alma do sertão. Tocava nos dancings no centro da cidade, como Farolito, Eldorado, Assírio, Belas Artes.

Os anos 60 não foram muito felizes para Luiz Gonzaga. A música estava mudada, o rádio perdia força para a TV. Sofreu um grave acidente, teve traumatismo craniano e ferimento num olho. Ainda gravou outros discos. Em 1964, lançou outro LP A triste partida, de Patativa do Assaré. Os críticos viram ali um manifesto sertanejo.

Em 1968 lançou três LPs, entre eles, O sanfoneiro do povo de Deus, com inspiração religiosa. Nesse mesmo ano, Gilberto Gil, um dos líderes do movimento intitulado Tropicália, disse ter sido Luiz Gonzaga "a primeira grande coisa significativa do ponto de vista da cultura de massa no Brasil". Caetano Veloso fazia também questão de elogiar o cantor, compositor e sanfoneiro nordestino.

Em 1981, chegou às lojas o álbum duplo Vida do viajante, gravado ao vivo durante a excursão pelo Brasil feita com o filho Gonzaguinha no ano anterior. Os dois brigavam muito porque tinham comportamentos muito diferentes. Filho de uma dançarina de cabaré, Odaléa, foi assumido por Gonzaga.  O filme de Breno Silveira, Gonzaga de Pai para Filho, de 2012, mostra bem esses conflitos, depois contornados. Durante essa excursão, Gonzaga ganhou o apelido de Gonzagão, que muitos críticos acham inapropriado. A ideia surgiu a partir de uma faixa colocada em um show em São Paulo que dizia: “Gonzagão e Gonzaguinha, a maior dupla sertaneja do Brasil”.


Só para marcar a data: ele morreu no dia 2/8, de 1989, no Recife, aos 76 anos. Para terminar, ouça O xamego da Guiomar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A Rádio MEC e a Música Popular Brasileira


Rose Esquenazi
Ouça aqui: http://radios.ebc.com.br/sites/_radios/files/episodios/2015-08/1108-50radio-mec-am-tambem-nos-anos-1970-casa-da-mpb.mp3?download=1



No dia 7 de setembro, a Rádio MEC comemora 79 anos. A emissora, que passou por várias fases, abrigou e ainda abriga inúmeros programas musicais. Hoje vamos falar sobre um deles, os '100 anos da Música Popular Brasileira Ao Vivo'.  Parte do Projeto Minerva, a atração lançava e valorizava as histórias e a interpretação de músicos populares. A criação, o texto, os convites, as pesquisas e a narração eram do escritor, radialista, historiador, crítico e pesquisador de MPB, Ricardo Cravo Albin. Eu conversei com ele na quarta-feira da semana passada. Ricardo admitiu, sem falsa modéstia, que, até hoje, o programa era muito bom, grande orgulho profissional.

 Ricardo imaginou um programa que pudesse ir para todas as cidades, através das 1.200 estações coligadas. De certa maneira, ele tentava reproduzir os musicais da juventude, que ouvia ao vivo do auditório da Rádio Nacional. Os '100 anos da Música Popular Brasileira Ao Vivo' não era exatamente ao vivo nem tinha auditório. Era “ao vivo gravado”, como se dizia em 1974 e 1975. Na MEC, ele gravava como se fosse ao vivo, mas, se tivesse algum erro, mandava voltar a fita e gravava de novo para ficar tudo perfeitinho. Os aplausos eram inseridos na edição.

Nem sempre os músicos convidados tinham espaço nas gravadoras e nos estúdios do rádio. Muitas vezes, eram pessoas humildes, semianalfabetas,  mas geniais, daí a importância de sua participação. Os programas se tornaram históricos. Ouça um trecho de Notícia, de Nelson Cavaquinho, na interpretação de Roberto Silva, que fez parte da série 100 anos da Música Popular Brasileira ao Vivo.  https://www.youtube.com/watch?v=mIN4rSXLU-w

Todos os sábados, a uma e meia da tarde, o programa ia ar para contar a história da MPB. Praticamente todos os grandes intérpretes foram convidados.  Mas a ênfase ficou em Cartola, Luiz Gonzaga e os jovens  Paulinho da Viola e Beth Carvalho. Candeia e Jackson do Pandeiro eram novatos nos estúdios. Mas Altamiro Carrilho já tinha certa experiência.



Cartola só ficou mais à vontade diante do microfone porque era amigo de Ricardo Cravo Albin. Ele ainda era morador da Mangueira e tinha sido redescoberto depois de muitos anos esquecido pelo público. Na primeira fase de sucesso, como amigo de Noel Rosa, e fundador da Mangueira, Cartola criou, em 1940, com Paulo da Portela, o programa A Voz do Morro, da Rádio Cruzeiro do Sul. O interessante era que a dupla lançava sucessos, mas o público criava os títulos das canções. Em 1941, Cartola, Paulo da Portela e Heitor dos Prazeres formaram o grupo Conjunto Carioca. Durante um mês, eles se apresentaram na Rádio Cosmos, em São Paulo. Depois de ter contraído meningite e de ter perdido a mulher, Cartola desapareceu. Muita gente achou que ele havia morrido.

