segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Aracy de Almeida, Araca


 “A Dama do Encantado”, “Dama da Central”, "O Samba Em Pessoa"

A Dama do Encantado foi a melhor intérprete de Noel Rosa: 


Aracy de Ameida nasceu no dia 19 de agosto de 1914 (morreu antes de completar 64 anos, em 20 de junho de 1988), no Rio, em uma casa no Encantado, subúrbio do Rio. Ela nunca mais deixou o bairro em que morou a vida toda, com seus cachorros, árvores e plantas. O pai de Araci era chefe de trens da Central do Brasil, a família religiosa, evangélica. Ela cantava no coro da Igreja Batista, mas, escondida dos pais, saía no bloco Somos poucos a falar e cantava nos terreiros de macumba. Todos diziam que ela era muito diferente, isso, desde muito jovem.
Não se via com bons olhos uma moça ser cantora de rádio. Mas ela foi, mesmo assim. Fez teste na Rádio Suburbana e depois entrou para Rádio Educadora do Brasil, na Rua Senador Dantas, com a ajuda de um vizinho, o Manuel, que gostava da voz dela. Manuel era amigo do violonista Custódio Mesquita, conseguiu uma chance na Rádio Educadora.
 Ser irmã de um pastor, o Alcides, atrapalhava tudo. Assim foi que o diretor do programa  Hora do outro mundo, Renato Murce, de muito sucesso nos anos 30, querendo ajudar, foi até o Encantado e garantiu aos pais de Aracy que se responsabilizava por ela.
Na Rádio Educadora, Aracy conheceu Noel Rosa, que já era famoso desde  que compôs Com que roupa e outros sucessos. Segundo o livro Noel  Rosa: uma biografia, de João Máximo e Carlos Didier (Ed. UNB), esgotado e vendido em sebos por R$ 500, 00,  Noel não esperou ser apresentado. Aproximou-se da cantora e disse que ela tinha jeito, mas não podia ficar cantando o mesmo repertório de Carmem Miranda, que já era popular. 

                                                           O x do problema
Noel a convidou imediatamente para ir à Taberna da Glória, restaurante que existe até hoje nesse bairro. Foi lá que ele a apresentou a seus amigos e conhecidos: de compositores a prostitutas, de malandros da Lapa a cantores. Noel se dava com todo o mundo. Aracy gostou do mundo da noite. De madrugada, Noel acompanhou Aracy até a Central do Brasil. Na época, menina direita também  não chegava de manhazinha em casa, e claro, Aracy levou uma bronca enorme dos pais.
Noel se tornou amigo dela, mas nunca namoravam. Aracy era um tipo mignon, não era bonita, segundo ela mesma reconhecia. Em uma entrevista, Aracy afirmou que Noel Rosa gostava de mulheres altas e exuberantes, ela não era nada disso. O compositor passou a levá-la para a casa dele em Vila Isabel. No quartinho dos fundos, ele lhe dava uma sopinha de feijão e lhe ensinava os sambas. A voz anasalada de Aracy era perfeita para interpretar os sambas de Noel, tinha um ar triste, fundamental. Dona Martha, mãe de Noel, não gostava e uma vez reclamou: nunca tinha visto uma mulher dizer “tanto nome feio”.  Aracy adorava palavrões e gírias e se tornou mestre nisso até o fim da vida, em 1988.

 Noel ensinou muita coisa, apesar de Aracy ser muito intuitiva. Não aprendia facilmente melodia e letra. Mas depois que dominava o samba, dava tudo certo. Tinha uma grande afinidade com Noel. Para ele, era a melhor cantora de “samba de batida”. Ou seja, o samba bem marcado, que tinha bossa, em contraposição ao samba-canção. Noel chegou a dizer para o jornal A Pátria, em 4 de janeiro de 1936, o seguinte: "Aracy de Almeida é, na minha opinião,  a pessoa que interpreta com exatidão o que eu produzo.  É um valor. É nova, mas das melhores”.

