quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Nélson Gonçalves, o Rei do Rádio, O Boêmio



       Rose Esquenazi



  Antônio Gonçalves Sobral, Nélson Gonçalves, foi um dos maiores cantores e compositores da música brasileira.  Considerado herdeiro direto de Francisco Alves e Orlando Silva, Nélson era conhecido pelas canções sentimentais, os sambas-canções, foxes, tangos. Mais tarde, essas produções foram chamadas de bregas-românticas.

          A volta do boêmio, de Adelino Moreira, chamado de “o poeta da dor de cotovelo”, foi gravada em 1957  teve um milhão de discos vendidos. O fato é extraordinário. Na letra, o homem se prepara para voltar à vida boêmia, terror das mulheres que perdiam seus maridos para a bebida e as noitadas.  Pois a vida de Nélson também teve altos e baixos. Mas ele conseguiu conquistar a nova geração de músicos, sabendo respeitar e ser respeitado, gravando com eles.

Com muita sorte e coincidência, soube que a terceira mulher de Nélson Gonçalves, Maria Luiza da Silva, está viva, mas um pouco adoentada. Consegui, então, conversar com Ricardo da Silva Ramos Gonçalves, 57 anos, filho dela com o cantor. Professor de educação física, Ricardo foi muito simpático e solícito. Ele me contou que quando seus alunos das escolas públicas tomam conhecimento de que ele é filho de Nélson Gonçalves, não manifestam a menor reação. Mas quando um adulto descobre a paternidade, a atitude é de respeito e reverência.

Afinal, Nélson foi um dos que mais gravaram discos no país: 300, ao todo. Foi também um dos que venderam mais discos: 50 milhões, ao todo.  Mais tarde, foi superado por Tonico&Tinoco, Rita Lee, Xuxa, Roberto Carlos e Padre Marcelo Rossi, Nélson ainda aparece nas listas dos mais vendidos. Ao lado de Elvis Presley, foi o único artista a ganhar o Prêmio Nipper de ouro, por ter ficado na gravadora RCA por mais tempo.

Nélson participou de 18 filmes brasileiros. Era um galã. Durante a sua vida que incluiu a era de ouro do rádio e da MPB, Nélson teve três casamentos e sete filhos. Ricardo é um dos filhos do terceiro casamento. Com boa memória, ele se lembra das noites em que o pai se apresentava em casas noturnas, restaurantes e clubes e o levava junto. Cuidadosamente, ele preparava uma espécie de berçinho com cadeiras e toalha de mesa para que a criança descansasse enquanto ele cantava. Só para situar os ouvintes no tempo: Nélson tinha 40 anos quando Ricardo nasceu.  Nessa época, ele já não estava no auge da carreira.

Ricardo me disse que “as novas gerações não têm o mínimo conhecimento sobre a história do rádio. O próprio governo e os professores poderiam, segundo ele, cultivar essa memória entre os alunos”. Ricardo conhece os outros meios-irmãos dos casamentos anteriores, com exceção de uma irmã. Para ele, as três mulheres de Nélson Gonçalves foram igualmente fortes e importantes. A mãe dele, Maria Luiza, fez tudo para que Nélson se recuperasse do vício de drogas. Chegou a pedir empréstimo para pagar o tratamento e advogado para defendê-lo no tempo em que ficou preso por porte de droga. Em alguns depoimentos ainda em vida, Nélson repetiu para os jovens que “homem é aquele que sai das drogas e não volta nunca mais”.

Segundo o radialista Beni Gualter,  a prisão de Nelson Gonçalves, na Casa de Detenção de São Paulo, provocou um escândalo nacional. No seu blog, Gualter disse que “alguns dias depois, a direção do presídio recebeu um abaixo assinado dos 3.000 presidiários, onde eles pediam que suas penas fossem aumentadas em um dia cada um, e que em troca Nelson Gonçalves fosse libertado”. Ouça no YouTube outro sucesso, que é Fica comigo esta noite, de Nélson Gonçalves e Adelino Moreira

Depois da morte de Nélson, em 18 de abril de 1998, com quase 70 anos, muitos livros, filmes, peças de teatro e programas de TV foram lançados para contar a história do cantor. E não faltaram cenas de glamour, com o mesmo brilho de Hollywood, e momentos tristes.   Nélson fazia um tipo bonitão, e as fãs se jogavam em cima dele. Mas podia ser agressivo quando tentava se livrar das drogas.

Ricardo chegou a conhecer a avó portuguesa no bairro do Brás, em São Paulo, mas não o avô, seo Manoel. Aliás, esse avô aprontava para ganhar dinheiro na época em que era muito pobre. Ricardo conta que ele levava Nélson  ainda garoto, de 5 anos, e um cego para as feiras e parques. Os três cantavam para o público, que ficava encantado com aquela criança de boa voz. No final, na hora de dividir o dinheiro, o avô dava para o cego as menores notas e ficava com as maiores! Feio isso, não é? Ricardo conhece outros casos parecidos. No tempo em que São Paulo ainda tinha luminárias de querosene nas ruas, o pai de Nélson quebrava os mecanismos internos e depois se oferecia para consertá-las!. Os moradores, temerosos dos ladrões, aceitavam. Isso não se faz.