Angenor de Oliveira, o Cartola, começou a exercer profissões humildes para sobreviver, deixando a música de lado. Até que, em 1957, ele foi identificado em uma madrugada pelo jornalista Sérgio Porto (conhecido como Stanislaw Ponte Preta). Cartola trabalhava como vigia e lavador de carros dos moradores de um edifício em Ipanema. Quando viu o compositor magro e maltrapilho, Stanislaw resolveu ajudá-lo a retornar a carreira. Cartola conseguiu aparecer na imprensa, foi trabalhar como contínuo no Diário Carioca, e, no ano seguinte, no Ministério da Indústria e Comércio. Conseguiu se apresentar na Rádio Mayrink Veiga. Aos 66 anos, em 1974, justamente no ano de estreia do programa de Ricardo Cravo Albin, Cartola gravou o primeiro de seus quatro discos. Vamos ouvir Divina dama, de Cartola, interpretado por ele mesmo.
https://www.youtube.com/watch?v=-Y3Z7aR-IS8

Voltando à Rádio MEC, o resultado ficou tão interessante que a série foi gravada em 30 programas que resultaram em oito LPs memoráveis, lançados pela Tapecar. Raríssimos, tornaram-se peças de colecionadores. Até que, em 2011, esse material foi relançado em quatro CDs duplos, minuciosamente restaurados pelo selo Discobertas, de Marcelo Fróes.

O programa tinha um único problema nos anos 70. Foi muito criticado porque nasceu dentro do Projeto Minerva. O Minerva partiu de um decreto da época da ditadura. A atração começou no dia 1º de setembro de 1970, tinha horário fixo e era obrigatório em todas as rádios brasileiras.  Como muita gente criticava o governo e também não gostava de nada obrigatório, repeliu, no primeiro momento, o Projeto.

Mas a intenção era nobre, educar o povo brasileiro, tal como pregava Roquette-Pinto que inaugurou a primeira rádio no Brasil, em 1923. Ele mesmo, em 1936, passou a Rádio Sociedade para o povo brasileiro, desde que o governo continuasse com o seu projeto educativo inédito no rádio. A Rádio MEC nasceu assim, através de uma doação.

A sorte do Minerva foi que a diretora Maria Eugênia Stein tinha um ótimo gosto. Convidou três pessoas excelentes para fazer o programa. Em primeiro lugar, o diretor Zé Cândido de Carvalho, membro da Academia Brasileira de Letras. Ele ficava com a parte do folclore brasileiro. Em segundo, Paulo Tapajós, que dava aulas de música para todo o Brasil. Em terceiro lugar, Ricardo Cravo Albin, que era amigo de todo o mundo e foi o fundador do Museu da Imagem do Som e seu diretor de 1965 a 1971. Foi ele quem criou os Depoimentos para a Posteridade, uma novidade absoluta. No MIS, até hoje,  são gravados os Depoimentos para a Posteridade. São fontes para estudantes e profissionais que estudam a vida e obra dos mais famosos artistas brasileiros da atualidade.

A iniciativa antecedeu o núcleo de memória da Fundação Getúlio Vargas, o CPDOC. Foi anterior também aos estudos sobre história oral, no Brasil, tão difundidos na atualidade nas faculdades de História.

As primeiras gravações do programa 100 anos da MPB ao Vivo foram feitas de forma arcaica pelos heroicos documentadores da época. Mas a história está lá registrada. Inspiraram o banco de dados do site Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira que todos podem acessar pela internet. Ricardo fez outros 140 programas para o Projeto Minerva, como o Gente da Música. Para cada grande compositor da música popular brasileira ele reservava 30 minutos.  “Em 70 horas”, ele disse, “nós botamos o melhor da discografia que existe no Brasil, com discos que não existem mais hoje, mas estão gravados na Rádio MEC. Foram ao todo mais de 15 séries de programas, 15 títulos diferentes”.

Ouça Odete Amaral cantando Feitiço da Vila, de Noel Rosa e Vadico.

https://www.youtube.com/watch?v=5TEQqAUF2_8        

            Ricardo Cravo Albin trabalhou na Rádio MEC durante 40 anos e se dedicou à estação com grande interesse. “A Rádio MEC”, ele afirmou, “sempre foi a minha paixão. No rádio, éramos livres pensadores produzindo aquilo de melhor para formar público ouvinte.”

Os ouvintes gostavam muito de conhecer a história da MPB. Ricardo explicou assim: “As pessoas escreviam, davam as suas impressões em centenas de cartas. Eles pediam músicas, criticavam a falta de um ou outro compositor ou intérprete”.

A Rádio MEC lançou muitos outros programas de música. Além desses que citei, Ricardo Cravo Albin participou ao lado de Paulo Tapajós, Haroldo Costa e Clóvis Paiva das séries Nosso Domingo Musical, Estampas Brasileiras, Folclore do Brasil, Discos de Ouro e por aí vai. Durante a sua existência, e até hoje, não faltam programas de música clássica, jazz, Bossa Nova, que ainda marcam a estação, sempre referência para os brasileiros.  Vamos concluir, ouça Altamiro Carrilho, em Flor Amorosa, de Joaquim Calado. Instrumental SESC Brasil - 26_05_2010.