Noel Rosa também era muito amigo de Marília Baptista, muito mais comportada e controlada de perto pelos pais, que também trabalhavam no rádio. As duas se tornam as maiores intérpretes de Noel, só que tinham características muito próprias. Segundo João Máximo e Didier: eram diferentes em tudo. “No temperamento, nos hábitos, na formação musical, no timbre de voz, no modo de cantar, no tipo físico, nos mundos em que nasceram” e viveram. (p. 320).
 Aracy, quatro anos mais velha do que Marília, se apresentava em várias emissoras de rádio, não se fixando em nenhuma delas. Aqui e ali ia ganhando cachês. A primeira música que gravou foi um samba de Noel: Sorriso de criança. Depois, não parou mais.  Noel gostava de levar Aracy para os prostíbulos pobres da Central, e ela ia, e cantava para as prostitutas com entusiasmo. Gostava de dizer que “quem canta de graça é galo”, mas muitas vezes cantou apenas por prazer. 
Noel ficou tuberculoso e não havia cura para a doença na época. Continuou compondo e desafiando as ordens médicas, saindo à noite, comendo mal e bebendo muito. Teve um tempo em que ele tentou se comportar, mas já era tarde. Mesmo casado com Lindaura, fazia música e se encontrava com a paixão de sua vida, a Ceci. Pela música, Noel passava recados, e isso aconteceu com Cansei de pedir e Último desejo, testamento cantado por Aracy de Almeida para a amada de Noel. Vamos ouvir.
                                                                     Último desejo
A morte de Noel, que tinha apenas 26 anos, abalou a cidade. Ele era muito querido, deixou um legado fabuloso de mais de 300 músicas.  Aracy de Almeida continuou a cantar Noel Rosa, mas nos anos 50, tinha conquistado outro público. Passou a se apresentar na requintada boate Vogue, em Copacabana, unindo a cidade  - ricos e pobres - através das composições de Noel. Vendo que os discos estavam esgotados, a gravadora Continental gravou, em 1950, Aracy cantando Noel. Eram três discos de 78 rotações, tendo, na capa, uma linda pintura de Di Cavalcanti. Sucesso absoluto de vendas e, hoje, uma raridade que custa nos sebos em torno de R$ 200,00.  
                                                                     Não tem tradução
Nas contracapas do disco triplo, críticos importantes de música, como Lúcio Rangel e Fernando Lobo, escreveram sobre Aracy de Almeida e Noel.  Para eles, a voz de Araca tinha ficado ainda melhor com o tempo e, curiosamente, Noel continuava sendo cantado, para alegria de todos.

Os ouvintes mais velhos devem lembrar se de Aracy como jurada do Show de Calouros, do Silvio Santos, ou anteriormente, nos vários programas de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, nos anos 70 e 80. Era uma senhora rabujenta, mal-humorada, que acabava com os candidatos com suas palavras cortantes e alguns palavrões. Mas ela sabia o que dizia. Era uma grande cantora. Tinha muitos fãs sinceros e apaixonados, como Hermínio Bello de Carvalho que escreveu o livro Araca, arquiduquesa do Encantado (Edições Folhas Secas) para contar as grandes e engraçadas histórias dessa mulher suis generis.
Para ele, ela era pansexual: amava homens, mulheres, cachorros e árvores.  Cheia de contradições, era um personagem rico, que amava grandes sacadas, porque não dizer: gostava de chocar as pessoas naquele tempo tão careta e formal. Em sua casa, havia quadros de grandes pintores, como Di Cavalcanti, amigo verdadeiro, e também pinturas de Aldemir Martins, Antonio Bandeira, Heitor dos Prazeres. Ouvia o clássico Bach e amava as óperas.
Viveu com Henri, o alemão Henrique Pffiferkorner, de quem pegava as cuecas. Sim, Aracy não gostava de calcinhas, mas de cuecas largas e confortáveis. Nesse ponto, antecipou a moda: muitas jovens atualmente se gabam de usar cuecas dos namorados, olha só como Aracy era moderna! Mas ela se vestia de forma estranha, nada lhe caía muito bem. As roupas eram de boa qualidade, mas ela não tinha gosto ou talvez paciência para descobrir o que combinava com o seu tipo físico. Os cortes de cabelo também não eram nada femininos. Sim, ela era feia e mal ajambrada. Não ficou rica com a música, continuou morando na casinha do subúrbio e, às vezes, fazia uma extravaganza comprando enfeites caros para a sua casa.

Segundo o maior fã e protetor, o Belo Hermínio, como Aracy gostava de chamá-lo, a cantora tinha uma coisa que antecedia aos hippies, às conquistas femininas postuladas pela francesa Simone de Beauvoir. Foi existencialista antes de Jean-Paul Sartre. Gostava de ler o Velho Testamento e, segundo ela, Eclesiastes era um existencialista por natureza.
 Olivia Byinton gravou um disco maravilhoso em que fez um tributo a Aracy de Almeida, chamado “A Dama do Encantado”, de 1977.

                                                         Três apitos



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O rádio faz história – O rock n’roll chega ao Brasil


Nora Ney – Rock around tonight  https://www.youtube.com/watch?v=5GnaU2m3-OQ

Celly  Campelo e palhaço Carequinha: dois sucessos do tempo do rok



Antenado com as novidades mundiais, César de Alencar - apresentador do programa mais popular nos anos 50, na Rádio Nacional, - ouviu dizer que uma música estava em primeiro lugar nas paradas de sucesso nas rádios americanas. Era o Rock around the clock. Gravada em 1954, só ficou conhecida no ano seguinte, quando entrou para a trilha sonora do filme Sementes da violência (Blackboard jungle), interpretada pelo conjunto Bill Haley & seus cometas. Os sons provocaram tal frisson na plateia de jovens que eles começaram a quebrar tudo o que viam dentro da sala de cinema: cadeiras, tela...  O tal comportamento maluco se repetiu em vários cinemas nos Estados Unidos.

O filme Sementes da violência, com Glenn Ford, contava a história de um professor que ia dar aula em uma escola e viu que era dominada pela violência. Estava crescendo a geração chamada de rebeldes sem causa. A guerra havia acabado, os jovens americanos tinham trabalho, conforto,  mas eles não queriam ser como os pais. Desejavam mudanças de comportamento, mais liberdade, cabelos compridos, roupas descontraídas e música frenética. No Brasil, esse grupo inspirou, mais tarde, a Juventude Transviada .