Ricardo chegou a ver o pai lutando boxe em uma luta histórica, contra o famoso Éder Jofre, no Ibirapuera. Antigo campeão, ele continuou indo para academia durante muitos anos depois de ter largado a carreira de lutador. Anos mais tarde, teve uma fase em que ficou parrudo. “Ele adorava conversar, era muito espirituoso. A gente morria de rir com as histórias dele”, conta o filho.

         Nélson nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, no dia 21 de junho de 1920. Os pais eram portugueses bastante pobres. A família se mudou para São Paulo e morou no bairro do Brás. Desde criança, Nélson sonhava com a carreira de cantor profissional e, claro, trabalhar em rádio e gravar discos. Mas foi longa a trajetória dele, nem tão fácil assim.
         Nelson não teve preconceito sobre a maneira de como poderia ganhar dinheiro para sustentar os pais. Exerceu a profissão de jornaleiro, mecânico, engraxate, polidor e tamanqueiro. Até em luta livre ele tentou uma chance e, o incrível, foi bem-sucedido. Tornou-se lutador na categoria peso-médio. Aos 16 anos, ganhou o título de campeão paulista de luta. Aos 20 anos, ele se casou com Elvira Molla e teve dois filhos: Marilene Gonçalves e Nelson Antônio Gonçalves. Chegou a trabalhar como garçom no bar do seu irmão, na Avenida São João.
         Continuou lutando durante mais um ano até que decidiu tentar uma chance no rádio. Ele foi a várias estações e foi reprovado em muitas atrações de calouros. Ou porque ficava nervoso, ou porque estava com fome, ou porque falava rápido demais e ninguém acreditava que ele pudesse exercer a profissão de cantor. Ele era taquilárico e não gago, respirava rápido demais e embolava as palavras. Por isso, acabou ganhando também o apelido de “Metralha”.
         Nélson decidiu gravar um disco para mostrar que tinha potencial. O problema é que ninguém acreditava que aquele cara que falava rápido e se atrapalhava tanto podia cantar tão bem como aparecia gravado. Quase foi preso por fraude, até que conseguiu provar que era ele mesmo que havia gravado o disco.
         Foi reprovado duas vezes no programa de calouros de Aurélio Campos, Em São Paulo. Finalmente foi admitido na Rádio São Paulo, PRA-5, e dispensado logo depois. Conseguiu fazer carreira em um tempo de crise até que decidiu ir para o Rio de Janeiro, em 1939.  Naquele tempo, as cidades não trocavam muitas informações. Teria que começar do zero. Voltou a ser reprovado em vários programas e até nos Calouros em desfile, de Ary Barroso. Terror dos calouros, Ary aconselhou a Nelson a desistir da carreira de músico e voltar para os ringues. Já estava passando fome, vivendo nas pedras da Praia do Flamengo, quando foi aceito na Rádio Mayrink Veiga. O contrato aconteceu graças à sugestão de Carlos Galhardo que já o conhecia do rádio de São Paulo. Para comemorar o adiantamento que recebeu, Ricardo – seu filho - nos contou que ele saiu correndo, sabe para quê? Para comer! Pediu um pato assado, se fartou. E ainda levou o que sobrou para os conhecidos que também viviam nas pedras do Flamengo. Ouça no YouTube o sucesso Negue.

         Nélson Gonçalves também foi contratado para ser crooner no Cassino Copacabana, do Hotel Copacabana Palace. Tornou-se um dos maiores ídolos do rádio nas décadas de 40 e 50. No fim dos anos 40, sofrendo com os ciúmes da mulher, teve um longo caso com Maria, uma fã mineira, apaixonada por ele. Maria acabou com ele misteriosamente e, anos mais tarde, soube-se que ela estava grávida. Ela achava que Nelson não iria se separar da primeira mulher. Lilian é essa filha dos dois, única irmã que Ricardo não conhece.
         Nélson teve uma união difícil com a cantora Lourdinha Bittencourt, colega da Rádio Nacional. Ela não queria engravidar para não perder o corpo esbelto que tinha. O casamento em 1952, que começou com paixão, acabou em 1959, com muitas brigas. Nélson emendava uma turnê na outra, era super requisitado e acabou se viciando em cocaína. Em 1965, ele conheceu Maria Luiza da Silva e, depois do namoro, se casaram.  Juntos tiveram dois filhos: Ricardo e Maria das Graças. Nélson foi preso em flagrante e é claro que o fato abalou a carreira do cantor. Como disse, Maria das Graças lutou muito para recuperar o marido.
         Depois que saiu da cadeia, teve dificuldades de se encaixar no mundo da música. Ao lançar o disco A Volta do Boêmio nº1, voltou a ter  sucesso, retomando a carreira como recordista de venda de discos. Ao contrário de tantos outros músicos que se isolaram, Nélson gravou canções de novos compositores e grupos como Ângela Rô Rô (Simples Carinho), Kid Abelha (Nada por Mim), Legião Urbana (Ainda É Cedo) e Lulu Santos (Como uma Onda). Gravou "A Deusa do Amor", que está no álbum Nós, em parceria com Lobão, em 1987.
         Nélson morreu em consequência de um infarto agudo do miocárdio no apartamento de sua filha Margareth, no Rio. A música Naquela mesa que o jornalista Sérgio Bittencourt escreveu em homenagem ao pai, Jacob do Bandolim, quando ele morreu em 1969.

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