            https://www.youtube.com/watch?v=LWXTjl-w7V8

Radamés Gnatalli: o gênio que uniu o clássico e o popular no rádio

Rose Esquenazi







O nome parece complicado, mas, à medida que repetimos “Radamés Gnatalli”,   um mundo se abre para os apreciadores da boa música. Por isso, as novas gerações devem aprender não só a dizer o nome corretamente, mas conhecer melhor a obra desse gênio musical, um dos maiores compositores e arranjadores brasileiros. Puça no YouTube um trecho do sexteto Radamés Gnattali interpretando Cochichando, de Benedicto Lacerda & Pixinguinha. https://www.youtube.com/watch?v=53FB0GXJ9aQ
A Rádio Nacional, na sua fase mais importante, contou com a arte desse maestro e instrumentista, o primeiro a unir o clássico ao popular sem nunca perder o tom. Radamés foi um experimentador até o fim da vida.
Vou contar como tudo começou. Radamés nasceu em Porto Alegre, no dia 27 de janeiro de 1906. Seu pai era italiano e se tornou operário no Rio Grande do Sul. Como o italiano gostava muito de música, começou a tocar vários instrumentos, até se tornar maestro. Radamés era gago e só tirava zero nas provas orais. Irritado, o pai quis saber o que o menino queria ser na vida, afinal. Ele não teve dúvidas: desejava se dedicar à música. Já  estudava piano com a mãe desde os 3 anos. Aos 14, passou para o Conservatório de Música, onde ficou durante nove anos.
Em várias entrevistas que deu ao longo da vida, Radamés disse que entrou para um quarteto de cordas que tinha um bom repertório. Além de violista (de viola), era pianista e fez o primeiro concerto aos 18 anos, em 1924, no Rio de Janeiro. Como cursava o último ano de piano, voltou para se formar em Porto Alegre. Logo estava no  Rio novamente para tocar piano em diferentes orquestras: a Victor Brasileira, Diabos do Céu, Grupo da Velha Guarda, Orquestra Típica Victor. Ele compunha lindas valsas e chorinhos. Vamos ouvir o chorinho Cabuloso, na interpretação de Jacob do Bandolim, em 1949. Ouça um trecho: https://www.youtube.com/watch?v=JrxHEYjLTvs
O começo da vida no Rio foi de miséria e fome. Ele reconheceu que ele e outros  músicos, além do escritor Murilo Mendes, se reuniam, sem grana, na casa do pintor Portinari em Laranjeiras. Portinari ficava pintando e os amigos batendo papo enquanto esperavam uma oportunidade. Ao fazer arranjos para a RCA, em 1932, inventou o pseudônimo de Vero. Não pegava bem um erudito, compositor de música sinfônica, fazer arranjos populares. E por que Vero? Simplesmente porque a mulher de Radamés se chamava Vera Bieri, também pianista, com quem ficou casado durante 35 anos.
Na gravadora RCA Victor, Radamés substituiu Pixinguinha e começou a fazer arranjos orquestrais. Ele deu ênfase às cordas, algo novo na MPB, nos anos 30. Radamés tinha o sonho de viver da música erudita, ou de seus dos direitos autorais. Mas no Brasil, isso sempre foi difícil. Então, decidiu entrar para uma orquestra de rádio e depois trabalhou no cinema e na TV. Ele nunca se frustrou ao fazer música popular. Radamés afirmou que foi muito ligado ao Jacob do Bandolim, Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Alcebíades Barcelos, o Bide, Marçal e Luciano Perrone. Cada um deu uma coisa diferente a ele.
Curiosamente, quando ele conheceu Pixinguinha, quase não se tocava música popular brasileira. “O negócio”, segundo ele, “era tango, fox trot e jazz. O jazz ganhou o mundo porque não se exigia uma orquestra cara. Apenas piano, contrabaixo um ou outro instrumento de sopro, explicou. O jazz também o influenciou. Mas a música de Radamés é toda brasileira, baseada em temas folclóricos e urbanos do Rio de Janeiro.  Ele sempre gostou de música popular, a começar com o tango que ouvia no Sul. “Se eu tivesse ido à Europa”, declarou, “poderia ter sido um grande pianista, mas nunca seria um compositor brasileiro”.  Na época, o samba estava restrito ao Rio de Janeiro, e ele mergulhou nessa atmosfera.
A primeira rádio em que pisou foi a Rádio Clube do Brasil, em 1924, que tinha um estúdio no Largo do Machado. Em 1930, passou a ser músico da orquestra. Depois foi para Rádio Cajuti e Mayrink Veiga.  Na Mayrink, ele tocava tudo, popular e erudito, mas ganhava mal. Chegou à Nacional no ano da estreia, em 1936.  Em seu depoimento, ele afirmou que não havia orquestra de música brasileira, existiam apenas o regional e a  orquestra de salão, com cordas e flautas, para tocar trechos de operetas, árias de óperas. Os arranjos vinham impressos, do exterior.
Radamés começou a fazer pequenos arranjos para trio: ele,  no piano, o Iberê Gomes Grosso, no violoncelo, e Romeu Ghypsman, no violino. Radamés conta que, naquele tempo, não havia um roteiro nos rádios. Em qualquer buraco na programação, ele tocava música para acabar com o silêncio. Por isso, começou a escrever. Depois os cantores, amigos de Radamés, gostavam e pediam para o músico fazer os arranjos.
Foi o próprio cantor Orlando Silva que pediu para gravar um disco de samba-canção e cordas. Era possível aquilo? Sim e os dois cresceram muito com essa novidade. Não só Orlando Silva, mas também a música de Francisco Alves e Sílvio Caldas ganharam outra dimensão. Um dos destaques desses arranjos incríveis foi Aquarela do Brasil composta para o teatro de revista Joujoux e Balangandans, em 1939. O compositor Ari Barroso não gostou da abertura, que tinha “tan, tan, tan - tan, tan”. Radamés bateu pé e reclamou: "Ô Ari, faz a música que eu faço o arranjo". O arranjador incluiu saxofones que deram grande impacto. Ouça Aquarela do Brasil, na voz de Francisco Alves, música de Ari Barroso e arranjo de Radamés.
https://www.youtube.com/watch?v=yyhPL2Q_Bog
Radamés trabalhava todo dia na Rádio Nacional até que recebeu o convite para fazer um programa de música popular de meia hora, com nove músicas de várias partes do mundo, ligadas uma na outra. O programa era Um Milhão de Melodias, patrocinado pela Coca Cola. Ele concordou, mas não queria mais ser pianista. Ele iria três vezes por semana à estação, faria os arranjos e entregaria ao copista. O programa, espécie de parada musical, ia ao ar às quartas-feiras. Radamés fazia os nove arranjos por semana, e, às vezes, a música era executada uma única vez, apesar de todo o capricho. Os diretores Paulo Tapajós e Haroldo Barbosa e um discotecário da Nacional escolhiam os sucessos mais populares do mundo e sabiam que o arranjador iria engrandecer ainda mais aquelas  músicas. Durante 13 anos, Radamés mostrou o seu brilho, que foi o auge de sua carreira.
A Nacional ganhou uma orquestra criada por Radamés, onde, ao todo, ele trabalhou durante 30 anos. Ele reconheceu que foi um dos maestros da estação responsáveis em “vestir” a música popular brasileira. Abandonavam-se os parcos recursos dos conjuntos regionais e criava-se um arranjo para uma orquestra inteira, com direito a violinos, pianos, flautas, tudo! Segundo Luiz Carlos Saroldi e Sonia Virgínia Moreira, no livro Rádio Nacional, O Brasil em Sintonia, “o ouvinte tornava-se mais exigente, acostumado pelo rádio com um tipo de linguagem musical mais sofisticada”. Só para se ter uma ideia, a Nacional tinha sob contrato 100 músicos, sendo 35 violinistas, nove violistas e seis violoncelistas.
            Havia outros maestros na Nacional, como Leo Peracchi e Lyrio Panicali. Eles eram os responsáveis por todas as coisas boas que se faziam por lá. Mas a Rádio Nacional não pagava bem. Segundo Radamés, a emissora funcionava como vitrine para que os músicos fossem convidados para fazer shows em outros lugares.
Quando Radamés ganhou o Prêmio Shell, em 1983, ele apresentou o Concerto nº. 3 - Seresteiro, para piano e orquestra. Como a música desse concerto é muito brasileira, ele colocou um regional junto com o piano. Mesmo nos anos 80, os puristas não gostaram muito de misturar regional com orquestra sinfônica. Radamés reagiu, então: “mas se o concerto é meu, eu escolho o repertório que vou tocar, é ou não é?”
Jairo Severiano, no livro Uma história da música popular brasileira, afirma que Radamés era um grande experimentador. E Mário de Andrade, uma das cabeças do movimento Modernista, escreveu que o músico tinha, abre aspas, “uma habilidade extraordinária para manejar o conjunto orquestral, que faz soar com riqueza e estranho brilho”. Na música Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, interpretada por Dick Farney, na década de 1950, pode-se ouvir essa qualidade. A música ficou 64 semanas nas paradas de sucesso e tornou-se um clássico.  Ouça: https://www.youtube.com/watch?v=BRn_b7KVZO0
Sem medo das novidades, Radamés decidiu experimentar o cinema. Ele colaborou com o cineasta Nelson Pereira dos Santos e com o sambista Zé Ketti em dois  filmes importantes: Rio Zona Norte (1957) e Rio 40 Graus (1955). Em 1960, apresentou-se num sexteto que incluía acordeão, guitarra, bateria e contrabaixo. Compôs muitas músicas importantes e influenciou uma geração de jovens instrumentistas como Raphael Rabello, Joel Nascimento e Mauricio Carrilho, e para a formação de grupos de choro como o Camerata Carioca, de quem se tornou padrinho musical.  Ouça um trecho de Remexendo, de Radamés Gnattali, com a Camerata Carioca. https://www.youtube.com/watch?v=CC-HluUbjDM