Antes de o filme Sementes da violência chegar no Brasil, e que acabou também gerando quebra-quebra nos cinemas, César de Alencar pediu que a cantora Nora Ney fizesse um cover da música. Ou seja, cantasse igualzinho ao original do conjunto Bill Halley.  Cantora da noite, ela não tinha nada a ver com aquele estilo, mas sabia falar inglês. Aprendeu a música, ensaiou com uma pequena orquestra e, detalhe, ainda não tinham chegado por aqui guitarras elétricas, já comuns nos Estados Unidos. Em 1955, ela cantou ao vivo no Programa César de Alencar e foi uma loucura!  O público enlouqueceu só de ouvir aquela música no rádio. Os telefones na Rádio Nacional não pararam de tocar. Todos queriam saber onde poderiam comprar o disco.

Na época, os discos demoravam muito para chegar ao país. Por isso, os cantores brasileiros gravavam ou apresentavam ao vivo os tais covers. A música que acabamos de escutar de Nora Ney foi um cover que ela gravou em 1955, de 78 RPM. Apesar do sucesso inesperado, Nora Ney não quis continuar no gênero rock e voltou para os sambas-canções de Dorival Caymmi e Ary Barroso, que costumava interpretar nas pequenas boates de Copacabana.

Nascia o rock no Brasil. Nas rádios brasileiras, aparecia uma nova geração de cantores que se apaixonou pelo estilo rebelde de tocar e cantar música.
O governador de São Paulo, Jânio Quadros, determinou que o filme Sementes da violência- quando chegou aqui, em 1955 - fosse proibido para menores de 18 anos. E o juiz de menores concordou porque, segundo suas palavras, “o novo ritmo é excitante, frenético, alucinante e mesmo provocante, de estranha sensação de trejeitos exagerados e imorais”.

Na Bahia, Caetano Veloso contou que teve medo de assistir ao filme Sementes da violência porque achava que podia ser possuído por alguma força irracional. Depois, disse ele, descobriu que “estava diante de uma chanchada igual àquelas que o cinema nacional produzia na época”. Outro filme do gênero, o Rock around the clock, 1956, aqui chamado de Ao balanço das horas, deu continuidade a essa febre de rock n’ roll.  

No Brasil, o rádio seria o primeiro meio de comunicação a estimular a onda musical. Waldir Pinotti estreou  A Hora da Broadway, diariamente, das 17h às 18h, na Rádio Metropolitana. Waldir tinha um conhecido na embaixada americana que lhe fornecia um audiotape do programa You Make Believe Ballroom, com os 50 primeiros lugares da parada de sucessos, a Cash Box. Segundo Albert Pavão, no livro Rock brasileiro 1955-1965 (Edicon, 1989), “Waldir tirava a voz do locutor em inglês e anunciava os sucessos de Chuck Berry, Carl Perkins, Fats Domino e The Platters”.

Erasmo Carlos e muitos outros jovens enlouqueceram ao ouvir o ritmo novo e descobriram que havia muita gente fazendo rock n’ roll, além de Bill Halley.  Antes de conhecer Erasmo, Roberto Carlos, aos 16 anos, foi convidado para fazer uma participação no programa Clube do Rock na TV Tupi. Lá, ele cantou Jailhouse rock, de Elvis Presley.  Não existe gravação, pelo que sei, dessa gravação de Roberto Carlos. Vamos ouvir um pedaço do original: (https://www.youtube.com/watch?v=gj0Rz-uP4Mk). (opcional)
Mas é engraçado saber que o Rei imitou Elvis um dia na vida.

Voltando ao Rádio, outro jovem amante do rock Carlos Imperial criou na Rádio Guanabara um programa dedicado ao gênero: Os brotos comandam.  Foi Imperial quem também fazia o programa na TV Tupi e que levou Roberto Carlos a gravar o primeiro disco, com a música João e Maria.  Nada a ver com rock e sim com a Bossa Nova, que também estava surgindo.
A mania foi se espalhando, Jair de Taumaturgo, considerado um coroa, chamou Isaac Zeltman para apresentar o programa Alô, brotos,em 1961, que se tornou o maior sucesso na cidade. Os jovens cantores iam ao programa, se fantasiavam como os artistas estrangeiros ou criavam personagens diferentes para se mostrar para a plateia do pequeno auditório do rádio.

A cantora Sonia Delfino começou a fazer sucesso no Rio reagindo ao grande nome do rock que apareceu pouco antes e que vinha de São Paulo, Cely Campelo. Ela gravou Estúpido Cupido, versão de Stupid Cupid, em 1959.  Ela apareceu no cenário musical junto com o irmão Tony Campelo, mas acabou largando a música para se casar!


Até o palhaço Carequinha teve um programa na Rádio Carioca, das 10h da manhã até as 21h30, que só tocava rock. O próprio Carequinha chegou a interpretar rock n’ roll, o Rock do Ratinho e o Rock da Alegria, por exemplo. 
https://www.youtube.com/watch?v=Lqe0Tyjns9U   Rock do Ratinho, de 1961.
Na Rádio Globo, Chacrinha passou a apresentar  A parada é do Rock. Luiz de Carvalho era o dono do programa a Revista do Rock no ar.  Surgiram várias revistas de papel também dedicadas ao gênero, como a Revista do Rock e Baby Face.

