segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Roberto Martins, um compositor de ouro


Rose Esquenazi

          A música Favela, de Roberto Martins e Waldemar Silva, tocada insistentemente nas rádios brasileiras nos anos 40, guarda o astral do Rio no momento em que as favelas estavam aparecendo na cidade e ainda tinha ares muito românticos.Roberto Martins  nasceu no Rio de Janeiro, no bairro do Riachuelo, dia 29 de janeiro de 1909. O pai português deu duro no armazém de secos e molhados, até se tornar dono do comércio. Só que ele morreu quando Roberto, segundo filho do casal, tinha um ano. O baque foi imenso. Sem reservas econômicas, a mãe descobriu que podia defender alguns trocados tocando piano nos cinemas que ainda passavam filmes mudos nos subúrbios cariocas. Foi assim que o menino foi aprendendo a tocar e a apurar o ouvido.

          Para ajudar no sustento, o futuro compositor se tornou empalhador e, depois, se empregou no comércio. No segundo casamento de sua mãe, as finanças melhoraram um pouco, sendo que Roberto, em 1929, entrou para a Guarda Civil. Gostava de andar pela Lapa e pela Praça Tiradentes, onde circulavam os boêmios, os compositores e cantores. Tomou gosto pelas composições. Foram, ao todo, 197 sambas, 97 marchas, 16 batucadas, 12 sambas-canções, duas marchas-rancho, dois baiões, um partido, boleros, quatro foxes, samba-exaltação, sete chorinhos, rumbas e até tango. Era um músico eclético que mostrou a sua arte em 395 gravações. Casou com Isaura e teve três filhos: Yole, Elizabeth e Jorge Roberto Martins, jornalista especializado em música, que trabalhou na Rádio MEC FM até o ano passado.  

          Francisco Alves, o Rei da Voz, demorou muito para aceitar gravar Favela. Se gravasse, todos sabiam, seria sucesso imediato. Conhecendo a ansiedade de Roberto Martins, uma amiga em comum dos dois, inventou um truque que deu certo. Em uma festa, Chico Alves gostou muito do cachorrinho da moça e assim ela lançou um desafio: iria dar o cãozinho quando Chico Alves gravasse a música de Roberto. Dito e feito.

          Mas Favela não foi o primeiro samba do compositor. A estreia se deu com Justiça e foi composto quando Roberto ainda trabalhava como policial. A música não chegou a ser gravada, mas a letra foi comentada e publicada em uma revista especializada. Em 1933, o compositor conseguiu emplacar duas músicas que foram gravadas na Odeon: Segredo e Regenerado. Vamos ouvir na voz de Leonel Faria Regenerado, que fala dos mesmos temas escolhidos por Noel Rosa e outros compositores da época: boemia, orgia, regeneração. 

          Assim que foi fazendo sucesso e emplacando as suas músicas, Roberto Martins cada vez mais passou a frequentar o Café Nice. Nos anos 30, funcionava ali o ponto de encontro informal de jornalistas, compositores, radialistas e boêmios. Todos homens, com uma única exceção: a cantora Araci de Almeida. Roberto Martins e Custódio Mesquita ajudaram Aracy a entrar na Rádio Educadora e na gravadora Columbia. Queridinha de Noel Rosa, para ele, sua melhor intérprete, Aracy acabou fazendo carreira na música durante muito tempo graças à ajuda dos amigos que indicaram uma porta  aberta no rádio. A história do Café Nice está muito bem contada no livro de Jairo Severiano Uma história da música popular brasileira.