Radamés foi parceiro e amigo de Tom Jobim, Cartola, Heitor Villa-Lobos, Pixinguinha Donga, João da Baiana, Francisco Mignone, Lorenzo Fernandez e Camargo Guarnieri. Foi um dos primeiros a gravar Ernesto Nazareth em disco. É autor do hino do Estado de Mato Grosso do Sul, que foi escolhida em concurso público nacional. Viúvo, casou-se com Nelly Biato Gnattali, pianista e cantora. A irmã, Aída Gnatalli, também foi uma exímia pianista e fundamental como copista de Radamés. Em 1986, ele sofreu um derrame que o deixou com o lado direito do corpo paralisado. Dois anos mais tarde,  sofreu outro derrame e morreu aos 82 anos, no dia 13 de fevereiro de 1988, na cidade do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ademilde Fonseca: Tico tico no fubá

Rose Esquenazi







Segundo os estudiosos, o choro nasceu em 1845. Mas só ganhou letra no século 20, causando surpresa e, às vezes, polêmica. A mais importante intérprete desse gênero musical foi Ademilde Fonseca, eleita de Rainha do Choro, por Benedito Lacerda, em 1942. A artista morreu aos 91 anos, (27/3/2003) no Rio de Janeiro. De acordo com a família, Ademilde tinha problemas cardíacos e sofreu um mal súbito na casa onde morava, no bairro de Ipanema. Deixou uma filha, Eymar Fonseca, três netas e quatro bisnetos.

A cantora era uma simpatia e marcou por sua jovialidade e afinação até o fim da vida. Ela tinha um superfôlego porque não é fácil cantar tão rápido e tão claramente o Choro, que é diferente de embolada que ninguém entende nada! Ademilde chegou a ser homenageada pelo I Prêmio Divas da Música Brasileira do Icatu Seguros em 2010. Mas os fãs acharam que foi pouco. Ela merecia mais.

Ademilde nasceu em 1921, em Pirituba, no município de Macaúba, Rio Grande do Norte.  Mudou-se aos quatro anos quando a família decidiu morar em Natal (RN).  Desde muito pequena gostava de cantar. Na juventude, começou a participar de serestas e a ficar amiga dos músicos locais. Pouco mais tarde se casou com o seresteiro Naldimar Gedeão Delfino. E os dois decidiram vir para o Rio tentar a sorte.