A sociedade estava dividida: havia pais conservadores que achavam que os filhos se perderiam para sempre ao ouvir o rock; outros aceitaram melhor. Na Revista do Rádio, do começo dos anos 50, até D. Helder Câmara, bispo-auxiliar do Rio de Janeiro, deu a sua opinião sobre a grande polêmica: “Nessa época em que tudo é a jato, temos que seguir o seu caminho. Não vejo maldade no rock, quando colocado em terreno puro”.

Já era tempo dos Beatles, que explodiram em 1962. Três anos mais tarde, e começa a era da Jovem Guarda, que ganhou um programa especial na TV Record, em São Paulo.  O rei se tornou Roberto Carlos, que comandava a turma dos roqueiros e brotinhos brasileiros.


Para acabar essa participação, queria mostrar que o cantor Agostinho dos Santos (mais tarde, um cantor romântico), entrou nessa onda do rock, ao gravar Até logo, jacaré, uma versão muito engraçada e ridícula de See you later, aligator, também de Bill Haley & seus cometas. ( Faixa 2, do CD.) Ridículo porque a versão não faz jus à expressão em inglês que rima bem: “See you later, aligátor, in while, crocodile”.

domingo, 19 de outubro de 2014

“As aventuras de Fred Perkins”

“O Rádio faz história” - Rádio MEC AM

Rose Esquenazi



Francis Hallawell foi correspondente de guerra pela BBC
e autor do programa 'As aventuras de Fred Perkins"
Um novo gênero de programa radiofônico chegava ao Brasil nos anos 40: as séries de aventura sobre guerra dirigidas ao público infantojuvenil. Estavam nessa lista: “As aventuras de Fred Perkins”, interpretada por Francis Hallawell, em Londres. E também “O homem pássaro” e o “Barão Eixo”, as duas últimas feitas no Brasil.

Vou falar hoje sobre “As aventuras de Fred Perkins” porque vou pegar carona no seu programa, Marco Aurélio, para convidar você e o seu público para lançamento do meu livro “O Rádio na Segunda Guerra. No ar, Francis Hallawell, o Chico da BBC”. Vai ser na Livraria Travessa Botafogo, dia 22 de agosto, sexta-feira, a partir das 19h. A Travessa fica em frente à Estação do Metrô de Botafogo.

Antes de se tornar o correspondente Chico da BBC, o único que fazia rádio ao lado das forças brasileiras na Itália, em 1944, Francis Hallawell trabalhava em Londres. Brasileiro de família inglesa, ele nasceu em 1912 queria para o exército inglês, mas, devido à idade, foi convidado  para trabalhar no Serviço Brasileiro da BBC. Ele escreveu e apresentou diversos programas, entre eles, episódios de 28 minutos enviados em ondas curtas para o Brasil. Eram “As aventuras de Fred Perkins”, que tinham efeitos sonoros, radioatores, música. A série era gravada em acetato e, alguma depois, era enviados ao Brasil e retransmitida em diferentes estações de rádio e serviços de alto-falantes.  “As aventuras de Fred Perkins” ficaram famosas.

Infelizmente não existem, nem na Inglaterra nem no Brasil, scripts originais desses programas. Tudo bem que o prédio da BBC foi muito bombardeado pelos alemães na Segunda Guerra. O que consegui foram dois programas em áudio, uma raridade, não há dúvida.  Não se tem uma data precisa de sua criação, mas é provável que os programas tenham sido gravados em 1943.
 Consegui essas gravações na Collector’s, empresa que digitalizou os programas a pedido do próprio Hallawell, que morreu em 2004. A esposa de Francis, a belga Julienne, vive em Corrêas, Petrópolis,  também me ajudou muito.

 No primeiro episódio, o personagem Fred quer sair pelo mundo em “busca da verdade”. Tentando achar uma coerência no meio de tantas versões jornalísticas desencontradas. O repórter da ficção tinha o mesmo sentimento dos correspondentes de carne e osso. Como dizia o jornalista Rubem Braga, do Diário Carioca, correspondente de guerra na Itália que ficou amigo de Francis Hallawell:  “Não existe verdade em uma guerra”. Isso porque há várias versões sobre o mesmo fato. Além disso, a imprensa brasileira sofria três tipos de censura: a da guerra – comum em tempos de conflito, a censura dos militares brasileiros e ainda a censura do Estado Novo.

Na história infanto-juvenil, o personagem Fred Perkins monta um miniaparelho de rádio com o poder de transmitir ao vivo as suas aventuras. Tratava-se de algo inimaginável nos anos 40, antes dos satélites, transistores e chips. O personagem embarca em um avião construído por um amigo e vai até a Alemanha, onde um avião inimigo derruba seu teco-teco. Fred cai em solo alemão, é ameaçado de morte e acaba na antessala de Hitler, ouvindo seus ataques histéricos. Na prisão, Fred é salvo por uma bomba inglesa atirada de um avião da RAF. Assim ele consegue fugir.