          Localizado na Avenida Rio Branco, o Café Nice era vizinho do Teatro Municipal, Hotel Avenida, os bares da Galeria Cruzeiro,  dos jornais Diário Carioca, Jornal do Brasil, O Globo, do Diário Carioca, da revista O Cruzeiro, dos dancings, onde os homens pagavam para dançar com as mulheres e as estações de rádio. Funcionavam ali a Rádio Cajuti, Sociedade, Cruzeiro do Sul, Globo e Rádio Jornal do Brasil. No Nice, qualquer pessoa podia ter seu escritório particular sem pagar nada a mais por isso. Os garçons davam recados, procuravam as pessoas. Segundo Severiano, os convites e anúncios eram colados nos espelhos do bar e todos se comunicavam através desses papeizinhos.
   
          As letras escritas por Roberto eram criativas e tinham a marca da simplicidade. Além disso, ele “limitava as melodias à extensão de uma oitava” para qualquer pessoa cantar.  Em 1949, compôs para o Carnaval Pedreiro Valdemar, com Wilson Batista. A letra tinha tons socialistas. Valdemar construía edifícios e, depois, não podia nem entrar no prédio. Ou fazia casas e não tinha onde morar.

          Voltando ao Café Nice, ponto de encontro dos músicos na Avenida Rio Branco: certa vez, no Carnaval de 1944, Roberto Martins estava conversando com o fabuloso compositor Geraldo Pereira, quando a mulher de Roberto chegou. Dona Isaura estava vestida de baiana, mas estava tão desanimada que chamou a atenção dos dois amigos. Até que Roberto disse. “Olha aí, Geraldo, a falsa baiana...” Sem querer, essa frase inspirou a música Falsa Baiana, assinada apenas por Geraldo Pereira.
Baiana que entra no samba, só fica parada//Não samba, não mexe//Não bole nem nada//Não sabe deixar a mocidade louca//Baiana é aquela que entra no samba// 
De qualquer maneira//Que mexe, remexe//Dá nó nas cadeiras//Deixando a moçada com água na boca

         Acho que Dona Isaura não deve ter gostado nadinha da música que fez muito sucesso.Vamos voltar um pouco no tempo. Roberto Martins saiu do posto de policial para o cargo de investigador. Trabalhou dois anos nesse posto, pediu licença em 1939, mas nunca mais voltou. Não precisava mais. Com Nássara, Roberto Martins compôs em 1939 um grande sucesso. Com o título Meu consolo é você. Orlando Silva, uma das mais belas vozes da música brasileira, ganhou o concurso de músicas carnavalescas da prefeitura. Outro sucesso foi Cai, cai, que entrou para a lista dos clássicos carnavalescos, continuou a ser tocada nos bailes das décadas seguintes. Carmem Miranda levou a música para os Estados Unidos divulgando o nome de Roberto. É possível ouvir a batucada na interpretação de Carmem no filme That night in Rio, de 1941.

         Mesmo depois da Época de Ouro, terminada em 1945, Roberto Martins continuou trabalhando. Passeando pelos mais diversos gêneros, o compositor que morreu aos 83 anos, em 1992, era intuitivo e tinha grande imaginação. O Instituto Cravo Albin e a Rádio Batuta, do IMS, fizeram homenagens à obra de Roberto Martins. Tendo como intérpretes grandes cantores como Orlando Silva, Francisco Alves, Carmem Miranda, por exemplo, Roberto Martins sentia cada vez mais segurança para continuar compondo pérolas, como  Meu consolo é você, Devagar com a louça, Cordão dos puxa-sacos.  

          Sozinho ou com outros compositores criou uma carreira sólida. Às vezes, o intérprete também dava uma mãozinha para que a obra ficasse redondinha. O caso da música Beija-me é um desses exemplos. Um dos primeiros sucessos de Nelson Gonçalves, a música de Roberto Martins e Mário Rossi caiu como uma luva na voz de Elza Soares. Mãe aos 13 anos, a jovem Elza apareceu no programa de Ary Barroso quando não tinha dinheiro nem para comprar roupas ou ajeitar os cabelos. Ela modernizou esse samba em 1960. A interpretação parece ainda hoje muito moderna.  Zeca Pagodinho também tem uma linda versão para a música, podem procurar no YouTube. 

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