Um ano depois da chegada ao Rio, em 1942, Ademilde Fonseca Delfino– seu nome de casada - conseguiu fazer um teste no rádio, algo sonhado por quase todas as jovens da época. O primeiro teste foi no programa de calouros Papel Caborno, de Renato Murce, na Rádio Clube do Brasil. Cantou serestas e deu certo, foi aprovada. Começava ali uma carreira. No mesmo ano, ela gravou na Columbia Tico-Tico de Fubá de um lado e Voltei pro Morro, de Benedito Lacerda e Darci de Oliveira, do outro.

Em uma festa na Gávea, ao ouvir os músicos tocarem Brasileirinho, ela disse que sabia a letra. Todos ficaram espantados já que achavam que era um gênero apenas instrumental. Ao cantar a letra, os casais pararam de dançar e adoravam ouvi-la interpretar a música. Essa história ela contou no programa Sarau, da Globonews. Comandado pelo jornalista Chico Pinheiro, em 2003, foi de certa forma uma despedida porque foi gravado pouco tempo antes de Ademilde morrer. E ela estava ótima, feliz, cantando ao lado de sua filha Eymar e acompanhada de grandes músicos.

Depois da Rádio Clube do Brasil. Ademilde passou para a Tupi, onde ficou 11 anos. Até que foi contratada para a Rádio Nacional, com contrato fixo, sonho maior de todos os músicos.

Segundo o livro de Henrique Cazes, Choro, do quintal ao Municipal, “no começo dos anos 50, Ademilde selou sua ligação com o Choro, no rastro do sucesso de Waldir Azevedo”. Ela tinha gravado Brasileirinho, com letra de Pereira da Costa. Foi um tremendo sucesso, principalmente pela dicção perfeita da cantora e os vários malabarismos com a voz. Ainda era muito raro um Choro ter letra porque era música apenas instrumental. Sem querer, ela divulgava uma nova moda. E fazia sucesso no Brasil e em vários outros países onde se apresentou ao lado de Jamelão e a Orquestra Tabajara.

Pereira da Costa sumiu do mapa, mas ele foi um rapaz humilde, nascido em Limoeiro, Pernambuco. Pouco se sabe sobre esse brilhante compositor autodidata que só deixou um caderno manuscrito com as suas composições. Deu o título de “O espelho da inspiração”. Mas a grande pergunta que Henrique Cazes faz é essa: até que ponto um letrista tem direito de fazer uma letra para uma composição sem que seu autor musical seja consultado.  Porque muita gente se aproveita do compositor da música ter morrido ou criar uma nova letra para a mesma música. Cazes acha que é um problema ético uma pessoa tornar-se coautor ou coautora à revelia. O pesquisador e músico cita o caso do bandolinista que o norte-americano Mike Marshal que incluiu seu nome na música de Jacob do Bandolim e Baby Consuelo, que ele gravou. No caso de Pereira da Costa deu supercerto.

O chorinho com a letra de Pereira da Costa, mas que na internet aparece como letra de Baby do Brasil: Brasileirinho, de 1950.

O brasileiro quando é do choro /////   É entusiasmado quando cai no samba/
Não fica abafado e é um desacato /////  Quando chega no salão/
Não há quem possa resistir //// Quando o chorinho brasileiro faz sentir/
Ainda mais de cavaquinho //// Com um pandeiro e um violão/
Na marcação/
Brasileirinho chegou e a todos encantou //// Fez todo mundo dançar/
A noite inteira no terreiro /////  Até o sol raiar  /
E quando o baile terminou /////   A turma não se conformou ///  Brasileirinho abafou! ///// 
Até o velho que já estava encostado /////  Neste dia se acabou!/
Para falar a verdade, estava conversando ////  Com alguém de respeito/
E ao ouvir o grande choro //// Eu dei logo um jeito e deixei o camarada/
Falando sozinho. Gostei, dancei /////   Pulei, pisei até me acabei/
E nunca mais esquecerei o tal chorinho /////   Brasileirinho!

A carreira de Ademilde foi de vento em pôpa. E nessa última entrevista ela agradeceu o dom que Deus lhe deu e o fato de sua voz se encaixar tão bem no gênero Choro. Um músico americano chegou a dizer que ela tinha uma voz, mas um cavaquinho dentro da boca porque ela cantava como o instrumento tão brasileiro.

Ademilde gravou Teco Teco, também de Pereira da Costa, com Milton Vilela. Na entrevista, Ademilde disse que a letra se parece com a vida dela, uma criança que gostava de brincar de bola de gude.

Teco, teco, teco, teco, teco  ////  Na bola de gude era o meu viver
Quando criança no meio da garotada //// Com a sacola do lado
Só jogava p'ra valer ////  Não fazia roupa de bonecas nem tão pouco convivia
Com as garotas do meu bairro que era natural
Vivia em postes, soltava papagaio ////  Até meus quatorze anos era esse o meu mal

Com a mania de garota folgazã ////   Em toda parte que passava
Encontrava um fã ////  Quando havia festa na capela do lugar
Era a primeira a ser chamada para ir cantar
Assim vivendo eu vi meu nome ser falado ///  Em todo canto, em todo lado
Até por quem nunca me viu
E hoje a minha grande alegria //// É cantar com cortesia ////  Para o povo do Brasil

Pixinguinha: o mais maravilhoso músico brasileiro



Rose Esquenazi








Hoje vamos falar de um gênio da música. Ele foi e é um mito, um talento, uma alma maravilhosa. Pixinguinha, ou melhor, Alfredo da Rocha Vianna Junior, nasceu em 1897, no Rio de Janeiro. Morreu no dia 7 de fevereiro de 1973, dentro de uma Igreja em Ipanema, durante um batizado. Virou santo para quem ama a música universal!