Segundo o historiador João Baptista de Abreu, o personagem principal assemelha-se a um herói das histórias em quadrinhos, “pelo arrojo, ironia e humor na interpretação”. Depois da vinheta característica do programa, animada com o tique-taque de ponteiros de um relógio, sons de xilofone e bumbo, o correspondente de guerra se apresenta ao público.  Na época, o rádio sofria muita interferência e isso aparece nos episódios.  O contrarregra reproduz esses ruídos incômodos e o correspondente pede desculpas a cada vez que isso acontece. Com uma voz clara e espontânea, Francis Hallawell dá asas à imaginação do público.


O livro que vou lançar no dia 22 de agosto é minha dissertação de mestrado em História da Cultura que defendi na PUC-Rio, em 2013. Procurei seriados infantojuvenis da mesma época para fazer comparações.  Encontrei “O homem pássaro”, irradiado pela Rádio Nacional, diariamente, às cinco e meia da tarde. Essa série durou dois anos: de 1944 a 1946. Também falava de guerra e do nazismo.

No único disco de acetato que sobreviveu na Rádio Nacional, não há registro de data. “O homem pássaro”, narrado por César de Alencar, era super-herói arrojado e audacioso, segundo a historiadora Lia Calabre que escreveu sobre essa ficção radiofônica. Assim como a série “As aventuras de Fred Perkins”, a trilha de abertura de “O homem pássaro” era vibrante e envolvente.

No episódio “A vingança do Cérebro”, o hreói Dick está procurando “o negro Joe” na aldeia do Touro Bravo.  Passando por um perigoso despenhadeiro, ouvem-se os efeitos sonoros de cavalos trotando outros reagindo a uma pedra que despenca da montanha, além de muitos tiros.  Há suspense e tensão.

Existe ainda um terceiro seriado,  o “Barão Eixo” , que encontrei sob a forma de um anúncio no jornal “Diário Carioca”, do dia 2 de julho de 1943.  O programa ia ao ar aos domingos, às 20h45, na Rádio Nacional, mas não se sabe mais nada sobre a sua produção e conteúdo.

O que eu acho mais interessante é deixar espaço para o público pensar e imaginar, algo tão raro atualmente. O rádio sempre fez isso, mas, em qualquer ficção, o ouvinte vai além. No caso de “As aventuras de Fred Perkins”, as pessoas podiam conhecer um pouco sobre a vida dos correspondentes.  Sem querer, Francis Hallawell antecipou o seu destino que só teve início em 1944, na Itália, ao lado de outros jornalistas  brasileiros que foram para a guerra.



Trecho:

Em uma de suas primeiras falas, Fred Perkins conta que teve uma ideia. Ele diz assim no seriado: “Estou enjoado desse negócio de “fontes autorizadas informam de Berlim”, “contam fontes oficiais”, “um porta-voz militar”, depois vem outro que diz que foram 150 mil prisioneiros aqui, acolá. Daqui a pouco, não foi nada disso, ninguém fez 150 mil prisioneiros, foi outra pessoa que foi presa em um lugar muito diferente. Vocês sabem como é, não sabem? Estava eu nisso quando disse a minha mulher: e se tivéssemos um meio de saber a verdade? E ela me disse: “Pois é, Fred, e se fizessémos isso?  E, de repente, deu um estalo, e por que não, Mabel? Afinal de contas, quem nos impede de ver? Saberíamos por nós mesmos a verdade. E foi assim que começou a história toda”.



Jerônimo - Um herói nacional


Rose Esquenazi


A série do rádio virou revista em quadrinhos
Moyses Weltman, o autor da série


Os primeiros heróis apreciados pelos brasileiros eram importados. Super Homem, Tarzan, Homem Aranha faziam parte da imaginação popular, mas nasceram nos Estados Unidos. Essas figuras cheias de qualidades sobre humanas apareciam na forma de quadrinhos de jornais e, depois, de revistas em quadrinhos. Com o surgimento do rádio, histórias de heróis passaram a frequentar as ondas sonoras, que passaram a incluir os valentes do Velho Oeste americano. Com a proximidade da Segunda Guerra, surgiu o personagem Sombra, que já havia estourado nos Estados Unidos. Era um policial que conseguia ficar transparente e podia entrar nos esconderijos dos bandidos e ouvir todas as confissões dos criminosos. O Sombra teve uma marca que ficou conhecida durante anos: “Ninguém sabe o mal que se esconde nos corações humanos. O Sombra sabe. Rararaá".

