segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Brandão Filho: o primo pobre da Nacional


Rose Esquenazi


          Os mais famosos programas humorísticos da Rádio Nacional foram o PRK 30 e o Balança mas não cai. Marcus Aurélio já citou várias vezes essas atrações no quadro "O rádio faz história". Hoje, quero lembrar especificamente de um personagem do Balança que me comovia muito: o ator Brandão Filho, que interpretava o Primo Pobre. Ele era peça importante da dupla que fazia com Paulo Gracindo, o Primo Rico.

           O pai de Brandão também era ator, e famoso no século passado: João Augusto Soares Brandão morreu quando o filho, também chamado de Brandão, tinha 11 anos. Para sobreviver, o jovem que nasceu em 1910, passou a entregar roupa de uma tinturaria e depois mercadorias de uma padaria.

          Brandão, ou melhor, Moacyr Augusto Brandão Filho,  estreou no teatro em 1929, aos 19 anos, e trabalhou também no circo. Era do tipo antigo de humorista que fazia caretas e usava a voz com malícia. Logo, ele percebeu que a sua inibição desaparecia quando conseguia fazer os outros rirem de seus quadros. Em 1942, ele foi convidado para participar da primeira radionovela brasileira, Em Busca de Felicidade, da Rádio Nacional. Como era usual naquele tempo, os radioatores emendavam a carreira  no cinema e assim Brandão Filho estreou nos filmes O Dia é Nosso e Samba em Berlim.

          Brandão Filho só conquistou sucesso para valer com o personagem "primo pobre" no programa radiofônico Balança Mas Não Cai, da Rádio Nacional. Por vários motivos: o Balança revolucionou o formato dos humorísticos. Era feito com quadrinhos com rápidas cenas de personagens contracenando na portaria do edifício Balança mas não cai. O Edifício Prefeito Frontin, na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio, fez 70 anos, mas tinha o apelido do programa da Nacional. Deixou de ser malvisto e passou a ser um prédio normal, sem confusões com a polícia recentemente.  Enorme, com apartamentos pequenos, reúne também muitos personagens.

          Voltando ao programa, não é possível falar no Balança sem antes citar seus criadores, os roteiristas Max Nunes, que morreu em 2014, e Haroldo Barbosa, que nos deixou em  1979. Max e Haroldo já trabalhavam na Rádio Nacional quando foram chamados pela direção da estação para apagar um incêndio. Isto é, a famosa dupla Lauro Borges e Castro Barbosa, do PRK-30, estava deixando a Nacional porque não conseguiu aumento de salário desejado. Decidiram, então, se transferir para a Rádio Tupi. Como faziam enorme sucesso, era preciso uma atração nova que pudesse entrar no ar imediatamente. Em seus depoimentos, Max Nunes disse que imaginou um prédio porque seria um cenário fixo, simples. Esses edifícios passaram a ser erguidos depois da Segunda Guerra, em vários bairros da cidade. Havia uma grande carência de moradia no Rio de Janeiro de então.

          Engenhosamente, os personagens foram sendo criados pela dupla de radialistas Haroldo e Max, que aceitaram a sugestão de Paulo Gracindo. Ele já era radioator e famoso apresentador de seu próprio programa. Paulo Gracindo se lembrou de um tio dele muito rico e que era um sovina danado, pão duro mesmo. Quando Gracindo veio jovem de Alagoas para o Rio, sem dinheiro, tentou pedir ajuda ao tio. Mas esse homem inventava mil desculpas furadas, absurdas. Haroldo e Max adoraram a sugestão e escalaram Brandão Filho para o Primo Rico e Gracindo para o Primo Pobre. Logo nos ensaios, os dois se entreolharam e viram que havia uma coisa errada. O aspecto de Brandão era de uma pessoa pobre, encovada. Já Gracindo era uma figura ensolarada, bonita, com cara de rico, vamos dizer assim. Houve a imediata troca e estrearam no programa em 1950.

          O sucesso do Balança mas não cai foi extraordinário, muito por conta da dupla Primo Pobre Primo Rico. Tanto que, anos mais tarde, continuou participando do programa que estreou na TV Globo, em 1968.
Na Rádio Nacional, ele ia ao ar duas vezes por semana, às sextas-feiras, às 20h35, ao vivo, e, aos sábados, gravado, antes de outro grande sucesso o Programa César de Alencar. Era patrocinado pela Perfumaria Myrta, que faliu em 1980 e vendia o famoso sabonete Eucalol. Segundo Ronaldo Conde Aguiar, em seu livro Almanaque da Rádio Nacional, o Balança mas não cai "era uma crônica do cotidiano de um edifício e, apesar de ter características eminentemente cariocas, tornou-se um sucesso nacional”.

          Na televisão, Brandão Filho começou pela Tupi, em 1954, de onde foi para a TV Globo, em que participou de vários programas humorísticos, entre eles a Escolinha do professor Raimundo, Viva o gordo e Chico total, além de oito novelas. Chico Anysio gostava que ele repetisse o bordão: “Primo, você é ótimo”, que marcava o diálogo entre o tão insensível primo rico e o pobretão que tinha mulher e filhos, todos passando fome.
Seu personagem na Escolinha era Sandoval Quaresma. Sua característica era a seguinte: sempre começava a responder direitinho as perguntas do professor e depois se enrolava todo. Do bordão “Opa. Tá na ponta da língua” passava para “Agora que me estrepo” e depois, se lamentando “Eu estava indo tão bem!”

           Na década de 70, Brandão Filho fez outro extraordinário sucesso: foi o avó do seriado A grande família, de Oduvaldo Vianna Filho. Brilhante como ator, deixou de lado os rejeitos, e interpretou um papel bem diferente: um carregador avaro e mulherengo no filme Romance de empregada, de Bruno Barreto. 




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