       É muito bom saber que Pixinguinha está mais vivo do que nunca. O Instituto Moreira Salles lançou dois livros com as partituras da segunda fase do mestre, além de manter o seu arquivo musical. No acervo, cedido em comodato pela família, há documentos, medalhas, troféus, álbuns com recortes de jornal, centenas de fotos, roupas, registros de memória oral. Além do Instituto, cotidianamente, os jovens estudam a música de Pixinguinha na Escola Portátil de Música e em várias outras escolas Brasil afora.

Vamos falar de Pixinguinha. A primeira música que ouvimos foi O urubu e o gavião, com o músico na flauta, em 1933. Procure ouvir  Naquele tempo, de 1934.


O pai de Pixinguinha trabalhava nos Telégrafos, mas, nas horas vagas, era músico e costumava reunir os amigos chorões. O menino Alfredo absorvia todos os sons daqueles magníficos intérpretes e os reproduzia com perfeição em uma flautinha artesanal, feita de folha.  Quando o pai mandava o menino dormir, lá pelas nove horas, ele continuava ouvindo a música. Mas ele também conhecia os tambores do fundo do quintal.  A avô era africana, tinha terreiro e deu ao neto o apelido de Pinzindim, menino bom na língua nativa. Parece que foram os amiguinhos que acertaram o nome de Pinzindim para Pixinguinha. O músico ficou cheio de buracos no rosto devido à varíola. 

Há alguns mitos e mistérios em relação à história de Pixinguinha. Três irmãs disseram que ele nunca teve avó africana. E agora?  Bem, dona Raimunda, mãe de Pixinguinha, teve 14 filhos de dois casamentos. A casa estava sempre lotada e era muito musical. Quando tinha 11 anos e ainda usava calças curtas, ele compôs a primeira música, chamada Lata de leite.

     Já as primeiras participações em grupos de chorões foram com os amigos do pai. Depois, fez parte de um grupo de samba que começou em 1917, ainda sob forte influência do maxixe. Segundo o pesquisador Jairo Severiano, Pixinguinha passou pelo Rancho Filhas da Jardineira. Tocava também na Lapa, na casa de chope A Concha e, dali, foi um pulo para entrar no Teatro Rio Branco. Tanto Jairo Severiano quanto o pesquisador Henrique Cazes, que escreveu o livro Choro: do quintal ao Municipal, as primeiras gravações foram na Casa Edison, em 1914.  Três anos depois, o grupo “Pechinguinha” (sic) gravou, na Gravadora Odeon, alguns choros, entre eles, Rosa. Ouça a música na voz de Orlando Silva.


Foi na sala do Cine Palais que os cariocas da elite conheceram Pixinguinha e se encantaram com os sons da flauta. O milionário Arnaldo Guinle decidiu patrocinar a viagem à Europa do grupo, chamado de Os Oito Batutas. Os estrangeiros precisavam conhecer a nossa música. No dancing Sherazade, o grupo atraiu os parisienses que os chamavam de batutás.  Durante seis meses, eles participaram dos alegres anos 20. Henrique Cazes acha que os Batutas não fizeram tanto sucesso porque, se esse fosse o caso, teriam gravado discos. Fazia frio na Europa e os rapazes decidiram voltar. Com algumas deserções, foram depois para Buenos Aires, onde realmente brilharam e gravaram discos. 

         De volta ao Rio, os Batutas continuaram  até 1926, quando Pixinguinha passa a integrar a Companhia Negra de Revistas. Era inédito um grupo de negros se unir para trabalhar junto. Nesse ano, ele também se casou com Jandira Aimoré, com quem ficou junto até a morte, em 1973.

Nos anos 30 e 40, na mesma época do genial Radamés Gnatalli, Pixinguinha foi mestre na vida das orquestras e pioneiro nos arranjos. Muitos cantores famosos se beneficiaram da arte de Alfredo da Rocha Vianna. Posso citar algumas músicas famosas, como O teu cabelo não nega e Na virada da montanha. Pixinguinha começou a criar orquestras, a trabalhar em outras gravadoras, dancings e emissoras de rádio.  Ele passou pela Rádio Transmissora,  que era ligada à Gravadora Victor. E também pela Mayrink Veiga, Nacional, Tupi, Rádio Club e Record, de São Paulo.  Na Mayrink, Pixinguinha criou o conjunto regional Os Cinco Companheiros.  Em 1933, cursou oito meses de teoria musical na Escola Nacional de Música, obtendo diploma.  Mas nem precisava!

Clássico dos clássicos é a música de Pixinguinha, Carinhoso. O choro-canção ficou sem letra durante um tempão. Até que João de Barros criou a poesia que combinou muito bem com a sonoridade.  Pixinguinha passou da flauta para o saxofone na década de 40. Dizem as más línguas, que ele havia perdido a embocadura do instrumento devido ao excesso de bebida. De fato, ele gostava muito de beber.  Sumiu um tempo e, nos anos 50, houve a redescoberta de Pixinguinha. O gênio do sax criou a Turma da Velha Guarda.

Em uma entrevista, dia 29 de maio de 2015, com Henrique Cazes, ele contou que Almirante sempre levava Pixinguinha para o rádio em tempos de vacas magras.  Na Tupi, o radialista anunciava que o amigo tinha feito os arranjos de determinadas músicas.  E juntos apresentavam o programa O pessoal da velha guarda. Em 1953, Pixinguinha se tornou diretor musical na Rádio Club.

Mas, do tempo em que era líder da vanguarda  passando mais tarde a líder da Velha Guarda, Henrique Cazes acredita que Pixinguinha não foi bem recebido pela classe média. Para ele, havia preconceito racial. Não se acreditava que um negro fosse “capaz de organizar bem as coisas, de ser um estruturador. Pelo contrário”,  acreditava Cazes, “os músicos negros eram considerados espontâneos e improvisadores. Curiosamente, foi a elite quem deu força para os Oito Batutas irem para a Europa, muitos anos antes.