Havia também o seriado Aventuras do Anjo, um milionário que, nas horas vagas, tentava fazer justiça com as próprias mãos. Todos os heróis eram importados até que, em 1953, o brasileiro Moisés Weltman cria Jerônimo, o Herói do Sertão. O sucesso, irradiado pela Rádio Nacional, fez sucesso imediato. Mas o criador passou por difíceis dúvidas antes de se decidir pelo nome. Ele iria se chamar Bento Faria e teria a naturalidade gaúcha. Mas eis que a direção da emissora preocupou-se em lançar um produto demasiadamente regional. Quebrando um pouco mais a cabeça, Weltman chegou a Jerônimo, sinônimo de um homem corajoso que percorreria o sertão para fazer justiça tendo sempre ao lado o seu companheiro o Moleque Saci (Cauê Filho). Ele era interpretado por Milton Rangel, que contracenava com várias radio atrizes que viveram o amor de sua vida, a Aninha. Dulce Martins, Neusa Tavares e Maria Alice Barreto  preenchiam a imaginação dos jovens ouvintes. A mãe batalhadora, a Maria Homem, também foi um grande personagem, interpretada por Tina Vita. Maria Homem teve que reagir à violência dos poderosos do sertão que roubaram as terras e mataram o marido.
A trilha do seriado ficou grudada na cabeça dos ouvintes e fazia uma síntese da história. Quando ouvimos o programa atualmente vemos que de fato envelheceu e ninguém conseguiria escutar essa a série sem um ar de enfado. Mas, durante 14 anos, a Nacional exibiu 3.276 capítulos e, se bobear, ainda hoje podem se emocionar.
Pode-se perceber essa paixão na busca das antigas revistas em quadrinhos que a editora Rio Gráfica lançou. No primeiro número, esgotou rapidamente nas bancas. Tanto que a editora teve que aumentar a tiragem 48 horas depois, segundo escreveu o escritor Ronaldo Conde Aguiar, no livro Almanaque da Rádio Nacional (Casa da Palavra).
Jerônimo foi parar na televisão duas vezes. Na Tupi, na década de 60, e no SBT, em 1980. Não fez muito sucesso. O herói autenticamente brasileiro, que cavalava por regiões com características brasileiras, também não causou nenhum impacto no cinema, na produção filmada em 1994.

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/Quem passar pelo Sertão / Vai ouvir alguém falar / No herói desta canção / Que eu venho aqui cantar /
// Se é pro bem vai encontrar / Um Jerônimo protetor / Se é pro mal vai enfrentar /Um Jerônimo lutador /
//Filho de Maria Homem, nasceu / Cerro Bravo foi seu berço natal /
Entre tiros e tocais cresceu / Hoje luta pelo bem contra o mal //
//Galopando está em todo lugar / Pelos pobres a lutar sem temer / Com o Moleque Saci pra ajudar / Ele faz qualquer valente tremer /

O gênio do médico Paulo Roberto: um criativo radialista

"O rádio faz história." - Rádio MEC AM

Rose Esquenazi

Paulo Roberto, paixão pelo rádio




NADA ALÉM DE DOIS MINUTOS


  
Nos anos 30, o rádio ainda era um mundo a ser desvendado. Despertava a curiosidade de todos os que achavam que lá era um lugar mágico de onde saíam as “ misteriosas” ondas sonoras. O rádio sempre foi um mundo fascinante, atraindo muitos profissionais para seus estúdios. Um desses casos curiosos foi o médico Paulo Roberto, gênio que deixou muitas marcas em programas criativos, principalmente na Rádio Nacional.  Ele nunca deixou a medicina, era obstetra e orientador de jovens médicos. Costumava dizer que era o rádio que sustentava a carreira na medicina.
O nome verdadeiro de Paulo Roberto era José Marques Gomes, nascido na cidade de Dom Silvério, antiga Saúde, em Minas Gerais, em 10 de setembro de 1903. (Morreu em 13/12/1973, de infarto) Segundo sua filha, a harpista Maria Célia Machado, Paulo Roberto iniciou sua carreira no Programa Casé, na Rádio Phillips, nos anos 30. Ele tinha uma voz interessante e simpática, segundo ela, “era agradável e natural e apresentava textos inteligentes em linguagem coloquial, inovadora para a época”. Antes disso, os locutores eram muito formais.

Ele trabalhou também nas Rádios Cruzeiro do Sul, onde foi diretor artístico e Rádio Tupi.

Dotado de grande criatividade, suas produções tinham o ser humano como foco, mas sempre se preocupava com a qualidade dos programas. Um dos mais criativos foi o Nada além de dois minutos. O radialista falava sobre diversos assuntos, mas em 120 segundos apenas. Patrocinado pelo Sabonete Gessy, o programa estreou em 1947, e ia ao ar aos domingos, às 20h, horário nobre da Nacional. Paulo Roberto tanto podia contar uma piada como uma história, dar uma estatística ou revelar uma curiosidade. Ele tinha um grande parceiro: o apresentador Reinaldo Costa. Os diálogos cômicos contavam com os radioatores da estação. Ele pedia na chamada do programa para que o público conferisse os dois minutos. Era quase um twit, que nós conhecemos hoje: uma informação rápida.

Nada além de dois minutos durava meia-hora e fazia sucesso na grade da Nacional. Entrava próximo às apresentações das rainhas do rádio da época: Marlene e Emilinha.

Mas  Paulo Roberto fez muito mais no rádio.  Ainda na época da guerra, Paulo Roberto decidiu defender os países que estavam dominados pelos nazistas lançando Bandeiras da Liberdade. Quando a guerra acabou, o radialista recebeu medalhas e diplomas dos reis da Bélgica, Dinamarca e Suécia, em reconhecimento a sua força e ajuda aos países dominados.

Outro programa interessante criado e transmitido por Paulo Roberto foi Obrigado, Doutor. O formato era de um rádio-teatro semanal, sendo que o herói era um médico. Podiam ser narrativas trágicas ou divertidas, reais ou imaginárias, num total de 314 programas. Em 1981, a TV Globo lançou a série com o mesmo nome e que tinha como protagonista o ator Francisco Cuoco.