Nos anos 60, Pixinguinha foi parceiro de Vinicius de Moraes, em Lamentos, trilha do filme Sol sobre a Lama, de Alex Vianny. Foi parceiro também de Hermínio Bello de Carvalho, em Fale Baixinho, música escrita no hospital. 

Na entrevista dada por Pixinguinha ao radialista Vanderlei Malta da Cunha, na Rádio Metrópole AM, em Porto Alegre, em 69, ele reclamou sutilmente da onda do iêiêiê, que estava bombando. Não gostava dos músicos fantasiados nos festivais e achava a música de Chico Buarque “sempre a mesma coisa”. Ele preferia as letras do compositor. A descoberta do áudio foi da repórter Mariana Filgueiras, em uma reportagem do dia 15 de maio de 2015, no Globo. Nos anos 60, Pixinguinha andava meio esquecido e, no fundo, queria a volta dos chorões, queria compor e tocar. Fez questão de avisar os ouvintes:  “Mas o mundo é uma bola, daqui a pouco, o choro volta”. Ele tinha razão. Para terminar, ouça o choro Vou vivendo. Pixinguinha no sax e Benedito Lacerda, na flauta, em uma gravação de 1946. Benedito era o grande parceiro e amigo de Pixinguinha.


domingo, 26 de julho de 2015

Músicas sertanejas na Capital do Brasil



Rose Esquenazi



 “Óia o sapo dentro do saco”. https://www.youtube.com/watch?v=POatase0vxg

Em abril de 1922, desembarcou no Rio de Janeiro, capital do país, o grupo Turunas Pernambucanos. Almirante lembra no livro No tempo de Noel, que, em 1921, os Oito Batutas, do qual fazia parte Pixinguinha, foram ao Recife. O frisson foi tão grande que eles inspiraram o surgimento dos Turunas Pernambucanos. No ano seguinte, o grupo do Recife se apresentava no Cine Palais, no Rio de Janeiro, sendo anunciados como os que faziam “músicas do Norte”, “caboclos brasileiros”, “cantigas de sertão”, “emboladas e desafios”.  Turuna quer dizer forte, valentão.

No conjunto, estavam dois músicos que se tornaram importantes mais tarde, como dupla:  o José Calazans, o Jararaca, e o Severino Rangel, o Ratinho. No Rio, os Turunas Pernambucanos ganham o reforço de João Pernambuco, no violão. O sucesso foi extraordinário na Capital. Os cariocas nunca haviam ouvido aquela cantoria tão diferente, que embolava as palavras ao cantá-las muito rapidamente. Era tudo novo, curioso, divertido. Mas os nordestinos que já haviam migrado para a Capital, logo se identificaram com aqueles ritmos. Ouvimos na abertura o “Óia o sapo dentro do saco”, de Jararaca e Ratinho, autores também da música Espingarda pá pá pá pá, faca de ponta, tá, tá, tá, tá”.

Vamos ouvir a dupla que se apresentava nas rádios que estavam nascendo nos anos 20 e 30. Os microfones da Rádio Educadora, Sociedade, Rádio Clube. E mais tarde passam a investir em música as rádios Mayrink Veiga, Guanabara, Cajuti, Ipanema (depois Mauá), Transmissora (hoje, Globo) e Nacional estavam abertos para esse tipo de música.

 Espingarda pá pá pá pá, faca de ponta, tá, tá, tá, tá”. https://www.youtube.com/watch?v=4wdkCI55ghg


Os cariocas perceberam que as emboladas poderiam garantir o sucesso nas festas e nas emissoras de rádio. Assim nasceu em março de 1929, o Bando dos Tangarás, como os amadores Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, Noel Rosa, Henrique Brito, Álvaro Miranda Ribeiro e Henrique Foréis Domingues, o Almirante. Eles tentaram imitar a embolada nordestina e foi assim que Almirante compôs a música Vamos falá do Norte. Nenhum músico do grupo era nordestino, mas eles decidiram vestir calças rasgadas e curtas, usar camisas mal ajambradas e se lançar no mundo musical.

 https://www.youtube.com/watch?v=mTPXbIKrEAU

Os músicos do Bando dos Tangarás não tinham mais de 18 anos, 20 anos, e toparam ser um dos pioneiros a participarem de um filme sonoro do estúdio Benedetti-Film, em 1929. Funcionando na Rua Tavares Bastos, no Catete, o estúdio de Benedetti era sensacional. O italiano tinha acabado de criar um sistema, o Vitaphone, que unia imagens e sons. Fez algo paralelo aos que os técnicos estavam fazendo nos Estados Unidos. Essas imagens maravilhosas em uma espécie de clip dos anos 30 sumiram no mundo até que um professor paulista chamado Máximo Barros redescobriu a relíquia. Máximo comprou, em 1995, um pedaço de filme encontrado em uma loja de antiguidades em Copacabana. E qual não foi a sua surpresa ao identificar o Bando dos Tangarás e, claro, o registro de Noel Rosa, aos 18 anos, em sua única aparição em movimento de que se têm notícias. O documento foi veiculado no programa Fantástico e causou emoção entre os fãs e pesquisadores musicais. Hoje, pode ser visto no YouTube!

É bom que se explique porque Bando dos Tangarás. Tangará é um lindo pássaro do Nordeste, azul ou verde, que gosta de cantar em grupo para encantar as fêmeas.
Nesse movimento sertanejo, não podemos nos esquecer que existia na Praça Tiradentes a Casa do Caboclo, onde muitos artistas se apresentaram. Entre eles, os cômicos João Lino e Apolo Correia, Dercy Gonçalves, Jararaca e Ratinho, Manezinho Araújo (Manoel Perreira de Araújo), e Augusto Calheiros, o Patativa do Norte.

Renato Murce, o pioneiro de quem falamos semana passada, também teve seu tempo de conjunto regional. Ele viu, tal como os amigos de Noel, que era preciso cantar como os Turunas que estavam fazendo sucesso no Rio. Na Rádio Educadora, com os primeiros cachês que ganhou na vida (e que o rádio pagou), fundou Os Gaturamos. Segundo Murce, concorriam com “o magnífico grupo comandado por Almirante: o Bando dos Tangarás“. Mas não eram tão bons.

Os Gaturamos, disse Renato Murce em seu livro Bastidores do rádio, tinham como elemento principal ele mesmo e mais o irmão Dario Murce, Rogério Guimarães, Pery Cunha, Lourival Montenegro, Rubem Bergmann, Didi do Pandeiro. O radialista afirmou que nem todas as emissoras gostavam do gênero popular, dessa música do povo.  Isso porque tinham nariz empinado, como a Rádio Jornal do Brasil. A vantagem desses grupos é que eles cantavam em bares e restaurantes e ganhavam comida de graça, no final da apresentação. O que era importantíssimo para os duros que eram.

Murce se lembra da chegada de outro grupo do gênero, no Rio de Janeiro, reforçando a tendência nordestina. O jornal Correio da Manhã, que sempre publicava contos, sonetos e poesias populares, lançou em 1926, um concurso carnavalesco. Nesse momento vem do Recife também os Turunas da Mauricéa, grupo que surgiu depois dos Turunas Pernambucanos. Faziam parte Augusto Calheiros, o Patativa do Norte, com a sua linda voz, Riachão, Guajurema, Piriquito e Bronzeado, logicamente, nomes de guerra. E também fizeram sucessos com suas roupas típicas e chapéus vindos do Nordeste. O maior sucesso dos Turunas da Mauricéa foi no Carnaval de 1928, com Pinião, de  Luperce Miranda e Augusto Calheiros.


Pinião, Pinião, Pinião
Ôi, pinto correu com medo do gavião
Por isso mesmo sabiá cantou
Bateu asas e voou e foi comer melão
Um dia desses um sabiá lá do outeiro
Chegou lá no meu terreiro
Pinicando pelo chão
E um pintinho que tava junto da galinha
Foi correndo pra cozinha
Com medo do gavião.

Vamos ouvir a gravação de 1953, Augusto Calheiros, o Patativa do Norte



Renato Murce conta que teve a honra de apresentar os Turunas da Mauricéa e viu como as portas do rádio, das gravadoras, clubes e excursões se abriram imediatamente para o grupo. Um ano depois, em 1927, aparece o grupo A Voz do Sertão, que tinha no elenco Luperce Miranda, que cantava emboladas muito bem.

Uma dos primeiros a cantar música regional no Rio de Janeiro foi Catulo da Paixão Cearense. Segundo o escritor Mário de Andrade, Catulo foi “o maior criador de imagens da poesia brasileira”. Catulo escreveu 200 modinhas, mas a que ficou mais conhecida foi Luar do sertão, que teve coautoria do violonista João Pernambuco. Luar do sertão foi considerada “o verdadeiro hino caboclo do Brasil”. Em 1936, vai fazer parte da abertura da programação da Rádio Nacional. Vamos ouvir na voz de Tonico e Tinoco, dupla sertaneja pura, a mais famosa. . Tiveram 60 anos de carreira, quando gravaram quase mil músicas em 83 discos. Venderam 150 milhões de discos e fizeram inúmeras apresentações no país e nas estações de rádio, é claro. Tonico, João Salvador Perez, nasceu em 1917, em São Paulo e morreu em 1994, aos 77 anos. Tinoco, José Salvador Perez, nasceu em 1920, também em São Paulo, e morreu em 2012. Foi o artista sertanejo que permaneceu mais tempo em atividade (82 anos). Morreu aos 91 anos. Vamos ouvir Luar do sertão? 


 Luar do sertão
https://www.youtube.com/watch?v=TLnISvSEqVw

Antes de terminar, gostaria de dizer que se podem fazer muitos programas dedicados às origens da música sertaneja e viola caipira. O maior representante desse gênero era o Capitão Furtado, apelido de Ariovaldo Pires, e seu programa Arraial da Curva Torta, na Rádio Cruzeiro do Sul, em São Paulo, ficou famoso.

Ainda sobre Tonico e Tinoco, gostaria de mostrar um trecho da música Irradiação, de Chiquinho e Tonico, que fala sobre o ambiente radiofônico.



 Irradiação
http://www.vagalume.com.br/tonico-e-tinoco/irradiacao.html




O rádio é nosso peito, nós somos uma estação 
É ligado na saudade pra fazer a transmissão  
O tinido da viola vai levando pro sertão 
Tudo quanto é novidade nas ondas do coração. 

Quanto mais é distância mais aumenta a radiação 
A moda nos traz alegria pra outros recordação 
A novela do desprezo, o programa da ilusão 
Reportagem do amor da triste separação. 

O som da voz é suave nós dois pra cantar não treina 
Somos que nem araponga naquela manhã serena 
Nossa viola é transmissor que trabalha sem antena 
Transmite em qualquer distância no coração da morena. 

Estúdio é uma gaiola onde nós canta fechado 
Que nem sabiá coleira no teu cantar magoado 
Sintoniza o padecer de quem vive abandonado 
Nas ondas de uma saudade no transmissor do passado. 

Este que fala no rádio anunciou pro mundo inteiro 
Nas ondas curtas e longas a façanha do violeiro 
Já está ficando afamado até lá no estrangeiro 
Nossa moda sertaneja que é um produto brasileiro.