Em Honra ao Mérito, ele fazia biografias dramatizadas de benfeitores e heróis. As obras dessas pessoas recebiam diplomas e medalhas de Ouro. Ainda segundo a sua filha, “uma série de gravações de discos infantis” apresentaram outra face do talento de Paulo Roberto,  a interpretação de personagens. O auge de sua atuação foi no conto Pedro e o Lobo, de Prokofieff, sob direção musical de Radamés Gnatalli.  Essa peça musical tinha como objetivo levar as diferentes sonoridades às crianças. Cada instrumento representava um personagem da história.

 Todas as manhãs,  durante muito tempo, Paulo Roberto lia as crônicas que escrevia para a Rádio  Nacional: era o Vamos Viver a Vida. Nos textos, Paulo Roberto defendia posições pioneiras em relação aos “problemas ambientais, educacionais e sociais”. Era um homem com uma visão muito ampla de todas as coisas.

No programa Gente que Brilha, Paulo Roberto apresentava os talentos brasileiros já consagrados, mas também os iniciantes. Em 1957, ganhou o prêmio da Secretaria do Eestado da Guanabara por ser o Melhor Produtor daquele ano.  Ninguém entendeu nada quando ele foi levado a um distrito policial e depois demitido durante o AI-1, no ano do Golpe Militar, em 1964. Os amigos não viam Paulo Roberto como  um quadro político. Mário Lago, que também trabalhava na Rádio Nacional, que era comunista assumido, escreveu que o amigo não participava de campanhas sindicais. Ele escreveu certa vez: “Não se sabia de ninguém que não gostasse dele. Acreditava-se socialista, mas aos princípios teóricos preferia os ensinamentos de Cristo, que acreditava acima de qualquer coisa”.
                                                 
Era uma pessoa admirada e querida por todos. Honesto, teve uma carreira exemplar, todos diziam. O fundador da Rádio Sociedade  e depois Rádio MEC, Roquette-Pinto, deu-lhe a Medalha de Honra ao Mérito.

Segundo o blog de Roberto Salvador, autor do livro A Era do Radioteatro, Paulo Roberto largou tudo o que estava fazendo quando soube que o colega Carlos Frias, radialista como ele, havia se acidentado na estrada Rio-Petrópolis. Ao chegar ao hospital, fez um escândalo porque os médicos não queriam salvar a língua de Carlos Frias, que ficou muito machucada. Depois do discurso insistindo para que os médicos suturassem a língua  do colega. Foi assim que Carlos Frias pôde continuar trabalhando na Rádio Tupi. Graças ao doutor-radialista, uma grande figura que também foi o responsável por muitos programas do Projeto Minerva, já nos anos 60.



Haroldo Barbosa: Multiartista da Era do Rádio

"O rádio faz história." - Rádio MEC AM

Rose Esquenazi



Um milhão de melodias
Haroldo Barbosa: talento nacional


Haroldo Barbosa é mais um exemplo dos gênios do rádio. Nascido em Laranjeiras, em 21 de março de 1915 (morreu em 6 de setembro de 1979), ele exerceu inúmeras profissões. Foi produtor, compositor, speaker, contrarregra, humorista jornalista.

Mudou-se com a família para Vila Isabel, onde ficou amigo de Hélio Rosa, irmão mais novo de Noel Rosa. Todos estudaram no mesmo colégio, o São Bento. Haroldo se interessou pela música e formou com Hélio um grupo musical que animava as festinhas e frequentava a Rádio Educadora.  Começou a ganhar cachê, que achava uma fortuna, embora fosse irrisório! De acordo com o seu depoimento para a Collector’s, ele não era bom instrumentista, mas dava para o gasto.

Evaldo Barbosa, seu irmão mais velho, já era contrarregra do Programa Casé, na Rádio Philips. Estava decidido a deixar o programa quando, um dia, bebeu demais e pediu para Haroldo fazer o trabalho dele. O irmão mais novo não decepcionou Casé, embora o dono do horário não tenha gostado do comportamento de Evaldo.  Cuidadoso e muito curioso, de auxiliar, Haroldo passou à contrarregra oficial do programa, mesmo depois de Casé sair da Philips. Haroldo foi contratado como  contrarregra, speaker e arquivista.

Ele passou por diversas rádios: Rádio Cruzeiro do Sul, Rádio Clube, Transmissora, onde foi auxiliar do speaker esportivo Oduvaldo Cozzi. Participou da transmissão do Circuito da Gávea, na condição de operador de amplificador que pesava 40 quilos.  Era um problema transmitir qualquer evento externo naquela época, mas era uma grande emoção. Desde 1941, com um novo gravador que chegou à Nacional, ele começou a recolher depoimentos na rua. Haroldo também auxiliava na reportagem esportiva e era speaker.

Foi depois para a Rádio Nacional contratado como discotecário e redator de publicidade. No começo, como ele mesmo lembra, não havia muita audiência na Nacional, que fazia uma programação de alto nível.  Em 1939, porém, aconteceu uma reviravolta e o governo incorporou várias empresas que estavam devendo impostos. Entre elas, a Nacional. Com a entrada de Gilberto de Andrade como diretor, a emissora se transformou, se popularizou, se equipou e ficou à frente de seu tempo.

Começava a era das novelas e de muitos programas musicais. Haroldo estava à frente de muitas dessas iniciativas e, ao lado de José Mauro, criou Cavalgada da Alegria, para lançar o Melhoral no Brasil. O programa precedeu outras grandes atrações do gênero, que movimentavam todo o cast da Rádio Nacional com melhores maestros e atores.

Haroldo também participou da adaptação da música O luar do sertão (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco) para prefixo da Nacional. Lançado primeiramente em ondas curtas, o prefixo foi usado depois na emissora principal. Ajudou a criar o prefixo do Repórter Esso, usando as gravações de  fanfarras que existiam na emissora.


Veio a seguir o lançamento da Coca Cola no Brasil, em 1943. Haroldo e José Mauro, outro gênio da radiofonia brasileira  (1916-2004), foram chamados para criar uma nova atração e assim nasceu Um milhão de Melodias, o mais famoso programa musical da Nacional.  Ficou no ar durante sete anos, teve uma interrupção e depois voltou em 1951, com grandes artistas brasileiros e o comando do maestro Radamés Gnatalli e a Orquestra Brasileira. Entrava na programação às quartas,  às 20h30.

Para Um milhão de Melodias, ele escreveu mais de 500 versões de músicas estrangeiras e, por isso, foi muito criticado. Ele justificou alegando que queria uma maior circulação musical dentro da rádio e não seria bom ouvir Emilinha Borba cantando um sucesso em alemão!

Nessa mesma época (início da década de 1940), Haroldo Barbosa começou a escrever no Diário da Noite uma coluna sobre turfe chamada Pangaré. Na década de 1950, a coluna foi transferida para o jornal O Globo.

Em uma determinada época, o radialista fazia oito programas por semana: Às segundas, Canção romântica, com Francisco Alves e arranjos do maestro Lyrio Panicali, e o Rádio Almanaque Kolynos (Também com José Mauro). Às terças, Calouros da Orquestra. Às quartas, Um milhão de melodias. Às quintas, Espetáculos Gessy. Às sextas, Nas asas de um Clipper. Aos sábados, Casa da Sogra e, aos domingos, Rádio semana. Todas as atrações eram um sucesso e tinham características bem diversas.

Haroldo Barbosa abriu espaço para gente de talento, segundo ele, mas que não tinha muita chance antes. Ele firmou a carreira de José Vasconcellos e de Chico Anysio, por exemplo. Nos anos 50, passou a escrever peças radiofônicas para Renata Fronzi, que era casada com o radialista César Ladeira. Chamaram-se Vai de Valsa, Adorei Milhões, Botos em 3D e Brasil 3 Mil.  
 
Foi compositor de sucesso: compôs Barnabé, que criticava o funcionalismo público. “Ai, ai, ai, ai Barnabé/Funcionário letra E”. *Até hoje, o termo é sinônimo de funcionário público em alguns dicionários brasileiros. Escreveu também Mesa de Bar, Isso não se Aprende na Escola e De Conversa em Conversa. Escreveu muitas letras de música para a grande cantora da época, Linda Batista, que tinha um contrato para os shows do Cassino da Urca.

Além da Rádio Nacional, passou também pela Rádio Tupi, onde escreveu várias radionovelas, e pela Rádio Mayrink Veiga onde criou a Escolinha do Professor Raymundo, com Chico Anysio. Foi demitido da Nacional depois que compôs Adeus, América, em 1948, considerada subversiva pela emissora. Ele falava que foi aos Estados Unidos, gostou, mas que preferia o Brasil do samba. Nada demais.

Passou por várias emissoras de TV, a partir  Rio, em 1957. Depois, trabalhou na TV Excelsior, Rede Globo. Fez parte da equipe de criação de famosos programas humorísticos, como Chico Anísio Show, Noites Cariocas, O Riso É o Limite, A Cidade se Diverte, Times Square, Faça Humor, Não Faça Guerra, Satiricom e O Planeta dos Homens.
Ele era pai da escritora e roteirista Maria Carmem Barbosa,


Um milhão de melodias YouTube, 23’: https://www.youtube.com/watch?v=xPDC7nElb3Q  

Prefixo da Rádio Nacional: https://www.youtube.com/watch?v=vkNg2P8T40E
Adeus, América
Barnabé – letra da marchinha composta por Haroldo Barbosa e Antonio Almeida (gravada por Emilinha Borba, carnaval de 1948): YouTube: de 2:41 a 5:22

·        Barnabé o funcionário
Quadro extra numerário
Ganha só o necessário
Pro cigarro e pro café
Quando acaba seu dinheiro
Sempre apela pro bicheiro
Pega o grupo do carneiro
Já desfaz do jacaré
O dinheiro adiantado
Todo mês é descontado
Vive sempre pendurado
Não sai desse terere
Todo mundo fala fala
Do salário do operário
Ninguém lembra o solitário
Funcionário Barnabé
Ai Ai Barnabé
Ai Ai funcionário
Ai Ai Barnabé
Todo mundo anda de bonde
Só você anda a pé...